Guernica (parte 2)
Saiu pela porta por onde entrara e ficou parado 10 passos adentro da praça branca, os olhos encandeados pelo sol, caído numa apatia vazia de pensamentos. Era frequente em Santiago tropeçar nestes momentos pseudo-nostálgicos. Sem mais nem menos alheava-se de tudo e punha o mundo à prova, "E se eu ficasse por aqui? Aqui mesmo parado e sem fazer nada, sem pensar em nada? E se não fosse trabalhar? E se não voltasse para casa? O que é que me obriga a mexer daqui para fora?" e depois destas lucubrações mergulhava a cabeça no abstracto e todo ele era apenas os seus sentidos sem nenhuma razão que os conduzisse. Sem dar por nada fumava um cigarro encostado a um daqueles candeeiros de rua em estilo art-déco, pintados de verde e rematados de dourado. Entravam-lhe pelos ouvidos os gritos histéricos e excitados dos miúdos da 4ª Classe todos brancos de cima a baixo, com bonés amarelos pendurados nas cabeças. Entretia os olhos com a tentativa frustrada das professoras de os tentar alinhar em qualquer coisa parecida com uma fila indiana. Pela altura dir-se-ia que tinham a mesma idade que os miúdos. Mas eram velhas e feiosas. Atarracadas, costas naturalmente curvadas, com os rabos enormes, daqueles que se invadem costas acima, espetados por debaixo das saias de flanela de cor duvidosa, compridas até perto das canelas. O fecho éclair a imitar o rego. As duas cabeças de cabelo grisalho, disfarçado de vermelho acastanhado gritantemente falso, estavam frenéticas. Eram a imagem perfeita da tensão arterial. Estavam desesperadas. Chocolates que caíam ao chão e rebulavam para longe; yo-yo's que se soltavam das mãos; chapadas nas nucas que deitavam os bonés pelo ar e que geravam birras de gritos agudos que acabavam chorados; os miúdos eram insuportáveis. Nisto Santiago pensava como faria algum sentido que a altura das pessoas fosse um requisito para se ser professor da primária. E o porte físico e a saúde mental também. E o colestrol mais ainda. "Desculpe, na nossa escola só aceitamos candidatos com menos de 180 de colestrol. Os seu nível ultrapassa os 185, lamento.", "Parabéns pelos seus bícepes, está contratado!".
Depois foi a voz rouca do velho maluco do outro lado da praça que lhe chamou a atenção. Voltou-lhe o olhar e viu que não era velho nem maluco mas mesmo assim não acreditou, porque não é essa a ordem natural das coisas. Quem vive na rua é sempre velho e maluco. E mesmo que não seja passou a sê-lo por decreto, naquela primeira noite em que se enfiou dentro de uma caixa de cartão e dormitou às portas do Ministério da Agricultura e das Pescas, finalmente apaziguado pela miséria extrema. Porque caíra no abismo mais profundo. Era impossível que a vida doesse mais que aquilo. Que a penúria se esvaziasse ainda mais. Atingira o mínimo de felicidade: finalmente o consolo e a paz de espírito!
Agora declamava poesia a troco de moedas. Escrita por ele, via-se bem. O seu pulmão soluçava como um escape duma lambreta orgulhosa. As lambretas são sempre orgulhosas. Primeiro Santiago ouviu sem entender e sorriu comovido. Mas depois tentou compreender: ouviu as primeiras palavras e procurou o sentido nos versos que se seguiam. Ancorava o que ouvia depois no que ouvira antes e os versos escorriam sem que nenhum se encadeasse e de repente Santi entendeu que nada se entendia. Que eram apenas frases desconexas. Começavam e terminavam como dizeres isolados. Era como ler um dicionário e cantar em tom de poesia:
"O amor:
Amor é substantivo masculino.
Amor vem do latim amore,
Amor é viva afeição,
Amor impele para o objecto dos nossos desejos,
Inclinação da alma,
Inclinação do coração.
É o objecto da nossa afeição,
Paixão,
Afecto.
Com amor é com muito gosto.
Com amor é com zelo.
Fazer amor é ter relações sexuais.
Por amor de Deus é por caridade.
Por amor à pele é ser prudente,
É não arriscar a vida.
É captativo,
Conjugal,
Oblativo,
É platónico ou possessivo!"
Óscar Rimenez fora pedreiro. Mas pedreiro a sério. Nunca empilhara tijolos nem picara paredes, não esburacara calçadas nem as calcetara, não usara fios-de-prumo para desenhar janelas, nunca tocara sequer em mistura de cimento. Óscar fora pedreiro a sério. Trabalhara numa pedreira de mármore negro. Vira-a nascer. Ele próprio nascera em cima dela. E lá vivera, sozinho com a sua mãe.
- Até que um dia uma Caterpillar estacionou em frente a minha casa, que era pequena e isolada no meio da Andaluzia e por isso era estranho que ali estacionasse uma caterpillar. Depois multiplicou-se e eram já umas quinze amarelas e pretas, umas atrás das outras, todas iguais mas todas diferentes: umas em corno pontiagudo para perfurar, outras com bocas largas como sapos, outras com braços gigantescos que acabavam em bocas pequeninas como bicos de periquito mas pretos. De dentro delas saíram uns homens com uma pasta de papeis agrafados e um envelope castanho na mão que valia mais que os tijolos da minha casa. A mãe soltou uma lágrima. Depois disse que sim com a cabeça, porque afinal eles tinham papeis com cifrões desenhados e eram do Franco esses papeis. Agarrou no envelope enchumaçado e em tudo o que podia levar com as mãos e deixou a casa.
- E tu? - perguntou-lhe Santi.
Ouvia a história e absorvia o olhar nas nuvens de fumo especialmente peculiares e multiformes que Óscar conseguia criar com os restos do cigarro que Santiago lhe cedera. Era quase concebível que de repente lhe saísse da boca para fora uma escavadora amarela e preta em sinais de fumo. Depois esfumou-se e viu que Óscar o olhava com cara de poucos amigos:
- Eu o quê?
- Ficaste?
- Como assim fiquei? Achas que isso fazia algum sentido? A minha mãe deixar-me com 15 anos abandonado no meio daquela gente?
- Não... - que idiotice de pergunta, agora percebia-o. Santi quase tremia. - não fazia sentido nenhum, tens razão. Desculpa, perguntei por perguntar...
Óscar olhava agora em frente para os putos da escola. Remoía qualquer coisa. Repisava-se tanto por dentro que mexia o lábio de baixo furioso, para dentro e para fora, trincando-o pelo meio e à barba grisalha de 5 dias também. O sobrolho muito carregado. Estava bastante contrafeito.
- Mas então para onde foram viver? - arriscou. - Havia alguma aldeia ao pé...
- Eu fiquei! - interrompeu Óscar com os dentes - Tu é que já me estragaste essa parte da história, que é a que eu gosto mais portanto já não tem graça nenhuma estar para aqui a falar.
Fez uma pausa e tirou do bolso do casaco, que afinal era azul, uma garrafinha individual de gin. Estava a 1/4. Bebeu-a toda dum trago com a pronúncia de 10 litros. Depois num suspiro reconciliado que incluiu enfiar as mãos nos bolsos num encolher de ombros disse: - Costumo dizer sempre que depois de agarrar no envelope castanho e na máquina de costura não sobrou nenhuma mão para mim. Por isso fiquei. Agarrei-me a uma picareta e eu próprio destruí o seu quarto. E depois o meu e a cozinha e a casa de banho. E só não deitei a baixo mais nada, porque a casa era tão miseravelmente pequena que nem sala tinha, ou um corredor que fosse.
Nisto riu-se e disse depois:
- O meu quarto tinha chão de cimento! Não é irónico? Cobrir uma mina do mármore mais raro da Península com um manto de cimento?! É como dormir em cima de lingotes de ouro e comer pão duro todos os dias sem dar por nada.
- Ou como dar com a cabeça num dicionário, porque não conseguimos escrever um poema. - chutou Santiago de repente.
Óscar riu-se até os dois pulmões secarem e começarem a tossir saliva aos perdigotos que depois se misturaram com as lágrimas.
- Nunca ninguém percebeu isso até hoje! - disse finalmente. - Venho para aqui todos os dias ler o dicionário pausadamente e em voz alta, há 7 anos e nunca ninguém comentou isso comigo. - Depois riu-se mais e mostrou-lhe o dicionário com Post-it's colados que marcavam as páginas com as definições mais apaixonadas
- As pessoas ou são estúpidas e me dão dinheiro pela comiseração que sentem ao ouvir versos tão verdadeiros, ou são casais de estrangeiros burros e me dão dinheiro porque não percebem nada.
Baixa a cabeça e olha para o chão. Faz uma pausa. Depois olha de novo o infinito e continua a pensar alto:
- Para eles tudo faz sentido quando aqui vêm. Passeiam no Retiro, vêem os barcos no lago artificial e pensam que em 1600 já ali havia barquinhos apaixonados. Por isso agarram-se e dão um beijinho. Depois saem em direcção ao Sofia e passam pelo Raúl que está a meio da rua das barraquinhas às cores que vendem livros, a tocar músicas melífluas no saxofone. Chegam-se mais perto, ouvem melhor, abraçam-se e dão um beijinho. Seguem de mão dada, ombros colados e chegam aqui à praça e o Museu encadeia branco e brilhante, resplandecente ao sol. Abraçam-se mais ainda e entram. O museu é feito de corredores de janelas altas que rodeiam em quadrado um jardim de árvores imensas, verdes e frescas, cheias de sombra. Tudo é perfeito, porque os quadros também são perfeitos. Até que vem o Guernica que eleva a perfeição ao primoroso e por isso agarram-se onde ainda faltava agarrar e adoram-se um ao outro. Saem do museu com a certeza de que tudo é certo e harmonioso. E aí estou eu que declamo qualquer coisa que só pode ser bonita. Ouvem-me dois minutos e é tão bonito que é quase como se fosse eu o cavalo que grita com um corno saliente no lugar da língua e uma lança espetada no meio do lombo. Mas eu sou pobre e estou mal vestido e eventualmente eles dão-se conta disso. Não pode ser! Está errado! É preciso mudar isto! Por isso dão-me dinheiro para que coma e compre roupas novas.
Suspira:
- O mundo deles segue perfeito, o meu vai menos mal.
- O Guernica! Ah! Tenho que ir trabalhar. Estou atrasadíssimo! Sou guarda do museu. Até já. Quando sair venho ter contigo.
- Cá estarei.
E foi.
PCH
comentários:
17 de junho de 2008 às 12:04
este comentário é para o Pedro !
Pedro filho esreve à madrinha !!!!
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