O desenho parece improvavel e infantil. Mas afinal nao e. Aquilo que se afigura ingenuo transforma-se em realidade e e tao verdadeiro que custa a acreditar no que vemos. A origem geologica perde o sentido na composicao: nao nos interessa se foi a agua que cavou buracos na montanha e criou planicies cheias de pinaculos ou se foi o Diabo que apontou os cornos a Deus por debaixo da terra. Nao queremos saber se o que vemos e calcario ou barro moldado por maos de gigantes. Nao nos interessa nada disso. Seja por que motivo for, Guilin e improvavel e espectacular.
terça-feira, 1 de julho de 2008
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Capitulo 9 - Yangshuo, dia 1 |
terça-feira, 24 de junho de 2008
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Capitulo 8: Yangshuo - uma guia chamada Amy |
Look Joana! It looks like a... ihihihih... you know Joana! ihihihih... a penis! ihihih...
E ainda e la que vive. Aprendeu ingles a conversa com turistas desde ha 9 anos e foi provavelmente isso que definiu grande parte da sua vida.
I am very lucky in Yangshuo! The more lucky! I went to Beijing one time. My friends from Canada tell: come Amy, come with us to Beijing. I go to president room! Pffffff! - lingua de fora, olhos esbugalhados e maos a abanar de ansiedade - the more lucky!
Ser guia nao so lhe serve de ganha-pao como tambem lhe vai permitindo fortalecer amizades por toda a cidade. Yangshuo vive assim mesmo: toda a cidade serve o turismo, mas sao os guias que distribuem os turistas pela cidade. O hotel em que ficamos era das amigas da Amy, os restaurantes em que comemos eram dos amigos da Amy, os taxis em que viajamos eram dos amigos da Amy, a bicicleta em que assei o meu rabo era duma velhinha amiga da Amy. O esquema e obvio mas nao chega a ser escabroso, a Amy e demasiado pura para nos enganar.
I was worry because you come by bus. Is very dangerous because of the bad people. - afunila a cara na boca, nos olhos e no nariz pequenino e faz um ar serio - One day I am in bus. I sleep and the bad people come and cut my bag. I lose my money. Bad people...
Alias quase tudo o que assusta a Amy neste mundo sao mesmo a bad people e a floody. Para ela nao ha terramoto que chegue a Yangshuo ou mosquito da malaria que consiga viajar mais longe que Guangzhou. Nao ha lixo que fabrique Dengue. Nao ha febre amarela. Nada! Just the floody is very bad. O rio Li transbordou uma semana antes de termos chegado. Aqui e ali ainda havia comerciantes a tentar enxaguar roupa, relogios falsos, colares e aneis de prata, toda a quinquilharia que provavelmente tinham em casa a acumular camadas de poeiras pre-historicas. A Amy quase que estremecia de cada vez que eu lhe perguntava se tinham perdido muito com as cheias.
Ah! Very bad the floody, Pidro.
A Amy tem uma filha que lhe custou 600 euros.
domingo, 22 de junho de 2008
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Capitulo 7: De Guangzhou para Yangshuo |
Yide Xilu, Qingpin Market, Shamian Island: No Coracao da Cidade
sábado, 21 de junho de 2008
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Capitulo 6: Guangzhou |
Bastou cruzar a fronteira para percebermos que Hong Kong e Macau tinham ficado para tras e que a nossa vida nao tardaria a complicar-se. Assim que saimos do edificio da alfandega, esmagados no meio de uma multidao de pessoas, e descemos as escadas rolantes que davam para a estacao de autocarros, deparamo-nos com um mercado labirintico, que se estendia ao longo de umas dezenas de metros, onde se vendiam desde massagens nos pes, ate dragoes de jade por uma pechincha. Ainda meio baralhado com a intensidade da luz branca que me entrava nos olhos vinda de todo o lado e com a energia dos vendedores, que pareciam autenticos corretores da bolsa na Wall Street, fui arrastado para o interior de uma loja de relogios, onde uma senhora me passou para as maos uma imitacao perfeita de um rolex:
- 300 yuans, sir! - gritou ela.
- Too expensive - respondi-lhe eu. - And for two rolex, how much?
Os olhos dela brilharam quando lhe falei em dois:
- 550 yuans, sir!
- No, that's too much...
- So choose a price, sir - retorquiu ela num ingles encriptado, estendendo-me a calculadora para eu escrever o numero magico.
Ofereci-lhe 350 e a resposta dela foi sintomatica:
- Ok.
Tinha entrado na China nem ha meia hora e ja tinha dois rolex no bolso. Tinha que me controlar. Depois demos mais uma volta pelos corredores interminaveis daquele mercado, vimos bancas inteiras so de perolas, lojas de sedas, carrinhos de fritos, onde chineses se aglomeravam como formigas e que volta e meia libertavam um cheiro doce e enjoativo, restaurantes a transbordarem de pessoas, enfim, se ainda restavam duvidas, aquele passeio acabou com todas elas: estavamos na China e daqui para a frente nada seria o mesmo.
Li Cheung Li, Lilac International Suites, Tianhe District: Perdidos no Meio da Selva
Chegamos a Guangzhou por volta das 8 da noite, depois de uma viagem de quase duas horas de autocarro. Faltavam alguns dez minutos para chegarmos e ja parecia que estavamos em plena cidade. Predios enormes cercavam o autocarro por todo o lado e uma cupula de smog estendia-se ate ao horizonte. Guangzhou ja e uma cidade tipicamente chinesa, com um movimento e uma agitacao que nao se ve em mais parte nenhuma do mundo, em que o transito e caotico e em que a poluicao juntamente com a humidade tornam o ar simplesmente irrespiravel.
Os nossos problemas comecaram quando tivemos que sair do autocarro e nao sabiamos onde sair. Guangzhou e uma cidade enorme e nos tinhamos hostel marcado no distrito de Tianhe, so que nao faziamos a menor ideia onde sair. O motorista nao falava ingles e abanava a cabeca quando nos dirigiamos a ele, como se nao estivesse disposto a comunicar com um ocidental, as placas estavam todas em caracteres e nos nao conheciamos a cidade. O melhor que nos ocorreu fazer foi sair numa paragem junto a uma universidade, porque a probabilidade de encontrar alguem que falasse ingles era maior e agora que olho para tras nao tenho duvidas que foi a melhor decisao que tomamos.
Foi a entrada desta universidade que conhecemos Li Cheung Li, uma estudante de mandarim e tradicao chinesa, que se ofereceu para nos ajudar. Era uma rapariga bem simpatica, que falava ingles (uma raridade deste lado do mundo), de 22 anos, que minutos mais tarde nos revelaria, como que erguendo um trofeu, que ja tinha tido dois namorados britanicos e que actualmente namorava um chines que estava a estudar engenharia no MIT. Li Cheung Li nao conhecia a rua do nosso hostel e depois de conversar com alguns taxistas percebeu que o nome da nossa rua devia estar errado. Por isso fui com ela ate a sala de computadores da universidade para ver se descobriamos o nome da rua. Depois de alguma pesquisa la a ouvi exclamar: "Taishong, not Taisheng...". E dai ate apanharmos um taxi nao demorou muito. Antes ainda me garatujou no moleskine o nome de uma casa de cha, um restaurante imperdivel e o nome de alguns pratos que ela aconselhava. Li Cheung Li foi um achado nesta terra onde nos sentimos sempre a deriva e onde dependemos totalmente da boa vontade das pessoas para nos dirigirmos onde quer que seja.
Quando finalmente demos com o nosso hostel, os nosso olhos mal queriam acreditar no que viam. Depois do nosso quarto exiguo no USA Hostel, o apartamento no Lilac International parecia a suite presidencial do Hotel Ritz. Tivemos direito a 3 quartos, a uma sala ampla, com televisor Konka Widescreen e tudo por 10 euros por cabeca, menos do que tinhamos pago durante a nossa estadia em Hong Kong. Fumei uma cigarrilha sentado no sofa, enquanto procurava um canal que transmitisse resumos do Euro. Pouco tempo depois estavamos a sair para explorar o distrito de Tianhe.
BGL
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Capitulo 5: pulando a cerca |
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Capitulo 4: mais Macau |
A Joana gostou da ideia e mandou o Jay mergulhar.
- Jay olha que se saltas aquilo es o maior do mundo!
- Epah pois sou pah...
- Jay, vais-te armar em menino? O Pinto de estivesse aqui ja se tinha mandado!
- Epah pois ja pah...
E o Jay transformou-se num emaranhado de nos no estomago, como se as tripas lhe tivessem subido para cima do duodeno. Parecia uma alforreca das que murmuram "pois e pah..." e que contemplam o horizonte e o chao com os mesmos olhos apaticos. A Joana nem o deixava respirar. Deve ser tramado ter a adrenalina maior que o estomago, porque a unica coisa que impediu o Patrone de se armar em yo-yo foram os 130 euros que custava a brincadeira.
Ao inicio da noite fomos visitar Coloane. Uma ilha que nao e ilha mas que em tempos deve ter sido. Entre Coloane e Taipa ha um istmo de terra branca e plana cercada a tapume por todos os lados. Nao e dificil adivinhar as formas dos hoteis que ali vao nascer. Vejo Vegas em duplicado: piramides de Gize a meia escala, torre Eiffel, coliseu de Roma, Empire State Building. Muitas luzes que piscam. Capelas em que as pessoas entram depois de comungarem tanto sangue de cristo que no dia seguinte nao se lembram que elas e mais alguem sao afinal um so. Estou gelado pelo microclima de ar condicionado que se faz sentir dentro do autocarro. Estas tempestades de vento frio confundem-me as amigdalas desde que aqui cheguei. Quando adivinhamos estar perto do nosso destino geramos a aparato do costume sempre que precisamos de indicacoes: discutimos com o autocarro inteiro qual a melhor saida para visitar a vila de Coloane. Ate o condutor se mexe frenetico no seu banco saltitao e assiste a cena pelo retrovisor que espelha o corredor. Pelo menos cinco chineses falam connosco em chines. So um jovem (sao sempre eles) nos explica, naquele ingles do costume tocado a xilofone, que a paragem nao e esta mas a proxima. Saimos do frio seco para o calor torrencial e a Joana corre de braco dado a uma velhinha chinesa que insiste em indicar-nos em lingua de caracteres qual a rua mais pitoresca. A verdade e que a entendemos e foi assim que conhecemos o senhor Vong Iu Tong.
O senhor Tong e um Macaense dono de um restaurante em Coloane. Nas suas listas bilingues esta escrito em portugues: ameijoas a portuguesa, camaroes cozidos em agua e sal, caldo verde, caranguejo, sopa de marisco, feijoada, entre outros. Os precos sao portugueses anoes. Como ninguem nos atendia depois de muito tempo sentados comecamos a barafustar com os bracos no ar e os rabos so meio sentados. O senhor Tong apareceu a correr a cantar pela rua fora. Mal chegou ao pe de nos pos-se logo a aconselhar pratos em portugues, como se tambem a nossa lingua se falasse a jorros:
- O caranguejo quanto custa?
- Caranguejomuitobom.
- Ah!, fala portugues?!
- Faloportugues. Umpouco. Falopouco.
E ria-se com o corpo todo.
- Cascais. Lisboa. Muitobom.
E fazia fixes com as duas maos.
- Paocommanteiga?
Depois gritava a sua empregada o que era preciso trazer com uma eficiencia inesperada, tal era a brincadeira cultural em que se tinha transformado o nosso pedido. O resto do jantar passamo-lo a ver o senhor Iu cantar de mesa em mesa com o seu copinho de licor. Fez saude com toda a rua. Eram uns quatro restaurantes seguidos, que conviviam muito bem com as suas virtudes e defeitos. Os pratos eram cozinhados uns aqui e outros ali. Cada restaurante fabricava so aquilo em que realmente se especializara e nenhum levava a mal que o caranguejo do outro fosse melhor que o dele, porque afinal de contas nao ha carapauzinhos grelhados como os que aqui se vendem. Comemos um banquete de marisco ao preco da chuva e sentimo-nos verdadeiramente em casa, na esquina daquele larguinho de arcadas com chao de calcada e uma igreja ao centro.
PCH
quarta-feira, 18 de junho de 2008
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Capitulo 3: Macau |



E impossivel descrever Macau numa linha. Posso tentar:
Macau e muito giro, porque e muito portuguesa e nos faz sentir em casa.
Tiramos a fotografia tipica na escadaria que sobe ate a fachada da Igreja de Sao Paulo e fomos comer a um beco sem saida. A sugestao foi da Mariana, nossa anfitria que nos recebeu muito bem (ate tivemos direito a roupa de cama lavada). Era um restaurante de dumplings: pasteis de massa de arroz fritos com o que quisermos la dentro - a variedade de ingredientes e enorme. Sao autenticas esponjas de gordura. Sabem todos praticamente ao mesmo depois de afogados em molho de soja, mas bastam tres ou quatro pasteis daqueles para parecer que acabamos de comer uma pacote de banha de porco a colher.
Tudo isto e muito pitoresco e e engracado viver entalado entre a China e Portugal. Mas os vinte cinco milhoes (em numerario impressiona mais: 25.000.000) de turistas que Macau recebe todos os anos nao vem comer dumplings nem subir escadinhas ate aquela igreja que e so uma fachada com 15 metros. Macau e o unico sitio em toda a China em que se pode torrar dinheiro em casinos (imaginem se em toda a Europa so se pudesse jogar na Figueira da Foz) e por isso eles nasceram como cogumelos desde que Portugal devolveu o territorio aos chineses. Desde entao que a China cresce a mais de 10% ao ano e o aumento de riqueza nota-se bem. Dos muitos destinos que esse dinheiro tem, um deles e sem duvida o jogo e por isso gasta-se hoje mais dinheiro ao jogo em Macau que em Las Vegas. Foi o que eu e o Bernardo fizemos: de chanato nos pes e calcas arregacadas por causa da chuva, entramos pela porta principal do maior casino do mundo. O Venetian: uma replica do Venetian de Las Vegas, mas cinco vezes maior. La dentro passa-se tudo numa so sala gigante. Por cima esta Veneza em ponto pequeno na forma de um centro comercial de luxo, com canais e gondoleiros chineses que cantam excitadinhos e batem palminhas, em cima de gondolas que funcionam a motor. Ainda mais acima estao 3000 quartos de hotel. Sao 55.000 visitantes diarios que o casino recebe. Joguei 200 HKDollars com o Bernardo e ganhamos 1500. Fugimos depois para o bar do canto com musica ao vivo. O Bellini. O palco e todo americano e a musica bem tocada.
terça-feira, 17 de junho de 2008
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Capitulo 2: Kowloon/ Hong Kong |

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quinta-feira, 12 de junho de 2008
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Capitulo 1: Kowloon/Hong Kong |
segunda-feira, 9 de junho de 2008
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
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Guernica (parte 2) |
Saiu pela porta por onde entrara e ficou parado 10 passos adentro da praça branca, os olhos encandeados pelo sol, caído numa apatia vazia de pensamentos. Era frequente em Santiago tropeçar nestes momentos pseudo-nostálgicos. Sem mais nem menos alheava-se de tudo e punha o mundo à prova, "E se eu ficasse por aqui? Aqui mesmo parado e sem fazer nada, sem pensar em nada? E se não fosse trabalhar? E se não voltasse para casa? O que é que me obriga a mexer daqui para fora?" e depois destas lucubrações mergulhava a cabeça no abstracto e todo ele era apenas os seus sentidos sem nenhuma razão que os conduzisse. Sem dar por nada fumava um cigarro encostado a um daqueles candeeiros de rua em estilo art-déco, pintados de verde e rematados de dourado. Entravam-lhe pelos ouvidos os gritos histéricos e excitados dos miúdos da 4ª Classe todos brancos de cima a baixo, com bonés amarelos pendurados nas cabeças. Entretia os olhos com a tentativa frustrada das professoras de os tentar alinhar em qualquer coisa parecida com uma fila indiana. Pela altura dir-se-ia que tinham a mesma idade que os miúdos. Mas eram velhas e feiosas. Atarracadas, costas naturalmente curvadas, com os rabos enormes, daqueles que se invadem costas acima, espetados por debaixo das saias de flanela de cor duvidosa, compridas até perto das canelas. O fecho éclair a imitar o rego. As duas cabeças de cabelo grisalho, disfarçado de vermelho acastanhado gritantemente falso, estavam frenéticas. Eram a imagem perfeita da tensão arterial. Estavam desesperadas. Chocolates que caíam ao chão e rebulavam para longe; yo-yo's que se soltavam das mãos; chapadas nas nucas que deitavam os bonés pelo ar e que geravam birras de gritos agudos que acabavam chorados; os miúdos eram insuportáveis. Nisto Santiago pensava como faria algum sentido que a altura das pessoas fosse um requisito para se ser professor da primária. E o porte físico e a saúde mental também. E o colestrol mais ainda. "Desculpe, na nossa escola só aceitamos candidatos com menos de 180 de colestrol. Os seu nível ultrapassa os 185, lamento.", "Parabéns pelos seus bícepes, está contratado!".
Depois foi a voz rouca do velho maluco do outro lado da praça que lhe chamou a atenção. Voltou-lhe o olhar e viu que não era velho nem maluco mas mesmo assim não acreditou, porque não é essa a ordem natural das coisas. Quem vive na rua é sempre velho e maluco. E mesmo que não seja passou a sê-lo por decreto, naquela primeira noite em que se enfiou dentro de uma caixa de cartão e dormitou às portas do Ministério da Agricultura e das Pescas, finalmente apaziguado pela miséria extrema. Porque caíra no abismo mais profundo. Era impossível que a vida doesse mais que aquilo. Que a penúria se esvaziasse ainda mais. Atingira o mínimo de felicidade: finalmente o consolo e a paz de espírito!
Agora declamava poesia a troco de moedas. Escrita por ele, via-se bem. O seu pulmão soluçava como um escape duma lambreta orgulhosa. As lambretas são sempre orgulhosas. Primeiro Santiago ouviu sem entender e sorriu comovido. Mas depois tentou compreender: ouviu as primeiras palavras e procurou o sentido nos versos que se seguiam. Ancorava o que ouvia depois no que ouvira antes e os versos escorriam sem que nenhum se encadeasse e de repente Santi entendeu que nada se entendia. Que eram apenas frases desconexas. Começavam e terminavam como dizeres isolados. Era como ler um dicionário e cantar em tom de poesia:
"O amor:
Amor é substantivo masculino.
Amor vem do latim amore,
Amor é viva afeição,
Amor impele para o objecto dos nossos desejos,
Inclinação da alma,
Inclinação do coração.
É o objecto da nossa afeição,
Paixão,
Afecto.
Com amor é com muito gosto.
Com amor é com zelo.
Fazer amor é ter relações sexuais.
Por amor de Deus é por caridade.
Por amor à pele é ser prudente,
É não arriscar a vida.
É captativo,
Conjugal,
Oblativo,
É platónico ou possessivo!"
Óscar Rimenez fora pedreiro. Mas pedreiro a sério. Nunca empilhara tijolos nem picara paredes, não esburacara calçadas nem as calcetara, não usara fios-de-prumo para desenhar janelas, nunca tocara sequer em mistura de cimento. Óscar fora pedreiro a sério. Trabalhara numa pedreira de mármore negro. Vira-a nascer. Ele próprio nascera em cima dela. E lá vivera, sozinho com a sua mãe.
- Até que um dia uma Caterpillar estacionou em frente a minha casa, que era pequena e isolada no meio da Andaluzia e por isso era estranho que ali estacionasse uma caterpillar. Depois multiplicou-se e eram já umas quinze amarelas e pretas, umas atrás das outras, todas iguais mas todas diferentes: umas em corno pontiagudo para perfurar, outras com bocas largas como sapos, outras com braços gigantescos que acabavam em bocas pequeninas como bicos de periquito mas pretos. De dentro delas saíram uns homens com uma pasta de papeis agrafados e um envelope castanho na mão que valia mais que os tijolos da minha casa. A mãe soltou uma lágrima. Depois disse que sim com a cabeça, porque afinal eles tinham papeis com cifrões desenhados e eram do Franco esses papeis. Agarrou no envelope enchumaçado e em tudo o que podia levar com as mãos e deixou a casa.
- E tu? - perguntou-lhe Santi.
Ouvia a história e absorvia o olhar nas nuvens de fumo especialmente peculiares e multiformes que Óscar conseguia criar com os restos do cigarro que Santiago lhe cedera. Era quase concebível que de repente lhe saísse da boca para fora uma escavadora amarela e preta em sinais de fumo. Depois esfumou-se e viu que Óscar o olhava com cara de poucos amigos:
- Eu o quê?
- Ficaste?
- Como assim fiquei? Achas que isso fazia algum sentido? A minha mãe deixar-me com 15 anos abandonado no meio daquela gente?
- Não... - que idiotice de pergunta, agora percebia-o. Santi quase tremia. - não fazia sentido nenhum, tens razão. Desculpa, perguntei por perguntar...
Óscar olhava agora em frente para os putos da escola. Remoía qualquer coisa. Repisava-se tanto por dentro que mexia o lábio de baixo furioso, para dentro e para fora, trincando-o pelo meio e à barba grisalha de 5 dias também. O sobrolho muito carregado. Estava bastante contrafeito.
- Mas então para onde foram viver? - arriscou. - Havia alguma aldeia ao pé...
- Eu fiquei! - interrompeu Óscar com os dentes - Tu é que já me estragaste essa parte da história, que é a que eu gosto mais portanto já não tem graça nenhuma estar para aqui a falar.
Fez uma pausa e tirou do bolso do casaco, que afinal era azul, uma garrafinha individual de gin. Estava a 1/4. Bebeu-a toda dum trago com a pronúncia de 10 litros. Depois num suspiro reconciliado que incluiu enfiar as mãos nos bolsos num encolher de ombros disse: - Costumo dizer sempre que depois de agarrar no envelope castanho e na máquina de costura não sobrou nenhuma mão para mim. Por isso fiquei. Agarrei-me a uma picareta e eu próprio destruí o seu quarto. E depois o meu e a cozinha e a casa de banho. E só não deitei a baixo mais nada, porque a casa era tão miseravelmente pequena que nem sala tinha, ou um corredor que fosse.
Nisto riu-se e disse depois:
- O meu quarto tinha chão de cimento! Não é irónico? Cobrir uma mina do mármore mais raro da Península com um manto de cimento?! É como dormir em cima de lingotes de ouro e comer pão duro todos os dias sem dar por nada.
- Ou como dar com a cabeça num dicionário, porque não conseguimos escrever um poema. - chutou Santiago de repente.
Óscar riu-se até os dois pulmões secarem e começarem a tossir saliva aos perdigotos que depois se misturaram com as lágrimas.
- Nunca ninguém percebeu isso até hoje! - disse finalmente. - Venho para aqui todos os dias ler o dicionário pausadamente e em voz alta, há 7 anos e nunca ninguém comentou isso comigo. - Depois riu-se mais e mostrou-lhe o dicionário com Post-it's colados que marcavam as páginas com as definições mais apaixonadas
- As pessoas ou são estúpidas e me dão dinheiro pela comiseração que sentem ao ouvir versos tão verdadeiros, ou são casais de estrangeiros burros e me dão dinheiro porque não percebem nada.
Baixa a cabeça e olha para o chão. Faz uma pausa. Depois olha de novo o infinito e continua a pensar alto:
- Para eles tudo faz sentido quando aqui vêm. Passeiam no Retiro, vêem os barcos no lago artificial e pensam que em 1600 já ali havia barquinhos apaixonados. Por isso agarram-se e dão um beijinho. Depois saem em direcção ao Sofia e passam pelo Raúl que está a meio da rua das barraquinhas às cores que vendem livros, a tocar músicas melífluas no saxofone. Chegam-se mais perto, ouvem melhor, abraçam-se e dão um beijinho. Seguem de mão dada, ombros colados e chegam aqui à praça e o Museu encadeia branco e brilhante, resplandecente ao sol. Abraçam-se mais ainda e entram. O museu é feito de corredores de janelas altas que rodeiam em quadrado um jardim de árvores imensas, verdes e frescas, cheias de sombra. Tudo é perfeito, porque os quadros também são perfeitos. Até que vem o Guernica que eleva a perfeição ao primoroso e por isso agarram-se onde ainda faltava agarrar e adoram-se um ao outro. Saem do museu com a certeza de que tudo é certo e harmonioso. E aí estou eu que declamo qualquer coisa que só pode ser bonita. Ouvem-me dois minutos e é tão bonito que é quase como se fosse eu o cavalo que grita com um corno saliente no lugar da língua e uma lança espetada no meio do lombo. Mas eu sou pobre e estou mal vestido e eventualmente eles dão-se conta disso. Não pode ser! Está errado! É preciso mudar isto! Por isso dão-me dinheiro para que coma e compre roupas novas.
Suspira:
- O mundo deles segue perfeito, o meu vai menos mal.
- O Guernica! Ah! Tenho que ir trabalhar. Estou atrasadíssimo! Sou guarda do museu. Até já. Quando sair venho ter contigo.
- Cá estarei.
E foi.
PCH
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Taxi Driver |
1
Atravessou a rua D. Carlos I a oitenta à hora. O carro avançava aos soluços pelo chão de calçada e estremecia freneticamente, dando a sensação de se estar a desintegrar. «Já estava na hora de alcatroarem esta merda», resmoneou ele, cansado dos solavancos, enquanto passava a mão direita pela cara pálida e descarnada. Percorreu a rua até ao cimo e no cruzamento queimou um vermelho e virou à esquerda, na direcção da Estrela. Na rádio passavam os Police, com a música Roxanne. A voz rouca e inebriante do Sting não tardou a encher o carro, como um gás venenoso que mexe com o humor, e assim que ele bradou «You don’t have to sell your body to the night», um estranho sentimento de comiseração veio alojar-se entre os pulmões do taxista, junto à traqueia, dando-lhe a impressão de ter um nó na garganta. Adriano mudou rapidamente de estação e esmagou o acelerador com o pé. A comiseração era um sentimento que pessoalmente abominava, nenhum ser humano deveria ter a ousadia de sentir pena, porque o simples acto de sentir pena é um acto de soberba, de sobreposição de um indivíduo face a outro, um ataque à própria condição humana. Também ele, à sua maneira, vendia o corpo à noite e perturbava-o sequer imaginar que houvesse alguém no mundo que tivesse pena de si.
Estava imerso nestes pensamentos, quando a basílica da Estrela começou lentamente a erguer-se ao final da rua, envolta numa luz branca que transbordava melancolia e que lhe emprestava um ar ainda mais místico e sombrio. Adriano desacelerou. Uma das grandes vantagens de ser motorista nocturno era poder observar a cidade no seu estado de maior vulnerabilidade, totalmente exposta e desarmada, pois era nessa altura que a cidade se revelava, que os monumentos exibiam toda a sua grandiosidade, que as vozes dos poetas ecoavam pelas ruas, ressuscitadas pela memória, que as praças se despiam das pessoas e ficavam entregues ao barulho da água a correr nas fontes. E enquanto rolava calmamente na direcção da basílica, apercebeu-se do previlégio que tinha em conhecer aquela cidade como poucos e, por momentos, sentiu um grande orgulho na sua profissão. Mas como homem sério e realista que era, não tardou a enxotar os sentimentalismos e a concentrar-se no trabalho.
Poucos segundos depois passou em frente ao jardim da Estrela. Foi quando se lembrou de consultar novamente o relógio no tablier do táxi. À medida que a noite avançava, Adriano tornava-se sucessivamente mais obstinado com as horas e sondava inúmeras vezes o relógio, como uma criança que repete impacientemente o ritual de contar as páginas que lhe faltam para acabar um livro. Ainda não eram quatro e vinte. Voltou a sentir uma opressão no peito, mas desta vez conteve o suspiro, numa clara tentativa de desafiar os seus mecanismos biológicos. Não havia ninguém nas imediações da Estrela, por isso continuou para a avenida Infante Santo. O importante era não desanimar.
As últimas horas eram as mais dolorosas. Dentro em breve o sol apareceria, os pombos inundariam as linhas do eléctrico e a cidade começaria a fervilhar um pouco por todo o lado. Adriano nutria um ódio muito especial pelos pombos. Nos primeiros tempos de motorista nem dava por eles, como se não passassem de uma particularidade estética da capital, uma espécie de sinal na bochecha ou de cicatriz no pescoço. Porém, com os anos, o atrevimento dos bichos não lhe escapou despercebido. Havia vezes em que lhe passavam um vôo rasante e quase desencadeavam um despiste, outras cagavam-lhe o vidro acabado de lavar, como se estivessem à espreita do momento em que poderiam causar maior estrago, e, de tempos em tempos, escondiam-se debaixo do carro durante semanas e minavam-lhe os circuitos todos do Mercedes-Benz. Mas o que mais o irritava nos pássaros era mesmo a liberdade. Numa das suas muitas noites de expediente chegara à conclusão que nenhum ser vivo devia ter direito a ser tão livre. Era injusto para todos os outros. E, desde então, olhava para os pombos com um revigorado sentimento de raiva e não experimentava a menor tristeza quando por acaso atropelava um com o seu Mercedes.
Os segundos semáforos da Infante Santo estavam vermelhos. Adriano parou o táxi e apertou a caixa de velocidades com um movimento tenso. Sentia-se desconfortável parado à noite em Lisboa. Enquanto o sinal não mudava, vinham-lhe à memória todas as histórias macabras que lhe tinham chegado aos ouvidos na sua longa carreira de motorista e um medo corrosivo escorria-lhe pela espinha e acelerava-lhe os batimentos cardíacos. Assim que o sinal dos peões ficou vermelho, Adriano meteu primeira e preparou-se animicamente para arrancar. Mas, nesse exacto momento, ouviu um estalido e a porta do lado direito abriu-se.
- Boa noite. Está de serviço? – interrogou um homem alto e de feições bonitas, enfiando a cabeça dentro do carro.
- Sim, sim... Claro... Sente-se... – gaguejou o Adriano, com um sorriso amarelo e os músculos petrificados de susto – E para onde é que vai ser?
O homem sentou-se no lugar do morto e depois de um segundo de hesitação murmurou:
- Para lugar nenhum em especial. Leve-me para onde quiser, que a mim o que me apetece é andar de carro.
Adriano olhou fixamente para o passageiro e sentiu um aperto no coração. Era um homem elegante, mas assustadoramente sombrio. Tinha um olhar turvado e distante, que vagueava apaticamente de um lado para o outro, como se as coisas deste mundo nada lhe dissessem. Adriano arrependeu-se de o ter deixado entrar e teve vontade de lhe pedir que saísse. Mas o seu lado mais ponderado não demorou a desconsiderar essa hipótese. «Tens uma reputação a manter», pensou ele para dentro, «Vais ver que não passa de um cliente como todos os outros». Porém, assim que meteu primeira e arrancou, o homem pediu-lhe numa voz taciturna que desligasse o rádio e Adriano teve a certeza que aquele não era um cliente como os outros e que aquela viagem, de uma maneira ou de outra, lhe havia de ficar gravada na memória durante muito tempo. BGL
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
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Guernica (parte 1) |
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
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Once in a lifetime (epílogo) |
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Once in a lifetime (último acto) |
- Só acordei muito tempo depois, quando um rapaz magro, baixo e de pele curtida me deu duas palmadas secas no ombro. «O conselho já deliberou. Siga-me», disse ele, sacudindo com a mão uma aranha que entretanto lhe tinha pousado na gabardina. A mim deu-me novamente um ataque de cólera, mas contive-me e segui-o num passo mal-dormido. Levou-me para uma salinha minúscula, na proa do navio, onde já me esperavam o capitão e mais cinco homens, todos enfarpelados e com um semblante sisudo. Assim que entrei o capitão levantou-se e indicou-me um banco para eu me sentar. «É o banco dos réus?», perguntei-lhe eu num tom de gozo, «Deixe estar que eu fico mesmo de pé». O capitão franziu o sobrolho e toda a sua cara ficou vermelha de raiva, «Não ridicularize a autoridade. Nunca se sabe quando é que não precisamos da sua clemência...». «Está-me a ameaçar, capitão?», interpelei eu novamente, sobrevoando o olhar pelos restantes homens que ocupavam a sala, «Se me quiser matar, mate-me. Mas mate-me de uma vez por todas. Não tenho medo de homens como o senhor!». «Nem precisa de ter, porque antes de eu lhe espetar uma bala nessa cabeça, o senhor ainda vai dar uma grande ajuda a este barco!», retorquiu ele, soltando logo de seguida uma gargalhada estridente, à qual se juntaram os risos bajuladores dos outros cinco membros do conselho, «O tribunal deste navio decidiu condená-lo a dez anos de serviço a esta companhia e nessa altura, consoante o seu desempenho, logo se verá se será ou não necessário prolongar a pena. Tem alguma coisa a contestar?». Eu permaneci calado. Uma coisa que a vida nos ensina é que com os loucos não se argumenta. Diz-se-lhes que sim e depois arranja-se uma forma de dar a volta ao texto. Segundos depois a porta da sala abriu-se e levaram-me de volta para o porão. Só durante o caminho é que me dei conta do urgente que era delinear um plano para saltar fora. Concerteza que o barco já não ia aguentar muito tempo por aquelas paragens e se por acaso ele saía para o mar alto ia ter que aturar aquele capitão demente mais tempo do que o suportável. Por isso decidi que a fuga não passaria dessa noite. De volta ao porão, estive algumas horas a tentar libertar-me das amarras, até que descobri um espigão de ferro que saía de um caixote, que me facilitou bastante a tarefa. Depois aguardei pela madrugada para arrombar a escotilha do porão com um pé-de-cabra que encontrei num armário. Mas quando finalmente subi ao convés da traineira a sede de vingança não me deixou abandonar aquela embarcação sem mais nem menos. Muito calmamente e com um sangue frio que desconhecia possuir até ter ido para Ultramar, deslizei até à sala de máquinas e vasculhei-a de uma ponta à outra. Só parei quando finalmente encontrei o que queria: uma caixa de fósforos, dos grandes, para acender lareiras. Sem mais demoras, desatei a pegar fogo a tudo quanto me aparecia à frente, ao convés, às velas, ao tombadilho, aos botes de socorro e depois sentei-me na amurada na popa, a assistir ao declínio do capitão todo poderoso. A tripulação não demorou a aperceber-se do que se passava e rapidamente o pânico se alastrou a todos no navio. Uma embarcação que horas antes se orgulhava de ser dona da sua própria lei, esvaía-se assim em cinzas, vítima do seu autoritarismo e da sua prepotência. Foi com uma sensação de dó que minutos mais tarde vi os cinco conselheiros, um por um, serem acossados pelas chamas até terem que pular fora da traineira. Pouco depois, apareceu então o capitão Abilío Celestino, com uma cara consternada e com a roupa chamuscada pelas labaredas. Mal reparou em mim sentado na amurada, fulminou-me com os seus olhinhos de raposa velha e truculenta e tentou dizer-me qualquer coisa, mas a raiva era tanta que não conseguiu articular uma frase e apenas soltou um grunhido. «Eu tinha-o avisado, capitão. Homens como o senhor não me assustam», acicatei eu, fascinado com a capacidade que tinha de desconcertar aquele homem. Ele nem disse mais nada, simplesmente arregaçou as mangas do casaco e correu na minha direcção. Mas naquele momento eu atirei-me de costas ao rio e nunca mais o vi. Nadei até de madrugada. Quando cheguei a terra os destroços da traineira já tinham sido engolidos pela água e a única coisa que se ouvia no raio de uma milha eram os marinheiros da companhia do capitão Abílio a barafustarem uns com os outros e ocasionalmente o grasnido de uma gaivota. Sentia-me um farrapo. Durante a viagem até terra tinha-me prometido a mim mesmo que se sobrevivesse nunca mais faria mergulho. Porém, uma vez à beira-rio, percebi que o meu destino estava inalianavelmente ligado à água. Apesar da visita à traineira do capitão Abílio me trazer à memória um catálogo de sentimentos funestos, a verdade é que me acordou para os prazeres de ser pescador e deu um novo rumo à minha vida. Dias depois inscrevi-me numa companhia de pesca em Sesimbra, de espontânea vontade e teve início o período mais dourado da minha vida. Mas isso já é uma outra história.
- Zé, já chega por hoje...
- Tens razão. Já chega por hoje.
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Once in a lifetime (parte 4) |
- Mas voltando aonde nós íamos. Eu não podia imaginar, mas a minha aventura tinha acabado de começar. Assim que recuperei o fôlego, o capitão Abilío Celestino aproximou-se, acompanhado por dois marinheiros entroncados e ordenou que me amarrassem. Confesso que no início ainda estava meio combalido e nem percebi o alcance das suas intenções. «Mas porque raio é que me querem amarrar?», interroguei numa voz rouca e tossicando amiúde. «Porque ainda temos que decidir o que fazer consigo», retorquiu secamente o capitão, fitando-me com um olhar sombrio e calculista. «Decidir o que fazer comigo?!», interpelei eu já num tom iracundo e com um sorriso nervoso a dançar-me nos lábios, «Mas quem é que você se julga? Quem tem que decidir o que vai ser ou não de mim sou eu e o senhor não tem nada a ver com isso... Solte-me mas é desta rede e leve-me imediatamente para terra que este seu barco hoje já me deu complicações que cheguem!». Percebi logo pela forma como as suas pálpebras começaram a tremer que odiava que lhe subissem a voz. Arriscaria mesmo dizer que há muito tempo que aquele homem não recebia uma ordem de ninguém e que o meu tom de desafio o tinha surpreendido. «Pois, mas isso era antes de eu o ter apanhado com a minha rede», murmurou o capitão, numa vozinha traiçoeira, sem levantar os olhos do convés da embarcação, «A partir do momento em que eu o pesquei você passou a pertencer-me e quem decide o seu destino sou eu. Você compreende isso ou não?». «Você é louco...», gritei-lhe eu com todas as forças que me restavam no peito e já nem obtive resposta, porque logo de seguida ele estalou os dedos e os dois marinheiros que o acompanhavam amarraram-me os punhos com uma corda e levaram-me para o porão da traineira. Cinco minutos de conversa com aquele homem, tinham-me bastado para perceber que ele apesar de ter uma presença física invejável, não passava de um homem mesquinho, perturbado, um louco na verdadeira acessão da palavra, que nem carácter tinha para aguentar uma troca de olhares. Estive durante várias horas sozinho no porão do barco e não é uma experiência que gostasse de repetir. Assim que abriram o alçapão e me atiraram lá para dentro tive que conter um vómito, porque o cheiro acre e bafiento que ali se respirava era apenas comparável ao que encontrei em casa da minha avó quando demos com o corpo dela três dias depois de morta. A luz apenas entrava a espaços por umas frestas que havia entre as tábuas do convés e quando o fazia deixava entrever uma dezena de ratos a andarem em círculos e a chiarem uns com os outros. Nos primeiros instantes a minha cabeça não conseguiu deixar de fantasiar com ideia de me tornar num escravo em pleno século XX. Mas ideia era tão sórdida e ao mesmo tempo tão mirabolante, que nem mesmo um cérebro extenuado como o meu lhe outorgava algum grau de realismo. Seria possível que aquele verme não percebesse que não dispunha do poder nem da força para me encarcerar naquele navio? Que eu à mínima oportunidade saltaria fora? Soltei várias gargalhadas enquanto me imaginava a cumprir as tarefas mais submissas. Mas hoje não tenho bem a certeza se aquelas foram gargalhadas sinceras, se gargalhadas de nervos ou mesmo se uma espécie de mecanismo biológico para me acalmar e para romper com a solidão a que estava confinado. A verdade é que ao fim de uma hora o cansaço apertou e adormeci contra um caixote.