Abade como o Bernardo
"Amor é um arder, que se não sente;
É ferida, que dói, e não tem cura;
É febre, que no peito faz secura;
É mal, que as forças tira de repente."*1
Assim falava o Abade de Jazente a um pobre coitado que lá foi à abadia um dia confessar-se. Tentava apaziguar-lhe a alma, pois ele sofria de amores. Chamava-se Sancho e lamentava-se que ninguém acreditava nele quando o seu eterno amor declarava num pranto, do alto do raquítico coreto na praça para que davam as varandas do primeiro andar da Junta de Freguesia de Jazente. Quem tão pouco ia com aquela choradeira era a moça por quem o coração dele se rebelava e Sancho desanimava-se vergando-se mais uns milímetros em direcção ao solo a cada dia que passava.
Ela era nobre, branca e cheirava a flores.
Ele era pobre, pele cor de estrume e cheirava a bosta de vaca.
- Mas'óh shôr padre iss'a mim não parece estar muito certo e o shôr padre e Deus-Nosso-Senhor me perdoem - benze-se - porque sou só mais um pecador. Mas vá-me lá vossemecê ver qu'eu forç'áté tênho e com basteza, qu'inda hoje mandei c'uma trancada lá no Tilúrio qu'é o meu burro, qu'ele se veio pelas patas abaixo qu'a mim até me subiram os remorsos ao esófago tal foi a pena que me deu do animal. De maneiras qu'isso de nã ter forças assim de repente n'é cá comigo! E vá de ver se calhar isso o que quer dizer é qu'o qu'eu tenho talvez que nã seja amor mesmo...
E o Abade de Jazente perdia a cristã paciência com aquele homem, tamanha era a sua burrice.
- Oiça irmão! É com ela que sonha à noite? Pensa no que ela faz sempre que não a tem debaixo de olho? Só se sente apaziguado quando ela lhe sorri? Pensa nela até quando anda a espalhar bosta nos campos de batata? Há alguma coisa no mundo que julgue valer mais para si do que essa moça?
- Eu não shôr padre mas era isso mêmo que lhe dizia, eu....
- Pois então faça assim: sempre que pensar nela pense também nisto que lhe recito agora:
"Cagando estava a dama mais formosa,
E nunca se viu cu de tanta alvura;
Mas ver cagar, contudo a formosura
Mete nojo à vontade mais gulosa!
Ele a massa expulsou fedentinosa
Com algum custo, porque estava dura:
Uma carta de amores de alimpadura
Serviu àquela parte mal cheirosa:
Ora mandem à moça mais bonita
Um escrito de amor que, lisonjeiro,
Afectos move, corações incita:
Para o ir ver servir de reposteiro
À porta onde o fedor e a trampa habita,
Do sombrio palácio do alcatreiro!"*2
*1 excerto de um soneto de Abade de Jazente (1719-1789)
*2 soneto de Abade de Jazente in Exaltação do Prazer - antologia poética portuguesa erótica, burlesca e satírica do século XVIII
PCH
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