terça-feira, 1 de julho de 2008

Capitulo 9 - Yangshuo, dia 1

Foi no primeiro dia em Yangshuo (na provincia de Guilin) que conhecemos dois traficantes de droga colombianos dentro do barquinho para turistas em que subimos, a custo, um bocado do rio Li. Os primeiros ocidentais com quem falamos na China. Juan e Sergio sao primos direitos em jeito de Bucha e Estica. Vivem em Bogota onde cada um estuda a sua coisa. Juan, o Bucha, viveu em Pequim durante um ano e decidiu voltar este verao para aperfeicoar o seu Mandarim. Sergio, o Estica, pediu dinheiro aos pais e veio passear com o primo pela China, ate estacionar com ele em Beijing e ai iniciar tambem um mes de curso intensivo de Mandarim. O ingles do Juan era barbudo e americano. Meteu conversa comigo, porque me julgava russo. Foi entao que ele percebeu que afinal eu era portugues e que russo talvez soe um pouco a minha lingua. Foi tambem nessa altura que eu entendi que eles afinal nao eram traficantes de droga.

Enquanto conversavamos com Juan e Sergio fomos descobrindo porque e que Guilin esta estampada em todas as notas de 20 yuans deste pais. As nossas cabecas viajavam a altura da linha de agua, de pescocos pendurados e olhos brilhantes. A Joana e o Jay tentavam por todos os meios enfiar aquilo que viam dentro das suas maquinas fotograficas: a tarefa e tao complicada como engolir uma panela de sopa de um so trago ou comer um bolo de arroz em menos de 30 segundos.

Guilin nao cabe em fotografias. Nao cabe em palavras. Tenho a certeza que nao cabe numa vida inteira de sobe-e-desce's daquele rio morno e parado, ao leme dum monte de ferrugem.
Guilin e mais ou menos como um desenho de uma crianca que decide pintar montanhas.
Num traco desajeitado mas continuo comeca por desenhar um risco corcunda e vertiginoso, arredondado no topo. Depois desenha outro mais a direita que pretende ser da mesma forma mas lhe sai diferente. Mais bicudo la em cima, mas em jeito de furunculo da planicie la em baixo como o primeiro. Desenha mais uns tantos ao lado uns dos outros e depois preenche os espacos por detras da primeira linha de montanhas com mais picos acerados a perder de vista, todos eles diferentes uns dos outros.

O desenho parece improvavel e infantil. Mas afinal nao e. Aquilo que se afigura ingenuo transforma-se em realidade e e tao verdadeiro que custa a acreditar no que vemos. A origem geologica perde o sentido na composicao: nao nos interessa se foi a agua que cavou buracos na montanha e criou planicies cheias de pinaculos ou se foi o Diabo que apontou os cornos a Deus por debaixo da terra. Nao queremos saber se o que vemos e calcario ou barro moldado por maos de gigantes. Nao nos interessa nada disso. Seja por que motivo for, Guilin e improvavel e espectacular.

As formas assemelham-se a tudo o que ha neste mundo. Sao elegantes, cheias de curvas suaves mas vertiginosas. Nao sao brutas, pontiagudas e frias como as montanhas a que estamos habituados. Ao leme do barco, o velho chines de chapeu piramidal na cabeca grita em voz estridente quando passamos pela montanha dos nove cavalos, pela montanha da aguia, pela montanha do veu de noiva: ha montanhas para todos os gostos. Basta contemplar que as formas aparecem. As montanhas tem tanta personalidade que dar-lhes nomes e conversar com elas faz mais sentido.

A borda de agua, como rodape perfeito daqueles picos cheios de elegancia, surgem arvores enormes cujas copas esplodem para o ceu como fogo de artificio. Todas verdes. Sem flor. So o verde da vegetacao, o branco da rocha, o cinzento do ceu e o castanho do rio Li. Tudo parado numa fotografia perfeita, lavada pela chuva que persiste.

Aportamos num ilheu no meio do rio Li. Velhinhas de cocoras cozinham petiscos em espetadas, protegidas da chuva miudinha por chapeus de chuva demasiado amarelos e infantis. Nao e uma posicao obvia e demorei algum tempo ate me conseguir equilibrar, mas nao ha chines que nao se ajeite desta forma pelo menos uma vez por dia: palmas dos pes completamente assentes no chao, jelhos dobrados e rabo entre as pernas a rocar o solo. Parecem criancas a brincar a borda de agua na praia. E assim que fumam cigarros, que conversam entre amigos na pausa para o almoco, que jogam madjong ou que jogam as cartas, que cagam nos buracos de ceramica embutidos nos chaos das casas de banho. Foi num dia de especial aperto que me iniciei nesta posicao. Desde entao que assim me ponho ao parapeito da janela e gozo o meu marasmo matinal de cachimbo na boca e Sol amarelo a ameacar-se la ao fundo.
Ou pelo menos e assim que me sinto quando acordo aqui em Yangshuo.

O dia foi calmo e grandioso ao mesmo tempo.
Guilin e inesquecivel. Podia ali viver uma vida e continuar fascinado com a vista do meu quarto de hotel. A noite fomos a procura duma cobra para o Jay comer com os colombianos. Acabamos todos a empurrar noodles fritos com pausinhos pela goela adentro. O dia a seguir seria ainda melhor.

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terça-feira, 24 de junho de 2008

Capitulo 8: Yangshuo - uma guia chamada Amy

A Amy e uma chinesa provinciana de 45 anos. A primeira vista a Amy e esferica: baixota e redonda dos pes a cabeca, pernas musculadas riscadas pelas varizes, cabeca pequenina e sem pescoco, o cabelo e preto e brilhante pintado como na banda desenhada. Nasceu numa aldeia perto de Yangshuo, junto a um pinaculo que segundo ela:

Look Joana! It looks like a... ihihihih... you know Joana! ihihihih... a penis! ihihih...

E ainda e la que vive. Aprendeu ingles a conversa com turistas desde ha 9 anos e foi provavelmente isso que definiu grande parte da sua vida.

I am very lucky in Yangshuo! The more lucky! I went to Beijing one time. My friends from Canada tell: come Amy, come with us to Beijing. I go to president room! Pffffff! - lingua de fora, olhos esbugalhados e maos a abanar de ansiedade - the more lucky!

Ser guia nao so lhe serve de ganha-pao como tambem lhe vai permitindo fortalecer amizades por toda a cidade. Yangshuo vive assim mesmo: toda a cidade serve o turismo, mas sao os guias que distribuem os turistas pela cidade. O hotel em que ficamos era das amigas da Amy, os restaurantes em que comemos eram dos amigos da Amy, os taxis em que viajamos eram dos amigos da Amy, a bicicleta em que assei o meu rabo era duma velhinha amiga da Amy. O esquema e obvio mas nao chega a ser escabroso, a Amy e demasiado pura para nos enganar.

I was worry because you come by bus. Is very dangerous because of the bad people. - afunila a cara na boca, nos olhos e no nariz pequenino e faz um ar serio - One day I am in bus. I sleep and the bad people come and cut my bag. I lose my money. Bad people...

Alias quase tudo o que assusta a Amy neste mundo sao mesmo a bad people e a floody. Para ela nao ha terramoto que chegue a Yangshuo ou mosquito da malaria que consiga viajar mais longe que Guangzhou. Nao ha lixo que fabrique Dengue. Nao ha febre amarela. Nada! Just the floody is very bad. O rio Li transbordou uma semana antes de termos chegado. Aqui e ali ainda havia comerciantes a tentar enxaguar roupa, relogios falsos, colares e aneis de prata, toda a quinquilharia que provavelmente tinham em casa a acumular camadas de poeiras pre-historicas. A Amy quase que estremecia de cada vez que eu lhe perguntava se tinham perdido muito com as cheias.

Ah! Very bad the floody, Pidro.

A Amy tem uma filha que lhe custou 600 euros.

When I was have my daughter I run, because they in my village want to go to hospital and abort. 6000 yuans! Very expensive say my family. But I run and I prefer to pay. Hard life to pay.

Ha 13 anos a Amy engravidara.
Quando a lei do filho unico foi imposta so se podia ter um filho fosse de que sexo fosse. O problema e que as raparigas perdem o nome de familia assim que casam e por isso todas as familias chinesas optavam por obrigar a mae a abortar caso estivesse para nascer uma chinesinha. Da para imaginar a quantidade de miudinhas "chacinadas pelo regime". A lei mudou. Quando nasce uma rapariga o casal tem o direito a criar um outro filho passados 4 anos.
Abencoado Estado chines!
Caso o filho nasca antes do prazo o casal tem que comprar o miudo. E uma especie de taxa de quantidade ou impaciencia. Quando a filha da Amy estava para nascer o preco da unidade era de 600 euros sem garantia de sobrevivencia e com a opcao de aborto. Mesmo apesar de viver muito mal a Amy optou por nao embargar a entrega da mercadoria com pintura amarela, cabelo preto e em idioma chines. O pacote foi entregue 12 meses depois, conforme combinado e consoante a vontade do Estado.
Hoje em dia cada miudo a mais que nasca custa 20.000 yuans (2000 euros).

We understand! Because we are so many! The government have do something...

Varias vezes senti que estavamos ali para tomar conta dela. Ficava desolada quando comiamos o pequeno almoco calados ainda dormentes de sono. Havia outras alturas em que eu perdia a pachorra para a conversa do costume e me calava de cara fechada. A Amy ficava mais desolada e angustiada que o Gastao meu cao quando me farto de brincar com ele.

You are very serious boy! - dizia logo - ihihih... you look like government people!

Mas quando acordavamos e comecavamos a brincar com ela era ve-la as palminhas de alegre e contente, de volta a sua juventude.

You know?! I feel your age when I am with you!

Como qualquer chines, a Amy vive na ilusao de que o regime que governa a China e a maior dadiva que os ceus ja concederam a este pais.

1960 to 1970: very bad years! Mao did bad things. But is because he didn't know! - diz-nos em surdina com medo das paredes: opiniao demasiado arrojada para se falar alto - it was his wife! Very bad woman! Very bad! Brrrr! And Mao didn't know! He bring china together, yes!

Quando lhe perguntamos por Tian'anmen nao sabia de que estavamos a falar. Conhecia a praca e dizia-a mais bonita que qualquer outra coisa que alguma vez vira.
Nao ha chinoca que resista a Joana.
Eu acho que e do saltinho que ela da antes de se dirigir as pessoa na rua. Quando sou eu a aborda-las vou a andar, de pescoco esticado para a frente e sobrolho em jeito de suplica. A Joana nao. Faz um sorriso de orelha a orelha ainda meio desconfiado e da aquele pulinho como que a desembaracar-se do embaraco. De vez em quando nem um salto chega a ser: so um descompassar dos passos. So uma maneira mais comedida e mais discreta de cantar Ola! com os bracos bem abertos e de confessar aquela pessoa que nao ha ninguem mais importante ali e naquele momento do que ela. Funciona! A Joana tem-nos safado de muitas com estes pulos cheios de subentendimento. Mas a empatia raramente fica por ai. A Joana fala melhor a linguagem dos chineses do que qualquer um de nos. E a Amy nao foi excepcao a regra.

Joana are you okay? - gritava a cada 5 minutos quando iamos nas bicicletas e a Joana ficava para tras a tirar fotografias

Do the three boys take care of you?

Tell me Joana which one is your boyfriend?

O terceiro dia ameacou-se nostalgico como os ultimos dias nos campos de ferias da terceira classe. Se a Amy fosse de borracha ou de pelucia enfiava-a na mochila e levava-a comigo.

PCH

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domingo, 22 de junho de 2008

Capitulo 7: De Guangzhou para Yangshuo

Yide Xilu, Qingpin Market, Shamian Island: No Coracao da Cidade




Depois de uma noite mais calma, em que nos ficamos por um passeio ao ar livre pelas imponentes avenidas do distrito de Tianhe e em que acabamos o dia na sala do nosso apartamento a beber umas Tsing Taos, levantamo-nos bem cedo, com o objectivo ambicioso de palmilhar o centro da cidade de uma ponta a outra. Apanhamos o metro ate a paragem mais proxima da rua Datong Lu, onde ficava o restaurante que Li Sheung Li nos tinha aconselhado no dia anterior. A saida do metro as indicacoes estavam todas em caracteres e por isso vimo-nos mais uma vez forcados a entregar o nosso destino na mao de um chines voluntarioso. Abordamos duas senhoras na casa dos trinta, bem arranjadas e com cara de maes responsaveis, que nao hesitaram em nos ajudar e que nao demoraram a colocar o nosso problema no topo das suas prioridades. Estiveram pelo menos cinco minutos em frente a um mapa da cidade a discutir eloquentemente uma com a outra qual o melhor caminho para chegar a rua Datong Lu. O Pedro ja se passeava de um lado para o outro a bufar, enquanto resmungava: "Porra, so quero que elas me digam um caminho. Se for um bocado maior estou-me a cagar. Nao quero e ficar aqui a manha toda...". Quando as duas acabaram finalmente de conferenciar, voltaram-se para nos e murmuraram quase em unissono: "Follow us, we take you there!".



Guiaram-nos ate a rua Yide Xilu, que desembocava na rua Datong Lu, e despediram-se de nos com um sorriso pronunciado nos labios, com o sentimento de dever cumprido. A rua Yide Xilu era uma rua tradicional chinesa, comprida, povoada de lojas de um lado e do outro, atravessada por ruas estreitas, que pareciam nao levar a lado algum e onde volta e meia era possivel ver uma mesa de bambu rodeada de cabecas onde chineses descalcos jogavam a dinheiro. A rua acolhia um bairro tipico, onde se cruzavam a toda a hora bicicletas carregadas de sacos e motoretas com atrelados, que se preparavam para abastecer os mercados nas redondezas. Depois de alguns minutos de passeio, la demos com o restaurante que nos tinha sido aconselhado pela Li Sheung Li, num edificio imponente, com tres grandes caracteres gravados por cima da porta. Assim que entramos fomos recebidos por quatro chinesas vestidas a rigor, que nos conduziram ate uma sala no segundo piso. A seguir seguiu-se um almoco requintado, com direito a pato lacado para os quatro, peito de frango caramelizado e camaroes fritos em malaguetas. O almoco teve os habituais desafios: comunicar com empregados que apenas falam um ingles arranhado, manejar os pauzinhos, etc, mas sao tambem estas pequenas contrariedades que tornam esta viagem numa experiencia tao forte!




A seguir ao almoco dirigimo-nos ate Shamian Island, uma ilha a deriva no centro de Guangzhou, onde e possivel respirar ar fresco e esquecer por momentos a agitacao que vibra la fora, no meio da cidade. Ate chegarmos a Shamian Island ainda passamos pelo Qingpin Market, um dos mercados mais conhecidos da cidade e que impressiona acima de tudo pela falta de higiene. Percorremos o mercado durante alguns minutos e era dificil acreditar naquilo que viamos. Comida empilhada como caixotes, rodeada de moscas e que libertava um cheiro intenso e nauseabundo. Alguns vendedores dormiam ferrados em cima das bancadas ou de barriga para o ar, estirados em bancos de pano. O comercio deste lado do globo tem dois ritmos. Ou e frenetico e as pessoas parecem desesperadas para vender o que quer que seja ou e dominado por uma apatia deprimente, como se por vezes a populacao se deixasse resignar perante a miseria. A visita a Shamian Island acabou por ser um dos pontos altos da nossa tarde, pois foi uma lufada de ar fresco e uma oportunidade de descansar os olhos fustigados pelo ritmo alucinante da cidade. Passeamos calmamente pela ilha, vimos criancas a jogarem badmington na rua, noivas a cumprirem o ritual de tirar uma fotografia antes do casamento, vimos pessoas mais velhas a passearem pelo centro da ilha, como se vivessem a margem do monstro que os cercava. Nessa tarde ainda fomos visitar o pagode das Six Banyan Trees e andamos a procura de uma padaria fantasma, que o lonely planet recomendava. Mas o que nos nao podiamos imaginar e que a nossa maior aventura ainda estava para vir, nessa noite, no momento em que entrassemos na camioneta a caminho de Yangshuo.




No Autocarro para Yangshuo: Death Proof


Tudo me pareceu uma facanha incrivel ate conseguirmos apanhar o autocarro para Yangshuo. Ninguem falava ingles na estacao de autocarros, nem tinhamos bem a certeza se o bilhete que tinhamos comprado ia para o lugar que queriamos, descobrir a paragem de onde o autocarro saia levou-nos alguns vinte minutos, enfim, nao houve oportunidade para nos sentirmos relaxados ate entrarmos no autocarro. Mas a verdade e que assim que me sentei, no meu lugar na primeira fila, uma sensacao de calma invadiume da cabeca aos pes e julguei que todos os nossos problemas tinham acabado. O que eu nao podia imaginar era que estava prestes a embarcar na viagem mais tortuosa da minha vida, uma especie de roleta russa jogada ininterruptamente ao longo de doze horas, pelas estradas mais sinuosas que algum dia percorri.


A viagem comecou calmamente, pelas avenidas de Guangzhou e nada fazia prever o que ai vinha. O condutor, embora pissasse uma vez por outra o travao de uma forma rudimentar, parecia a partida um sujeito calmo e razoavel, plenamente capaz de me levar ate Yangshuo sem mazelas. So que as coisas transfiguraram-se quando ao fim de quarenta e cinco minutos de viagem o alcatrao desapareceu para dar lugar a uma estrada de pedra esburacada, dezenas de vezes pior do que qualquer estrada de campo existente em Portugal. A partir dai, o condutor passou a guiar a esquerda ou a direita sem criterio, como se de repente o codigo da estrada se tivesse perdido para sempre na sua memoria. Ao fim de uma hora e meia o autocarro foi a baixo e eu julguei que iamos ficar ali, apeados no meio do nada, a dezenas de quilometros de Guangzhou. Ja estava a desesperar, com o motorista a ligar e a desligar o autocarro freneticamente e a bufar qualquer coisa em chines que eu nao entendia. Foi nessa altura que eu despertei para uma caixa que ele trazia ao lado do volante, que tinia a toda a hora e que viemos a apelidar umas horas mais tarde, como a alma do autocarro. Ao fim de alguns minutos a caixa comecou a gemer e o motorista la conseguiu por o autocarro novamente a andar. Mas a viagem tornou-se verdadeiramente aterradora foi quando regressamos a estrada de alcatrao. Nessa altura o motorista aumentou a velocidade de cruzeiro para os cem quilometros hora, debaixo de uma tempestade tropical, e continuando a guiar a esquerda ou a direita consoante lhe dava na cabeca, como se a lei da selva estivesse sobreposta a lei da estrada. Ele ultrapassava em curvas cegas colunas de quatro camioes seguidos, ele rolava a uma velocidade estonteante por estradas com mais de 7 por cento de inclinacao, ele passava por cima de duplos tracos obrigando motas a desviarem-se para a berma, ele entrava nas portagens em sentido contrario, ele guinava para faixa contraria assim que via um buraco na estrada, enfim, eram incontaveis as infraccoes de transito que aquele condutor cometia no espaco de dez minutos, quanto mais ao longo de uma viagem de quase doze horas. Dois australianos que iam atras de nos, passaram a viagem inteira de olhos colados na estrada e a levarem as maos a cabeca, como se isso lhes pudesse valer de alguma coisa. Eu volta e meia ainda tentava fechar os olhos, mas acho que nunca os consegui manter assim durante mais de cinco segundos, porque mal comecava a pensar noutra coisa, o condutor esmagava o acelerador e eu so me imaginava a sair disparado pelo vidro da frente...
Tinham decorrido qualquer coisa como 8 horas de viagem, quando o motorista parou o autocarro no meio do nada para quem quisesse ir a casa de banho. Eu tinha alguma vontade e ingenuamente sai do autocarro. Mas assim que entrei naquele cubiculo, percebi porque e que a maior parte das pessoas tinham ficado na carrinha. Foi certamente a casa de banho mais porca em que entrei em toda a minha vida e tive que conter a respiracao para nao vomitar logo a entrada. Aquilo nao devia ser limpo ha varios anos. Moscas gordas deambulavam por todo o lado e zumbiam como abelhoes e um cheiro fetido entranhava-se nas narinas, tornando o cumprimento de uma necessidade numa tortura insuportavel. Sai dali a correr, o mais rapido que consegui, em direccao ao meu caixao ambulante, mas com boas expectativas, porque ia haver troca de motorista e, julgava eu, que pior do que o que tinhamos tido ate entao era impossivel.
O motorista que se seguiu comecou como o outro, com calma e revelando ate algum excesso de zelo. A diferenca e que nao demorou nem quinze minutos a tornar-se num autentico mercenario ao volante, conduzindo como se nao tivesse o menor amor a vida (nem a dele, nem a de ninguem que se encontrava naquele autocarro!). Conduziu pela manha adentro, saltitando de uma faixa para a outra a uma velocidade estonteante, buzinando a tudo o que mexia, enquanto mastigava uns amendoins que trazia no bolso. A medida que o sol subia no horizonte, comecaram a aparecer centenas e centenas de motoretas, que inundaram a estrada e a tornaram praticamente intransitavel. Foi nessa altura que o nosso condutor revelou toda a sua loucura, efectuando verdadeiros slaloms por entre corredores infindaveis de motas e fazendo rasias assustadoras a automaveis que vinham no sentido contrario. Aquela hora da manha os meus olhos ja nao conseguiam absorver as barbaridades que aquele senhor praticava ao volante, por isso limitei-me a tirar a minha maquina fotografica da mochila e estive ate chegarmos a fotografar o que me rodeava. Ainda hoje, quando revejo as fotografias e penso no que vi naquela noite, nao percebo como chegamos vivos a Yangshuo.


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sábado, 21 de junho de 2008

Capitulo 6: Guangzhou

Across the Border: Do lado de Ca ao Deus de Ara

Bastou cruzar a fronteira para percebermos que Hong Kong e Macau tinham ficado para tras e que a nossa vida nao tardaria a complicar-se. Assim que saimos do edificio da alfandega, esmagados no meio de uma multidao de pessoas, e descemos as escadas rolantes que davam para a estacao de autocarros, deparamo-nos com um mercado labirintico, que se estendia ao longo de umas dezenas de metros, onde se vendiam desde massagens nos pes, ate dragoes de jade por uma pechincha. Ainda meio baralhado com a intensidade da luz branca que me entrava nos olhos vinda de todo o lado e com a energia dos vendedores, que pareciam autenticos corretores da bolsa na Wall Street, fui arrastado para o interior de uma loja de relogios, onde uma senhora me passou para as maos uma imitacao perfeita de um rolex:
- 300 yuans, sir! - gritou ela.
- Too expensive - respondi-lhe eu. - And for two rolex, how much?
Os olhos dela brilharam quando lhe falei em dois:
- 550 yuans, sir!
- No, that's too much...
- So choose a price, sir - retorquiu ela num ingles encriptado, estendendo-me a calculadora para eu escrever o numero magico.
Ofereci-lhe 350 e a resposta dela foi sintomatica:
- Ok.
Tinha entrado na China nem ha meia hora e ja tinha dois rolex no bolso. Tinha que me controlar. Depois demos mais uma volta pelos corredores interminaveis daquele mercado, vimos bancas inteiras so de perolas, lojas de sedas, carrinhos de fritos, onde chineses se aglomeravam como formigas e que volta e meia libertavam um cheiro doce e enjoativo, restaurantes a transbordarem de pessoas, enfim, se ainda restavam duvidas, aquele passeio acabou com todas elas: estavamos na China e daqui para a frente nada seria o mesmo.

Li Cheung Li, Lilac International Suites, Tianhe District: Perdidos no Meio da Selva

Chegamos a Guangzhou por volta das 8 da noite, depois de uma viagem de quase duas horas de autocarro. Faltavam alguns dez minutos para chegarmos e ja parecia que estavamos em plena cidade. Predios enormes cercavam o autocarro por todo o lado e uma cupula de smog estendia-se ate ao horizonte. Guangzhou ja e uma cidade tipicamente chinesa, com um movimento e uma agitacao que nao se ve em mais parte nenhuma do mundo, em que o transito e caotico e em que a poluicao juntamente com a humidade tornam o ar simplesmente irrespiravel.
Os nossos problemas comecaram quando tivemos que sair do autocarro e nao sabiamos onde sair. Guangzhou e uma cidade enorme e nos tinhamos hostel marcado no distrito de Tianhe, so que nao faziamos a menor ideia onde sair. O motorista nao falava ingles e abanava a cabeca quando nos dirigiamos a ele, como se nao estivesse disposto a comunicar com um ocidental, as placas estavam todas em caracteres e nos nao conheciamos a cidade. O melhor que nos ocorreu fazer foi sair numa paragem junto a uma universidade, porque a probabilidade de encontrar alguem que falasse ingles era maior e agora que olho para tras nao tenho duvidas que foi a melhor decisao que tomamos.
Foi a entrada desta universidade que conhecemos Li Cheung Li, uma estudante de mandarim e tradicao chinesa, que se ofereceu para nos ajudar. Era uma rapariga bem simpatica, que falava ingles (uma raridade deste lado do mundo), de 22 anos, que minutos mais tarde nos revelaria, como que erguendo um trofeu, que ja tinha tido dois namorados britanicos e que actualmente namorava um chines que estava a estudar engenharia no MIT. Li Cheung Li nao conhecia a rua do nosso hostel e depois de conversar com alguns taxistas percebeu que o nome da nossa rua devia estar errado. Por isso fui com ela ate a sala de computadores da universidade para ver se descobriamos o nome da rua. Depois de alguma pesquisa la a ouvi exclamar: "Taishong, not Taisheng...". E dai ate apanharmos um taxi nao demorou muito. Antes ainda me garatujou no moleskine o nome de uma casa de cha, um restaurante imperdivel e o nome de alguns pratos que ela aconselhava. Li Cheung Li foi um achado nesta terra onde nos sentimos sempre a deriva e onde dependemos totalmente da boa vontade das pessoas para nos dirigirmos onde quer que seja.
Quando finalmente demos com o nosso hostel, os nosso olhos mal queriam acreditar no que viam. Depois do nosso quarto exiguo no USA Hostel, o apartamento no Lilac International parecia a suite presidencial do Hotel Ritz. Tivemos direito a 3 quartos, a uma sala ampla, com televisor Konka Widescreen e tudo por 10 euros por cabeca, menos do que tinhamos pago durante a nossa estadia em Hong Kong. Fumei uma cigarrilha sentado no sofa, enquanto procurava um canal que transmitisse resumos do Euro. Pouco tempo depois estavamos a sair para explorar o distrito de Tianhe.

BGL

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Capitulo 5: pulando a cerca

Quando andava na escola as professoras diziam-me varias vezes que tenho cara de sonso. Chegaram a bofetear-me a cara por fingir nao ser eu. Eu sempre que me vejo ao espelho acredito na minha cara, mas tambem nao sei de ninguem que desconfie do seu proprio reflexo. Por isso sou incapaz de perceber essa de eu ser sonso. Seja como for deve ter sido isso que passou pela cabeca do guarda alfandegario quando comparou a minha imagem ao vivo com o meu sorriso estapafurdio estampado na fotografia do meu passaporte. Ja tinha passado o Jay e a sua barba rala. Mas eu nao - "Este e perigoso" - fomos os quatro enviados para uma sala onde nos revistaram a mala a conta da minha cara de sonso. Ainda se demoraram alguns minutos a ver as fotografias na maquina do Bernardo e a ler os pensamentos da Joana no seu caderno. Riram-se dos nossos livros escritos em portugues. Afinal de contas aquilo para eles e chines. Desconfiaram do necessaire da Joana mas nao se atreveram a ver mais que um vislumbre. Enquanto esperava so rezava que nao nos confiscassem os Lonely Planet. Os chineses nao gostam destes guias porque nao incluem Taiwan como seu territorio. Ouvimos de historias em que ficaram com eles. E apesar dos erros em que este guia ja nos induziu, continua a ser o nosso melhor tradutor de chines quando precisamos de indicacoes. Depois de alguma dificuldade em fazer os guardas entender que passear um mes pela China nao e coisa assim tao excentrica, acabamos por transformar a desconfianca em quase admiracao e orgulho pelo que iamos fazer ao seu pais. Escoltaram-nos ate a saida da alfandega e soltaram vivas e confetis enquanto davamos os primeiros passos em territorio chines. Pelo menos assim me pareceu. Teria sido uma entrada em grande, mas 2 minutos depois estavamos de volta a alfandega, porque precisavamos de levantar yuans no Bank of China.
O banco estava cheio de chineses a levantar o salario do mes. Havia cinco caixas e um relacoes publicas. Assim era. Havia um relacoes publicas que saltava de caixa em caixa e se intrometia nas conversas entre o funcionario do banco e as pessoas, com um sorriso de orelha a orelha pronto a levantar a moral. E conseguia. As conversas fluiam mais depressa sempre que aquele empecilho se metia. Como se o espectaculo do RP ja nao fosse suficiente, estavam ali 4 portugueses para trocar dollars e euros. Tenho a certeza que aqueles funcionarios nunca se irao esquecer do dia em que 4 estrangeiros quiseram trocar dinheiro. La dentro eles entretiam-se a analisar notas e a soltar gargalhadas sempre que eu e o Bernardo falavamos entre nos, incredulos com o perfeccionismo com que analisavam cada nota. A Joana travava conversas gestuais com as velhas que esperavam sentadas nos bancos de plastico. Estavam extasiadas com as bolsinhas que metemos debaixo da roupa e em que guardamos os nossos documentos e dinheiro. Diziam que sim com as maos e cabeca e beliscavam-se umas as outras:
- Olha que giro o que esta menina tem ali para esconder o dinheiro!
O relacoes publicas tinha amuado a um canto.

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Capitulo 4: mais Macau

Bastou uma visita de Stanley Ho a Auckland, para que se construisse em Macau uma torre com mais de 300 metros de altura igual a da capital da Nova Zelandia. Talvez tenha sido por capricho do senhor Ho. Eu gosto mais de pensar nisto como uma forma de fotografia com resolucao maxima. Como se as melhores maquinas fotograficas incluissem betoneiras, guindastes, empreiteiros e obreiros. O que nao se lembraram de fazer em Auckland foi um Bungee Jumping aos 238 metros, mesmo por cima do restaurante em altura. O maior do mundo.
A Joana gostou da ideia e mandou o Jay mergulhar.
- Jay olha que se saltas aquilo es o maior do mundo!
- Epah pois sou pah...
- Jay, vais-te armar em menino? O Pinto de estivesse aqui ja se tinha mandado!
- Epah pois ja pah...
E o Jay transformou-se num emaranhado de nos no estomago, como se as tripas lhe tivessem subido para cima do duodeno. Parecia uma alforreca das que murmuram "pois e pah..." e que contemplam o horizonte e o chao com os mesmos olhos apaticos. A Joana nem o deixava respirar. Deve ser tramado ter a adrenalina maior que o estomago, porque a unica coisa que impediu o Patrone de se armar em yo-yo foram os 130 euros que custava a brincadeira.

Ao inicio da noite fomos visitar Coloane. Uma ilha que nao e ilha mas que em tempos deve ter sido. Entre Coloane e Taipa ha um istmo de terra branca e plana cercada a tapume por todos os lados. Nao e dificil adivinhar as formas dos hoteis que ali vao nascer. Vejo Vegas em duplicado: piramides de Gize a meia escala, torre Eiffel, coliseu de Roma, Empire State Building. Muitas luzes que piscam. Capelas em que as pessoas entram depois de comungarem tanto sangue de cristo que no dia seguinte nao se lembram que elas e mais alguem sao afinal um so. Estou gelado pelo microclima de ar condicionado que se faz sentir dentro do autocarro. Estas tempestades de vento frio confundem-me as amigdalas desde que aqui cheguei. Quando adivinhamos estar perto do nosso destino geramos a aparato do costume sempre que precisamos de indicacoes: discutimos com o autocarro inteiro qual a melhor saida para visitar a vila de Coloane. Ate o condutor se mexe frenetico no seu banco saltitao e assiste a cena pelo retrovisor que espelha o corredor. Pelo menos cinco chineses falam connosco em chines. So um jovem (sao sempre eles) nos explica, naquele ingles do costume tocado a xilofone, que a paragem nao e esta mas a proxima. Saimos do frio seco para o calor torrencial e a Joana corre de braco dado a uma velhinha chinesa que insiste em indicar-nos em lingua de caracteres qual a rua mais pitoresca. A verdade e que a entendemos e foi assim que conhecemos o senhor Vong Iu Tong.
O senhor Tong e um Macaense dono de um restaurante em Coloane. Nas suas listas bilingues esta escrito em portugues: ameijoas a portuguesa, camaroes cozidos em agua e sal, caldo verde, caranguejo, sopa de marisco, feijoada, entre outros. Os precos sao portugueses anoes. Como ninguem nos atendia depois de muito tempo sentados comecamos a barafustar com os bracos no ar e os rabos so meio sentados. O senhor Tong apareceu a correr a cantar pela rua fora. Mal chegou ao pe de nos pos-se logo a aconselhar pratos em portugues, como se tambem a nossa lingua se falasse a jorros:
- O caranguejo quanto custa?
- Caranguejomuitobom.
- Ah!, fala portugues?!
- Faloportugues. Umpouco. Falopouco.
E ria-se com o corpo todo.
- Cascais. Lisboa. Muitobom.
E fazia fixes com as duas maos.
- Paocommanteiga?
Depois gritava a sua empregada o que era preciso trazer com uma eficiencia inesperada, tal era a brincadeira cultural em que se tinha transformado o nosso pedido. O resto do jantar passamo-lo a ver o senhor Iu cantar de mesa em mesa com o seu copinho de licor. Fez saude com toda a rua. Eram uns quatro restaurantes seguidos, que conviviam muito bem com as suas virtudes e defeitos. Os pratos eram cozinhados uns aqui e outros ali. Cada restaurante fabricava so aquilo em que realmente se especializara e nenhum levava a mal que o caranguejo do outro fosse melhor que o dele, porque afinal de contas nao ha carapauzinhos grelhados como os que aqui se vendem. Comemos um banquete de marisco ao preco da chuva e sentimo-nos verdadeiramente em casa, na esquina daquele larguinho de arcadas com chao de calcada e uma igreja ao centro.

PCH

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quarta-feira, 18 de junho de 2008

Capitulo 3: Macau




Sentado dentro de um ferry de Hong Kong para Macau posso jurar que estou dentro de uma nave espacial que voa rente a agua picada e cor de lama, a mais de 300 km/h. Mas este e so um ferry convencido, daqueles que andam depressa demais e que fazem gala em tentar provar que os barcos ainda sao o melhor meio de transporte a face da Terra. E por isso anda a mil. Empina e volta a cair com uma violencia que deixaria o Capitao Haddock mais tonto e enjoado que depois de engolir trinta garrafas de rum. De cada vez que o katamaran salta os chinocas la a frente gritam e batem palmas de medo, como se estivessem prestes a mergulhar a pique numa carruagem da montanha russa. La fora tudo o que vejo sao jorros de agua escorrerem depressa e para tras nas janelas do barco: nao sei se chove ou se o ferry esta a provocar um tsunami, mas o espectaculo e tempestuoso. Finalmente o barco abranda e o Bernado atreve-se a arrotar o enjoo que tinha acumulado de olhos fechados e nuca apoiada no encosto da cabeca. Macau surge a borda de agua e so entao me apercebo que nunca antes me tinha dedicado a construir uma expectativa desta cidade. Nunca a visualizei mentalmente. Nunca previ o seu perfil. Absorvo tudo como novo e a verdade e que fico confuso com o que vejo.

E impossivel descrever Macau numa linha. Posso tentar:

Macau e muito giro, porque e muito portuguesa e nos faz sentir em casa.


Em certa medida isto ate e verdade. A calcada na rua e tao portuguesa como a que vai dos Armazens do Chiado ao Largo Camoes, as casas apalacadas amarelas, brancas, azuis ou cor de rosa estao por todo o centro da cidade como sardas morenas em carne amarela, as tabuletas de transito vem escritas em portugues, ha pasteis de nata a venda nas ruas. Ainda assim sinto que toda a vida portuguesa de Macau fui eu que a transportei dentro de mim para aquelas ruas e a dispus naquilo que fui reconhecendo de minha casa. Macau nao transpira nada disto. Macau e chinesa. O centro esta rodeado de dormitorios construidos em altura. Contraplacado e betao mal armado, janelas de plastico, janelas de aluminio, janelas de madeira, janelas de pano: sao torres enormes cor de em tempos cor de rosa, esguias e carcomidas ate ao esqueleto enferrujado. Nas ruas do centro historico vendem-se fatias de carne de porco pefeitamente rectangulares, como se fossem tapetes empilhados num bazar de Marrocos. A porta destas lojas estao sempre quatro ou cinco minorcas de fato de treino e avental com uma pinca a segurar um tapete numa mao e uma tesoura para cortar amostras que oferecem as pessoas na outra. O Jay pediu uma amostra e atreveu-se a comparar aquele bocado de borracha gordurosa a cheirar a peixe e vinagre com a pele estaladica dum leitao assado. O Bernardo quase vomitou para uma sarjeta.


Tiramos a fotografia tipica na escadaria que sobe ate a fachada da Igreja de Sao Paulo e fomos comer a um beco sem saida. A sugestao foi da Mariana, nossa anfitria que nos recebeu muito bem (ate tivemos direito a roupa de cama lavada). Era um restaurante de dumplings: pasteis de massa de arroz fritos com o que quisermos la dentro - a variedade de ingredientes e enorme. Sao autenticas esponjas de gordura. Sabem todos praticamente ao mesmo depois de afogados em molho de soja, mas bastam tres ou quatro pasteis daqueles para parecer que acabamos de comer uma pacote de banha de porco a colher.

Tudo isto e muito pitoresco e e engracado viver entalado entre a China e Portugal. Mas os vinte cinco milhoes (em numerario impressiona mais: 25.000.000) de turistas que Macau recebe todos os anos nao vem comer dumplings nem subir escadinhas ate aquela igreja que e so uma fachada com 15 metros. Macau e o unico sitio em toda a China em que se pode torrar dinheiro em casinos (imaginem se em toda a Europa so se pudesse jogar na Figueira da Foz) e por isso eles nasceram como cogumelos desde que Portugal devolveu o territorio aos chineses. Desde entao que a China cresce a mais de 10% ao ano e o aumento de riqueza nota-se bem. Dos muitos destinos que esse dinheiro tem, um deles e sem duvida o jogo e por isso gasta-se hoje mais dinheiro ao jogo em Macau que em Las Vegas. Foi o que eu e o Bernardo fizemos: de chanato nos pes e calcas arregacadas por causa da chuva, entramos pela porta principal do maior casino do mundo. O Venetian: uma replica do Venetian de Las Vegas, mas cinco vezes maior. La dentro passa-se tudo numa so sala gigante. Por cima esta Veneza em ponto pequeno na forma de um centro comercial de luxo, com canais e gondoleiros chineses que cantam excitadinhos e batem palminhas, em cima de gondolas que funcionam a motor. Ainda mais acima estao 3000 quartos de hotel. Sao 55.000 visitantes diarios que o casino recebe. Joguei 200 HKDollars com o Bernardo e ganhamos 1500. Fugimos depois para o bar do canto com musica ao vivo. O Bellini. O palco e todo americano e a musica bem tocada.




Todo o casino e um antro de putas quase bem vestidas e a procura de muito bom dinheiro. Por pouco nao nos apercebemos disso nao fossem os encontros esporadicos com os chulos que de vez em quando desmascaramos por detras das slot machines. Sentado no bar comeco a ouvir Simply the Best da Tina Tuner e nao demora mais de dois segundos ate que uma destas meretrizes salta da cadeira onde estava sentada junto ao seu ganha-pao da noite e inicia uma danca escandalosamente erotica. O chinoca nao sabia que fazer ao corpo. Ela puxou-o e ele levantou-se e ficaram os dois sozinhos no meio da sala, o rabo dela colado a pelvis dele. Mas o homem estava demasiado embaracado. Em pe, parado e direito, pes a largura dos ombros e uma mulher a enroscar-se nele. Da dois passinhos atras e agarrava-se a cadeira sem saber que fazer. Bebe uma cerveja aos golinhos quase que com as duas maos nao fosse uma delas acusar-lhe o enleio. Agarra-se aos amendoins, porque os golinhos depressa perdem a validade no meio daquela encenacao. Depois vem o guardanapo e as maos que se limpam dedo a dedo. E leva muito tempo nisto ate que as tantas nao resiste - "Afinal fui eu que paguei por esta puta!". Lanca as suas garras e agarra cada bochecha do rabo daquela mulher ate que ela levanta os pes do chao aos pinotes e encosta-se a ele. Dai em diante o espectaculo foi a dois. Better than all the rest tornou-se mais libidinoso do que alguma vez a Tina Tuner sonhou e nem os The Eagles conseguiram abrandar a volupia na plateia.


PCH

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terça-feira, 17 de junho de 2008

Capitulo 2: Kowloon/ Hong Kong

Victoria Peak e Pok Fu Lam Country Garden: Downhill em Hong-Kong





"Isto é pior do que dormir numa tenda no Alentejo", ouviu-se alguém desabafar às 10 da manha no nosso quarto no USA Hostel, quando ainda poucas horas antes tinhamos regressado da ilha de Peng Chau. Apesar do cansaço acumulado no corpo, das dores nos músculos e de um torpor na cabeca provocado pelo jet-lag, era impossível continuar a dormir com aquele calor. A roupa colava-se ao corpo encharcado em suor e ate respirar parecia uma proeza, tal era a concentracao de humidade naquele quarto. Lentamente comecei a abrir os olhos, meio inebriado, e a interiorizar o que se passava a minha volta: estava a acordar em Hong Kong, num continente que ate ha bem poucas horas so conhecia de ver nos mapas, deitado numa cama num décimo quarto andar, num quarto exiguo, com vista para um guindaste amarelo e para uma fila de arranha-ceus que censurava qualquer olhar mais aventureiro. So me apeteceu tomar um banho de água-fria e sair dali. Nao que o Hostel fosse sujo, nem tao pouco um lugar inospito, porque assim que entravamos no nosso quarto nem nos lembravamos que estavamos no Mirador Mansion, mas havia qualquer coisa naquela atmosfera que me afastava dali ou quem sabe era apenas o espirito de andarilho a falar mais alto.





Por volta do meio-dia, estavamos na ilha de Hong-Kong, a apanhar o tram para o Victoria Peak, a principal atraccao turistica da cidade, mas nem por isso a que nos chamava mais a atencao. A parte mais interessante de visitar o Peak foi mesmo a viagem ate ao topo. Assim que entramos no tram, tivemos a impressao de que estavamos numa nave espacial, mas em que os bancos pareciam tirados de um jardim municipal. A locomotiva estava apontada a 45 graus e assim que comecamos a subir empinou quase na vertical, desafiando todas as leis da fisica. A viagem foi lenta, mas a medida que nos fomos aproximando do Peak deixamos de contar os minutos, porque Hong Kong entrou-nos pela janela em tamanha miniatura, como se estivessemos a receber um postal em tempo real. A imagem de Hong Kong a deriva no oceano, vista daquele comboio-trepador, que a todo o segundo ameacava cair no vazio, ficou-me na cabeca. Depois ja no topo foi mais do mesmo. Quem quisesse ainda podia pagar mais um punhado de dolares para ver Hong Kong do cimo de um mamarracho de ferro, mas nos limitamo-nos a dar uma volta e depois decidimos descer a pé.








Voltamos a Hong Kong pelo Pok Fu Lam Country Garden, um parque natural que rodeia o Victoria Peak e que e atravessado por uma vereda de pedra humida e cheia de musgo, que em alguns momentos mais parecia uma pista de Downhill. O caminho de volta tinha tudo para ser uma das experiencias mais agradaveis em Hong Kong, pois a vereda de pedra era toldada por arvores ancestrais, por onde volta e meia corria uma aragem fresca (uma coisa rara por estas paragens) que ajudava a disfarcar a humidade sufocante que nos perseguia para todo o lado. Mas rapidamente aquela viagem se transformou numa prova de resistência, porque a determinada altura a inclinacao tornou-se tao acentuada que tinhamos que andar nas pontas dos pés, como equilibristas, e andar nas pontas dos pes durante quase uma hora pode ser uma experiencia bem aterradora. O que ainda nos ia distraindo era ver passar algumas borboletas de dimensões pre-historicas, que pareciam autênticos pássaros, ou rir com aqueles que passavam por nos a caminho do topo, como se fosse possivel algum deles la chegar...









Passeio em Sheung-Wan e Jantar no Temple Night Market






Nessa tarde, optamos por dar um passeio por Sheung-Wan, uma zona tipica de Hong Kong, encaixada discretamente no meio de uma barricada de arranha-ceus e onde se esbarra com um mercado em cada esquina. Deparamo-nos com todo o tipo de mercados, desde mercados mais arrumados onde se vendem relogios de marca ao preco da chuva, ate bancas de madeira improvisadas, que vendem titulos de divida publica emitidos por Mao durante a revolucao cultural e de onde volta e meia sai um rato tinhoso. O passeio foi optimo para conhecermos um outro lado de Hong Kong, menos folclorico, longe das luzes neon e dos predios colossais a cairem de podre, um cheirinho daquilo que tanto nos atraiu na Asia, lugares onde o tempo parece nao chegar e onde o olhar das pessoas fala por si mesmo. Casas mais pitorescas, homens de olhos em bico a espreitarem por tras dos postigos de madeira, chineses de semblante triste, mas de uma tristeza resignada, como se aceitassem o seu destino com a maior das naturalidades. Um aperitivo para os dias que se seguiam.


Quando horas mais tarde voltamos ao Mirador Mansion, encontramos uma fila de pessoas para apanhar o elevador. Estivemos aproximadamente 15 minutos na fila, rodeados de indianos, cambodajanos, arabes, individuos de barriga a mostra, descalcos, uma especie de engarrafamento na A5 so que para apanhar um elevador.


Por volta das 9 saimos de Tsim Sha Tsui para visitarmos o Temple Night Market, umas das principais atraccoes da cidade: um mercado nocturno apertado, que se estende ao longo de duas ruas compridas e onde se vende de tudo. Antes de nos debrucarmos sobre o mercado, tratamos de escolher um restaurante para ter a nossa primeira experiencia gastronomica no Oriente. Seguimos um dos conselhos do Lonely Planet e procuramos o restaurante mais cheio do mercado (o argumento deles e que se o restaurante estiver cheio, a partida nao sera muito mau e a probabilidade de arranjarmos uma disenteria e substancialmente menor). Acabamos por comer uns fried noodles optimos, regados com Tsing Tao, a cerveja ca do sitio e a nossa unica constante ao longo de toda a viagem. A seguir atiramo-nos ao mercado e tivemos a oportunidade de fazer bons negocios, se bem que dias mais tarde, ao cruzarmos a fronteira para a mainland China, percebemos que nao deviamos ter comprado nada em Hong Kong, porque assim que se salta a fronteira, os precos caem a pique.


BG

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quinta-feira, 12 de junho de 2008

Capitulo 1: Kowloon/Hong Kong


A ilha de Hong-Kong, situada ao largo da china, é certamente um dos lugares de maior renome para os Europeus. É também o ponto de partida desta nossa grande marcha, por terras dos Ming, de Gao Xingjian e de tantos outros que nos foram povoando o imaginario desde pequenos. Conhecida por ser um dos principais centros financeiros da Ásia, com uma ligacão histórica à Europa, esta ilustre ilha, ancorada no Índico, surpreende sobretudo pelo movimento frenético, pelos placares luminosos pendurados por todo lado e pela humidade que se cola ao corpo desde o primeiro segundo em que saímos do aeroporto.

Nathan Road: Mergulhados no Caos



Para chegarmos à ilha de Kowloon (a irmã desconhecida de Hong Kong), onde já tinhamos um hostel marcado, apanhámos um autocarro de 45 minutos, que nos deu logo uma ideia de como vivem os chineses em Hong Kong. Antes de chegarmos ao nosso destino, fomos serpenteando ao longo de corredores de prédios altos e esguios, que se equilibravam ora na vertente dos montes, ora encaixados na vegetacão maciça, como peças de dominó desalinhadas. Em Hong Kong vive-se apertado. As casas parecem ter apenas o espaco imprescindível para levar uma vida digna (e nalguns casos nem mesmo isso). As pessoas vivem sobretudo na rua, que estao sempre cheias de chineses de passagem e de indianos que nos impingem as coisas mais absurdas e que nos tentam arrastar para o interior das lojas. A nossa primeira paragem foi Nathan Road (a rua do nosso hostel), uma espécie de Quinta Avenida em decadência, ladeada por prédios colossais e com um ar decrépito, onde se cruzam milhares de chineses de semblante fechado, debaixo de uma nuvem de placares luminosos. O legado britânico parece mesmo ficar-se pelo trânsito, onde os carros continuam a circular à esquerda, porque não há nada, de resto, que nos lembre que Hong Kong era até há poucos anos um protectorado inglês.

O nosso hostel não foi fácil de encontrar. Mas depois de algum esforço lá o descobrimos, num prédio no bairro de Tsim Sha Tsui, chamado Mirador Mansion. Descrever o Mirador Mansion é uma tarefa demasiado ingrata para um mortal, mas só para que fiquem com uma ideia, ao percorrermos os corredores deste prédio, horas mais tarde, apercebemo-nos da existência de mais quatro hostels para além do nosso, de restaurantes indianos, chineses, de casas de prostituição, de um spot com internet, de lojas que vendiam toda a espécie de bugigangas, enfim, o mirador mansion era o espelho da confusão que pulsava lá fora, uma experiência fortíssima, exactamente aquilo que precisávamos para começar a nossa incursão pelo Oriente.


Hong-Kong, Central: Glória Portuguesa e Uma Aventura Improvável



"Puto, é mesmo ali que vemos o jogo!". Eram por volta das nove da noite quando fizemos a travessia de metro de Kowloon para Hong-Kong, na expectativa de encontrar um lugar para ver o jogo Portugal-República Checa. Depois de uma refeição mais light demos uma volta pela centro da ilha, onde se respira uma paz quase anacrónica, que ainda assim não apaga da memória o ritmo alucinante da Nathan Road. Depois de metermos para uma rua sem carros, onde de um lado e outro surgiam bares em madeira e vidro com bom aspecto, lá descobrimos o lugar ideal para assistirmos ao jogo: um pub irlandês, com torres de cerveja e dois televisores só para nós. O que é que podiamos querer mais do que isto? Como ainda faltava algum tempo para o jogo e tinhamos comprado uma garrafa de vinho, andámos à procura de um jardim para a deitar abaixo, mas o melhor que encontrámos foi a entrada de um parque que estava fechado durante a noite.

À meia-noite em ponto estávamos colados em frente à televisão, acompanhados por uma cerveja e por um potente ar condicionado que por momentos se encarregavam de nos fazer esquecer que estávamos na Ásia a torcer pela nossa selecção. Os chineses ficaram logo a olhar para nós com um ar intrigado, quando começámos a entoar o hino com emoção e ainda mais quando festejámos os dois golos (principalmente o segundo, em que fomos particularmente efusivos). É que os chineses são um povo reservado e que não está tão habituado a expor os sentimentos.

"So which team were you supporting?", perguntei eu a um inglês com quem me cruzei na casa-de-banho. "The Checs, obviously!", respondeu ele. "Why?", saiu-me com alguma ingenuidade. "Because they were the underdogs, man...". Portugal tinha acabado de ganhar o jogo e eu estava a delirar de orgulho, mas aquela confissão de um inglês revoltado por não ter a selecção no Europeu, ainda me deixou mais feliz. Era a constatação de que Portugal hoje em dia é vista como uma das melhores do mundo, até por um adepto inglês ressabiado.

Saímos do pub com demasiada energia para voltarmos ao Mirador Mansion, por isso andámos a passear pelo porto e a tirar algumas fotografias. O problema é que ainda tinhamos que atravessar o mar que separa Kowloon de Hong-Kong e o metro já tinha fechado, por isso tinhamos que ir de Taxi. Estávamos a dar uma volta pela marginal, quando de repente o Pedro viu um ferry ancorado no cais e gritou: "Malta, baza de ferry para Kowloon!". Todos achámos uma excelente ideia e desatámos a correr em direcção ao barco e apanhámo-lo mesmo a tempo. Qual não foi o nosso espanto, quando, ao fim de alguns minutos, começámos a ver o barco a afastar-se cada vez mais da ilha de Kowloon. Resolvemos então perguntar a uma rapariga para onde ia o barco. "This ferry goes to Peng Chau.". "Peng Chau?", interrogámos nós com um ar confuso. "Yes. An island in the middle of the ocean...". Eram três e meia da manhã.
BGL



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segunda-feira, 9 de junho de 2008

Let the Games Begin ( 讓 比 賽 開 始 )

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