quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Senhor russo

- Puxa que está frio! Brrr! - a velha arrepia-se pequenina, sentada ao meu lado no autocarro e inclina a cabeça sobre o meu ombro esquerdo, ainda que olhando em frente, como que a fazer conversa com o gnomo imaginário que está sentado no lugar vazio diante de mim. - Caramba! Brrr!, bem que eu disse à Joaninha que levasse o quispo que isto hoje não está para brincadeiras!

Estão nove graus lá fora e trinta dentro do autocarro.

- Pois... - e ia-me ficar por aqui. Mas de repente passou-me uma ideia irresistível pela cabeça que saltou cá para fora mesmo antes de eu a ponderar:

- Sabe?, a senhora faz-me lembrar uma história que um amigo que eu fiz na Rússia me contou uma vez.
- Na Rússia?! - estava baralhada.
- Sim. Quando fiz o Transiberiano.
- Ah!, e isso o que é?
- Um comboio que vai de Moscovo a Pequim e atravessa a Sibéria de um lado ao outro.
- Ah!... mas isso é muito frio não?!
- Pois. Por isso mesmo lhe digo que me faz lembrar essa história que o Fiodorovitch me contou.
- Quem?

Comecei a ter pena da velha. A sua cara franzia-se confusa e nem sequer parecia ser capaz de se decidir entre pôr o nariz debaixo do olho direito, no queixo ou na testa. Pelo rumo que a conversa tomava percebia-se bem que a velha baixinha teria preferido manter a sua conversa opaca com o gnomo da frente.

- O Fiodoruchka - disse-lhe eu risonho e impiedoso.
- Ah!, pois... Eh! - torceu a bochecha num risinho e ameaçou voltar a cabeça e o cabelo em forma de estátua de anjinho de pedra para a frente. Mas eu não deixei:
- Esse! Conheci-o em Oimyakon, uma cidade na Sibéria com 800 habitantes, que é conhecida por ser a terriola habitada mais fria do mundo. - a sua face ganhou alguma expressão e via-se que ficara curiosa.
- Pois, pois, é muito frio então!
- Muito mesmo! No inverno chegam a estar -75ºC imagine a senhora. Mas no Verão já chegaram a estar 34ºC. Não é incrível tamanho gradiente?!
- Tamanho quê?
- Uma variação tão grande entre frio e calor. Não acha?
- Oh!, sim, sim! Isso até faz mal com certeza. Jesus!, tanto frio e tanto calor! Eu que já sofro tanto e tenho tantos problemas de coração! E estas frieiras - está a ver? - que já tenho também por causa desta humidade toda que se faz sentir! Ui Jesus!, eu não era capaz de viver aí! - e dizia que "não" com a cabeça com a mesma veemência com que esfregava as mãos no creme gordo que entretanto tirara da carteira.
- Mas e então porque é me diz que lhe fiz lembrar esse seu amigo... o Fioduxa, não é como diz?!
- O Fiodor!
- Pois...
- Num desses dias que lá estive em Oimyakon ele levou-me a um bar à tardinha. Sentámo-nos ao balcão a beber umas canecas de cerveja morna. Os meus dois amigos portugueses que viajavam comigo, ficaram a ver os filmes antigos da Disney que lá havia em VHS, numa televisão muito velha, e a fumar cigarrilhas a um canto do bar. Eu conversava com o Fiodor ao balcão, num inglês propositadamente tosco para que ele me percebesse melhor. Às tantas, a meio da conversa, ele riu-se muito já meio embriagado e disse-me:

"Uma vez no Inverno fui caçar para o bosque aqui ao lado da cidade, perto da fábrica onde cortam os troncos das árvores. Às tantas fico cheio de vontade de cagar ehehe... Ahm, pois então, não aguento mais e tenho mesmo que parar atrás de uma árvore para fazer o meu serviço e... - eheheheh - Epah!, não podes imaginar, foi o pior momento da minha vida: estavam aí uns setecentos graus negativos, a merda saía congelada e doía-me tanto no cu que me vinham as lágrimas aos olhos! - AHAHAHAHAH! - ... às tantas não sabia o que é que havia de fazer porque aquilo ficou entalado meio dentro meio fora e eu não tinha forças para fazê-lo sair! - AH-AH-AH! - ... tive que o puxar com a mão acreditas?! Ahm-ham!, foi pior momento da minha vida! Não podes supor!"

A senhora e mais o autocarro inteiro ouviam-me incrédulos.
- Teve muita graça! Fartei-me de rir. Mas lembrei-me disto, porque de repente imaginei um desses anjinhos-da-consciência, que nos aparecessem junto ao ouvido, em forma de Fiodor, sentado no ombro da senhora.
- Anjinhos?! - pensou um pouco calada.
- Tipo o anjinho e o diabinho? - perguntou-me pasmada.
- Sim, isso, mas com a cara do Fiodor.
- Mas porquê?
- Para lhe lembrar a si e a todas as senhoras que se queixam que dez graus é frio mais insuportável que colar gelo à testa, que o que é tramado é viver num sítio onde até a própria caca e o mijo congelam quando os deitamos cá para fora. Isso é que é lixado.

"BAF!" - levei uma bofetada.

Tudo isto imaginei num instante e desmanchei-me a rir na cara da senhora que acabara de se queixar ao gnomo que estava frio. Não me deu uma bofetada mas olhou-me reprovadora. Disse só que "não" com a cabeça e grunhiu "juventude malcriada...". Eu olhei lá para fora e continuei a sonhar com o Fiodor.

PCH

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