segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Once in a lifetime (parte 4)

- Deixe-o estar, minha senhora. Nós precisamos de miúdos interventivos como o seu filho – alvitrou o Zé Manel. E dizendo isto voltou-se para o Salvador e semicerrou um dos olhos como se o estivesse a examinar. – Rapaz, nunca te deixes acomodar, porque aquilo que o mundo precisa é de homens inquietos e inconformados!
O meu irmão rejubilou com o comentário e lançou um olhar radiante à minha mãe, em jeito de desafio.

- Mas voltando aonde nós íamos. Eu não podia imaginar, mas a minha aventura tinha acabado de começar. Assim que recuperei o fôlego, o capitão Abilío Celestino aproximou-se, acompanhado por dois marinheiros entroncados e ordenou que me amarrassem. Confesso que no início ainda estava meio combalido e nem percebi o alcance das suas intenções. «Mas porque raio é que me querem amarrar?», interroguei numa voz rouca e tossicando amiúde. «Porque ainda temos que decidir o que fazer consigo», retorquiu secamente o capitão, fitando-me com um olhar sombrio e calculista. «Decidir o que fazer comigo?!», interpelei eu já num tom iracundo e com um sorriso nervoso a dançar-me nos lábios, «Mas quem é que você se julga? Quem tem que decidir o que vai ser ou não de mim sou eu e o senhor não tem nada a ver com isso... Solte-me mas é desta rede e leve-me imediatamente para terra que este seu barco hoje já me deu complicações que cheguem!». Percebi logo pela forma como as suas pálpebras começaram a tremer que odiava que lhe subissem a voz. Arriscaria mesmo dizer que há muito tempo que aquele homem não recebia uma ordem de ninguém e que o meu tom de desafio o tinha surpreendido. «Pois, mas isso era antes de eu o ter apanhado com a minha rede», murmurou o capitão, numa vozinha traiçoeira, sem levantar os olhos do convés da embarcação, «A partir do momento em que eu o pesquei você passou a pertencer-me e quem decide o seu destino sou eu. Você compreende isso ou não?». «Você é louco...», gritei-lhe eu com todas as forças que me restavam no peito e já nem obtive resposta, porque logo de seguida ele estalou os dedos e os dois marinheiros que o acompanhavam amarraram-me os punhos com uma corda e levaram-me para o porão da traineira. Cinco minutos de conversa com aquele homem, tinham-me bastado para perceber que ele apesar de ter uma presença física invejável, não passava de um homem mesquinho, perturbado, um louco na verdadeira acessão da palavra, que nem carácter tinha para aguentar uma troca de olhares. Estive durante várias horas sozinho no porão do barco e não é uma experiência que gostasse de repetir. Assim que abriram o alçapão e me atiraram lá para dentro tive que conter um vómito, porque o cheiro acre e bafiento que ali se respirava era apenas comparável ao que encontrei em casa da minha avó quando demos com o corpo dela três dias depois de morta. A luz apenas entrava a espaços por umas frestas que havia entre as tábuas do convés e quando o fazia deixava entrever uma dezena de ratos a andarem em círculos e a chiarem uns com os outros. Nos primeiros instantes a minha cabeça não conseguiu deixar de fantasiar com ideia de me tornar num escravo em pleno século XX. Mas ideia era tão sórdida e ao mesmo tempo tão mirabolante, que nem mesmo um cérebro extenuado como o meu lhe outorgava algum grau de realismo. Seria possível que aquele verme não percebesse que não dispunha do poder nem da força para me encarcerar naquele navio? Que eu à mínima oportunidade saltaria fora? Soltei várias gargalhadas enquanto me imaginava a cumprir as tarefas mais submissas. Mas hoje não tenho bem a certeza se aquelas foram gargalhadas sinceras, se gargalhadas de nervos ou mesmo se uma espécie de mecanismo biológico para me acalmar e para romper com a solidão a que estava confinado. A verdade é que ao fim de uma hora o cansaço apertou e adormeci contra um caixote.

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