segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Once in a lifetime (último acto)

Zé Manel despejou mais um copo de aguardente pela garganta abaixo. Os seus olhos pareciam agora de vidro e o seu discurso vigoroso e electrizante tinha evoluído para um registo sentimental, nostálgico, como se estivesse a remexer um baú de memórias. Era o alcóol a manifestar-se. Mas desenganem-se aqueles que julgam que a história se tornou aborrecida por isso. Porque havia algo naquele homem de tão apaixonado na forma como divagava sobre o seu passado, mesmo quando já entaramelava a voz, que nos transportava para uma outra realidade (um mundo perpendicular?) e nos elevava a um estado de felicidade impermeável.

- Só acordei muito tempo depois, quando um rapaz magro, baixo e de pele curtida me deu duas palmadas secas no ombro. «O conselho já deliberou. Siga-me», disse ele, sacudindo com a mão uma aranha que entretanto lhe tinha pousado na gabardina. A mim deu-me novamente um ataque de cólera, mas contive-me e segui-o num passo mal-dormido. Levou-me para uma salinha minúscula, na proa do navio, onde já me esperavam o capitão e mais cinco homens, todos enfarpelados e com um semblante sisudo. Assim que entrei o capitão levantou-se e indicou-me um banco para eu me sentar. «É o banco dos réus?», perguntei-lhe eu num tom de gozo, «Deixe estar que eu fico mesmo de pé». O capitão franziu o sobrolho e toda a sua cara ficou vermelha de raiva, «Não ridicularize a autoridade. Nunca se sabe quando é que não precisamos da sua clemência...». «Está-me a ameaçar, capitão?», interpelei eu novamente, sobrevoando o olhar pelos restantes homens que ocupavam a sala, «Se me quiser matar, mate-me. Mas mate-me de uma vez por todas. Não tenho medo de homens como o senhor!». «Nem precisa de ter, porque antes de eu lhe espetar uma bala nessa cabeça, o senhor ainda vai dar uma grande ajuda a este barco!», retorquiu ele, soltando logo de seguida uma gargalhada estridente, à qual se juntaram os risos bajuladores dos outros cinco membros do conselho, «O tribunal deste navio decidiu condená-lo a dez anos de serviço a esta companhia e nessa altura, consoante o seu desempenho, logo se verá se será ou não necessário prolongar a pena. Tem alguma coisa a contestar?». Eu permaneci calado. Uma coisa que a vida nos ensina é que com os loucos não se argumenta. Diz-se-lhes que sim e depois arranja-se uma forma de dar a volta ao texto. Segundos depois a porta da sala abriu-se e levaram-me de volta para o porão. Só durante o caminho é que me dei conta do urgente que era delinear um plano para saltar fora. Concerteza que o barco já não ia aguentar muito tempo por aquelas paragens e se por acaso ele saía para o mar alto ia ter que aturar aquele capitão demente mais tempo do que o suportável. Por isso decidi que a fuga não passaria dessa noite. De volta ao porão, estive algumas horas a tentar libertar-me das amarras, até que descobri um espigão de ferro que saía de um caixote, que me facilitou bastante a tarefa. Depois aguardei pela madrugada para arrombar a escotilha do porão com um pé-de-cabra que encontrei num armário. Mas quando finalmente subi ao convés da traineira a sede de vingança não me deixou abandonar aquela embarcação sem mais nem menos. Muito calmamente e com um sangue frio que desconhecia possuir até ter ido para Ultramar, deslizei até à sala de máquinas e vasculhei-a de uma ponta à outra. Só parei quando finalmente encontrei o que queria: uma caixa de fósforos, dos grandes, para acender lareiras. Sem mais demoras, desatei a pegar fogo a tudo quanto me aparecia à frente, ao convés, às velas, ao tombadilho, aos botes de socorro e depois sentei-me na amurada na popa, a assistir ao declínio do capitão todo poderoso. A tripulação não demorou a aperceber-se do que se passava e rapidamente o pânico se alastrou a todos no navio. Uma embarcação que horas antes se orgulhava de ser dona da sua própria lei, esvaía-se assim em cinzas, vítima do seu autoritarismo e da sua prepotência. Foi com uma sensação de dó que minutos mais tarde vi os cinco conselheiros, um por um, serem acossados pelas chamas até terem que pular fora da traineira. Pouco depois, apareceu então o capitão Abilío Celestino, com uma cara consternada e com a roupa chamuscada pelas labaredas. Mal reparou em mim sentado na amurada, fulminou-me com os seus olhinhos de raposa velha e truculenta e tentou dizer-me qualquer coisa, mas a raiva era tanta que não conseguiu articular uma frase e apenas soltou um grunhido. «Eu tinha-o avisado, capitão. Homens como o senhor não me assustam», acicatei eu, fascinado com a capacidade que tinha de desconcertar aquele homem. Ele nem disse mais nada, simplesmente arregaçou as mangas do casaco e correu na minha direcção. Mas naquele momento eu atirei-me de costas ao rio e nunca mais o vi. Nadei até de madrugada. Quando cheguei a terra os destroços da traineira já tinham sido engolidos pela água e a única coisa que se ouvia no raio de uma milha eram os marinheiros da companhia do capitão Abílio a barafustarem uns com os outros e ocasionalmente o grasnido de uma gaivota. Sentia-me um farrapo. Durante a viagem até terra tinha-me prometido a mim mesmo que se sobrevivesse nunca mais faria mergulho. Porém, uma vez à beira-rio, percebi que o meu destino estava inalianavelmente ligado à água. Apesar da visita à traineira do capitão Abílio me trazer à memória um catálogo de sentimentos funestos, a verdade é que me acordou para os prazeres de ser pescador e deu um novo rumo à minha vida. Dias depois inscrevi-me numa companhia de pesca em Sesimbra, de espontânea vontade e teve início o período mais dourado da minha vida. Mas isso já é uma outra história.
Zé Manel, entretanto, encheu o copo com aguardente novamente até acima e preparava-se a engolir de um trago, quando a Sãozinha se aproximou da mesa e lhe pousou ternurentamente a mão no braço.

- Zé, já chega por hoje...
Ele levantou os olhos à altura da mulher, sorriu e depois voltou-se para nós, que o observávamos com um olhar maravilhado e disse:

- Tens razão. Já chega por hoje.

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