quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
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Guernica (parte 1) |
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
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Once in a lifetime (epílogo) |
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Once in a lifetime (último acto) |
- Só acordei muito tempo depois, quando um rapaz magro, baixo e de pele curtida me deu duas palmadas secas no ombro. «O conselho já deliberou. Siga-me», disse ele, sacudindo com a mão uma aranha que entretanto lhe tinha pousado na gabardina. A mim deu-me novamente um ataque de cólera, mas contive-me e segui-o num passo mal-dormido. Levou-me para uma salinha minúscula, na proa do navio, onde já me esperavam o capitão e mais cinco homens, todos enfarpelados e com um semblante sisudo. Assim que entrei o capitão levantou-se e indicou-me um banco para eu me sentar. «É o banco dos réus?», perguntei-lhe eu num tom de gozo, «Deixe estar que eu fico mesmo de pé». O capitão franziu o sobrolho e toda a sua cara ficou vermelha de raiva, «Não ridicularize a autoridade. Nunca se sabe quando é que não precisamos da sua clemência...». «Está-me a ameaçar, capitão?», interpelei eu novamente, sobrevoando o olhar pelos restantes homens que ocupavam a sala, «Se me quiser matar, mate-me. Mas mate-me de uma vez por todas. Não tenho medo de homens como o senhor!». «Nem precisa de ter, porque antes de eu lhe espetar uma bala nessa cabeça, o senhor ainda vai dar uma grande ajuda a este barco!», retorquiu ele, soltando logo de seguida uma gargalhada estridente, à qual se juntaram os risos bajuladores dos outros cinco membros do conselho, «O tribunal deste navio decidiu condená-lo a dez anos de serviço a esta companhia e nessa altura, consoante o seu desempenho, logo se verá se será ou não necessário prolongar a pena. Tem alguma coisa a contestar?». Eu permaneci calado. Uma coisa que a vida nos ensina é que com os loucos não se argumenta. Diz-se-lhes que sim e depois arranja-se uma forma de dar a volta ao texto. Segundos depois a porta da sala abriu-se e levaram-me de volta para o porão. Só durante o caminho é que me dei conta do urgente que era delinear um plano para saltar fora. Concerteza que o barco já não ia aguentar muito tempo por aquelas paragens e se por acaso ele saía para o mar alto ia ter que aturar aquele capitão demente mais tempo do que o suportável. Por isso decidi que a fuga não passaria dessa noite. De volta ao porão, estive algumas horas a tentar libertar-me das amarras, até que descobri um espigão de ferro que saía de um caixote, que me facilitou bastante a tarefa. Depois aguardei pela madrugada para arrombar a escotilha do porão com um pé-de-cabra que encontrei num armário. Mas quando finalmente subi ao convés da traineira a sede de vingança não me deixou abandonar aquela embarcação sem mais nem menos. Muito calmamente e com um sangue frio que desconhecia possuir até ter ido para Ultramar, deslizei até à sala de máquinas e vasculhei-a de uma ponta à outra. Só parei quando finalmente encontrei o que queria: uma caixa de fósforos, dos grandes, para acender lareiras. Sem mais demoras, desatei a pegar fogo a tudo quanto me aparecia à frente, ao convés, às velas, ao tombadilho, aos botes de socorro e depois sentei-me na amurada na popa, a assistir ao declínio do capitão todo poderoso. A tripulação não demorou a aperceber-se do que se passava e rapidamente o pânico se alastrou a todos no navio. Uma embarcação que horas antes se orgulhava de ser dona da sua própria lei, esvaía-se assim em cinzas, vítima do seu autoritarismo e da sua prepotência. Foi com uma sensação de dó que minutos mais tarde vi os cinco conselheiros, um por um, serem acossados pelas chamas até terem que pular fora da traineira. Pouco depois, apareceu então o capitão Abilío Celestino, com uma cara consternada e com a roupa chamuscada pelas labaredas. Mal reparou em mim sentado na amurada, fulminou-me com os seus olhinhos de raposa velha e truculenta e tentou dizer-me qualquer coisa, mas a raiva era tanta que não conseguiu articular uma frase e apenas soltou um grunhido. «Eu tinha-o avisado, capitão. Homens como o senhor não me assustam», acicatei eu, fascinado com a capacidade que tinha de desconcertar aquele homem. Ele nem disse mais nada, simplesmente arregaçou as mangas do casaco e correu na minha direcção. Mas naquele momento eu atirei-me de costas ao rio e nunca mais o vi. Nadei até de madrugada. Quando cheguei a terra os destroços da traineira já tinham sido engolidos pela água e a única coisa que se ouvia no raio de uma milha eram os marinheiros da companhia do capitão Abílio a barafustarem uns com os outros e ocasionalmente o grasnido de uma gaivota. Sentia-me um farrapo. Durante a viagem até terra tinha-me prometido a mim mesmo que se sobrevivesse nunca mais faria mergulho. Porém, uma vez à beira-rio, percebi que o meu destino estava inalianavelmente ligado à água. Apesar da visita à traineira do capitão Abílio me trazer à memória um catálogo de sentimentos funestos, a verdade é que me acordou para os prazeres de ser pescador e deu um novo rumo à minha vida. Dias depois inscrevi-me numa companhia de pesca em Sesimbra, de espontânea vontade e teve início o período mais dourado da minha vida. Mas isso já é uma outra história.
- Zé, já chega por hoje...
- Tens razão. Já chega por hoje.
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Once in a lifetime (parte 4) |
- Mas voltando aonde nós íamos. Eu não podia imaginar, mas a minha aventura tinha acabado de começar. Assim que recuperei o fôlego, o capitão Abilío Celestino aproximou-se, acompanhado por dois marinheiros entroncados e ordenou que me amarrassem. Confesso que no início ainda estava meio combalido e nem percebi o alcance das suas intenções. «Mas porque raio é que me querem amarrar?», interroguei numa voz rouca e tossicando amiúde. «Porque ainda temos que decidir o que fazer consigo», retorquiu secamente o capitão, fitando-me com um olhar sombrio e calculista. «Decidir o que fazer comigo?!», interpelei eu já num tom iracundo e com um sorriso nervoso a dançar-me nos lábios, «Mas quem é que você se julga? Quem tem que decidir o que vai ser ou não de mim sou eu e o senhor não tem nada a ver com isso... Solte-me mas é desta rede e leve-me imediatamente para terra que este seu barco hoje já me deu complicações que cheguem!». Percebi logo pela forma como as suas pálpebras começaram a tremer que odiava que lhe subissem a voz. Arriscaria mesmo dizer que há muito tempo que aquele homem não recebia uma ordem de ninguém e que o meu tom de desafio o tinha surpreendido. «Pois, mas isso era antes de eu o ter apanhado com a minha rede», murmurou o capitão, numa vozinha traiçoeira, sem levantar os olhos do convés da embarcação, «A partir do momento em que eu o pesquei você passou a pertencer-me e quem decide o seu destino sou eu. Você compreende isso ou não?». «Você é louco...», gritei-lhe eu com todas as forças que me restavam no peito e já nem obtive resposta, porque logo de seguida ele estalou os dedos e os dois marinheiros que o acompanhavam amarraram-me os punhos com uma corda e levaram-me para o porão da traineira. Cinco minutos de conversa com aquele homem, tinham-me bastado para perceber que ele apesar de ter uma presença física invejável, não passava de um homem mesquinho, perturbado, um louco na verdadeira acessão da palavra, que nem carácter tinha para aguentar uma troca de olhares. Estive durante várias horas sozinho no porão do barco e não é uma experiência que gostasse de repetir. Assim que abriram o alçapão e me atiraram lá para dentro tive que conter um vómito, porque o cheiro acre e bafiento que ali se respirava era apenas comparável ao que encontrei em casa da minha avó quando demos com o corpo dela três dias depois de morta. A luz apenas entrava a espaços por umas frestas que havia entre as tábuas do convés e quando o fazia deixava entrever uma dezena de ratos a andarem em círculos e a chiarem uns com os outros. Nos primeiros instantes a minha cabeça não conseguiu deixar de fantasiar com ideia de me tornar num escravo em pleno século XX. Mas ideia era tão sórdida e ao mesmo tempo tão mirabolante, que nem mesmo um cérebro extenuado como o meu lhe outorgava algum grau de realismo. Seria possível que aquele verme não percebesse que não dispunha do poder nem da força para me encarcerar naquele navio? Que eu à mínima oportunidade saltaria fora? Soltei várias gargalhadas enquanto me imaginava a cumprir as tarefas mais submissas. Mas hoje não tenho bem a certeza se aquelas foram gargalhadas sinceras, se gargalhadas de nervos ou mesmo se uma espécie de mecanismo biológico para me acalmar e para romper com a solidão a que estava confinado. A verdade é que ao fim de uma hora o cansaço apertou e adormeci contra um caixote.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
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Senhor russo |
- Puxa que está frio! Brrr! - a velha arrepia-se pequenina, sentada ao meu lado no autocarro e inclina a cabeça sobre o meu ombro esquerdo, ainda que olhando em frente, como que a fazer conversa com o gnomo imaginário que está sentado no lugar vazio diante de mim. - Caramba! Brrr!, bem que eu disse à Joaninha que levasse o quispo que isto hoje não está para brincadeiras!
Estão nove graus lá fora e trinta dentro do autocarro.
- Pois... - e ia-me ficar por aqui. Mas de repente passou-me uma ideia irresistível pela cabeça que saltou cá para fora mesmo antes de eu a ponderar:
- Sabe?, a senhora faz-me lembrar uma história que um amigo que eu fiz na Rússia me contou uma vez.
- Na Rússia?! - estava baralhada.
- Sim. Quando fiz o Transiberiano.
- Ah!, e isso o que é?
- Um comboio que vai de Moscovo a Pequim e atravessa a Sibéria de um lado ao outro.
- Ah!... mas isso é muito frio não?!
- Pois. Por isso mesmo lhe digo que me faz lembrar essa história que o Fiodorovitch me contou.
- Quem?
Comecei a ter pena da velha. A sua cara franzia-se confusa e nem sequer parecia ser capaz de se decidir entre pôr o nariz debaixo do olho direito, no queixo ou na testa. Pelo rumo que a conversa tomava percebia-se bem que a velha baixinha teria preferido manter a sua conversa opaca com o gnomo da frente.
- O Fiodoruchka - disse-lhe eu risonho e impiedoso.
- Ah!, pois... Eh! - torceu a bochecha num risinho e ameaçou voltar a cabeça e o cabelo em forma de estátua de anjinho de pedra para a frente. Mas eu não deixei:
- Esse! Conheci-o em Oimyakon, uma cidade na Sibéria com 800 habitantes, que é conhecida por ser a terriola habitada mais fria do mundo. - a sua face ganhou alguma expressão e via-se que ficara curiosa.
- Pois, pois, é muito frio então!
- Muito mesmo! No inverno chegam a estar -75ºC imagine a senhora. Mas no Verão já chegaram a estar 34ºC. Não é incrível tamanho gradiente?!
- Tamanho quê?
- Uma variação tão grande entre frio e calor. Não acha?
- Oh!, sim, sim! Isso até faz mal com certeza. Jesus!, tanto frio e tanto calor! Eu que já sofro tanto e tenho tantos problemas de coração! E estas frieiras - está a ver? - que já tenho também por causa desta humidade toda que se faz sentir! Ui Jesus!, eu não era capaz de viver aí! - e dizia que "não" com a cabeça com a mesma veemência com que esfregava as mãos no creme gordo que entretanto tirara da carteira.
- Mas e então porque é me diz que lhe fiz lembrar esse seu amigo... o Fioduxa, não é como diz?!
- O Fiodor!
- Pois...
- Num desses dias que lá estive em Oimyakon ele levou-me a um bar à tardinha. Sentámo-nos ao balcão a beber umas canecas de cerveja morna. Os meus dois amigos portugueses que viajavam comigo, ficaram a ver os filmes antigos da Disney que lá havia em VHS, numa televisão muito velha, e a fumar cigarrilhas a um canto do bar. Eu conversava com o Fiodor ao balcão, num inglês propositadamente tosco para que ele me percebesse melhor. Às tantas, a meio da conversa, ele riu-se muito já meio embriagado e disse-me:
"Uma vez no Inverno fui caçar para o bosque aqui ao lado da cidade, perto da fábrica onde cortam os troncos das árvores. Às tantas fico cheio de vontade de cagar ehehe... Ahm, pois então, não aguento mais e tenho mesmo que parar atrás de uma árvore para fazer o meu serviço e... - eheheheh - Epah!, não podes imaginar, foi o pior momento da minha vida: estavam aí uns setecentos graus negativos, a merda saía congelada e doía-me tanto no cu que me vinham as lágrimas aos olhos! - AHAHAHAHAH! - ... às tantas não sabia o que é que havia de fazer porque aquilo ficou entalado meio dentro meio fora e eu não tinha forças para fazê-lo sair! - AH-AH-AH! - ... tive que o puxar com a mão acreditas?! Ahm-ham!, foi pior momento da minha vida! Não podes supor!"
A senhora e mais o autocarro inteiro ouviam-me incrédulos.
- Teve muita graça! Fartei-me de rir. Mas lembrei-me disto, porque de repente imaginei um desses anjinhos-da-consciência, que nos aparecessem junto ao ouvido, em forma de Fiodor, sentado no ombro da senhora.
- Anjinhos?! - pensou um pouco calada.
- Tipo o anjinho e o diabinho? - perguntou-me pasmada.
- Sim, isso, mas com a cara do Fiodor.
- Mas porquê?
- Para lhe lembrar a si e a todas as senhoras que se queixam que dez graus é frio mais insuportável que colar gelo à testa, que o que é tramado é viver num sítio onde até a própria caca e o mijo congelam quando os deitamos cá para fora. Isso é que é lixado.
"BAF!" - levei uma bofetada.
Tudo isto imaginei num instante e desmanchei-me a rir na cara da senhora que acabara de se queixar ao gnomo que estava frio. Não me deu uma bofetada mas olhou-me reprovadora. Disse só que "não" com a cabeça e grunhiu "juventude malcriada...". Eu olhei lá para fora e continuei a sonhar com o Fiodor.
PCH
domingo, 6 de janeiro de 2008
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Abade como o Bernardo |
"Amor é um arder, que se não sente;
É ferida, que dói, e não tem cura;
É febre, que no peito faz secura;
É mal, que as forças tira de repente."*1
Assim falava o Abade de Jazente a um pobre coitado que lá foi à abadia um dia confessar-se. Tentava apaziguar-lhe a alma, pois ele sofria de amores. Chamava-se Sancho e lamentava-se que ninguém acreditava nele quando o seu eterno amor declarava num pranto, do alto do raquítico coreto na praça para que davam as varandas do primeiro andar da Junta de Freguesia de Jazente. Quem tão pouco ia com aquela choradeira era a moça por quem o coração dele se rebelava e Sancho desanimava-se vergando-se mais uns milímetros em direcção ao solo a cada dia que passava.
Ela era nobre, branca e cheirava a flores.
Ele era pobre, pele cor de estrume e cheirava a bosta de vaca.
- Mas'óh shôr padre iss'a mim não parece estar muito certo e o shôr padre e Deus-Nosso-Senhor me perdoem - benze-se - porque sou só mais um pecador. Mas vá-me lá vossemecê ver qu'eu forç'áté tênho e com basteza, qu'inda hoje mandei c'uma trancada lá no Tilúrio qu'é o meu burro, qu'ele se veio pelas patas abaixo qu'a mim até me subiram os remorsos ao esófago tal foi a pena que me deu do animal. De maneiras qu'isso de nã ter forças assim de repente n'é cá comigo! E vá de ver se calhar isso o que quer dizer é qu'o qu'eu tenho talvez que nã seja amor mesmo...
E o Abade de Jazente perdia a cristã paciência com aquele homem, tamanha era a sua burrice.
- Oiça irmão! É com ela que sonha à noite? Pensa no que ela faz sempre que não a tem debaixo de olho? Só se sente apaziguado quando ela lhe sorri? Pensa nela até quando anda a espalhar bosta nos campos de batata? Há alguma coisa no mundo que julgue valer mais para si do que essa moça?
- Eu não shôr padre mas era isso mêmo que lhe dizia, eu....
- Pois então faça assim: sempre que pensar nela pense também nisto que lhe recito agora:
"Cagando estava a dama mais formosa,
E nunca se viu cu de tanta alvura;
Mas ver cagar, contudo a formosura
Mete nojo à vontade mais gulosa!
Ele a massa expulsou fedentinosa
Com algum custo, porque estava dura:
Uma carta de amores de alimpadura
Serviu àquela parte mal cheirosa:
Ora mandem à moça mais bonita
Um escrito de amor que, lisonjeiro,
Afectos move, corações incita:
Para o ir ver servir de reposteiro
À porta onde o fedor e a trampa habita,
Do sombrio palácio do alcatreiro!"*2
*1 excerto de um soneto de Abade de Jazente (1719-1789)
*2 soneto de Abade de Jazente in Exaltação do Prazer - antologia poética portuguesa erótica, burlesca e satírica do século XVIII
PCH