Once in a lifetime (epílogo)
Aqui há uns meses atrás estava a andar de carro sem destino e estava a passar na rádio o «Once in a lifetime» dos Talking Heads, um dos hinos dos anos oitenta e sem dúvida uma daquelas músicas que nos fica semanas no ouvido. Foi quando me ocorreu escrever esta história, que contrariamente ao que alguém já me disse não é uma autobiografia (até porque consideraria ridículo que alguém se atrevesse a escrever uma com apenas vinte anos), mas sim uma monografia psicológica, daquelas que se fazem aos assassinos em série na esperança de lhes traçar o perfil, de perceber o que os leva a matar. No meu caso a ambição é mais light (mas nem por isso menos poderosa): identificar as causas do meu trajecto psicológico, perceber porque é que toda a vida me senti impelido para a escrita e o porquê das crises de ansiedade quando passo semanas sem contar uma história. Procurei tirar o meu retrato a partir da personagem do Zé Manel, concentrando nele todas as minhas ânsias, os meus medos, os meus defeitos, mas também servindo-me dele para destacar algumas das qualidades que mais admiro num ser humano. O Zé Manel é o único personagem não autobiográfico, mas é curiosamente o personagem principal e a espinha dorsal desta história. Nele estão reunidas todas as pessoas que um dia cruzaram a minha vida e que contribuiram para aquilo em que me tornei. Todas as pessoas que me fascinaram com as suas experiências e que despertaram o meu espiríto criador. Talvez a única coisa que fique mais nas entrelinhas é a razão pela qual me tornei num escritor e não num contador de histórias como o Zé Manel, daqueles que se tornam interlocutores do mundo e que partilham as suas histórias à viva voz. A razão é simples e a história dá algumas pistas. Porque me falta a arte e o engenho. É por isso que ao longo da história, toda a minha familía olha embevecida para o protagonista enquanto ele fala. Porque lá no fundo todos o admiramos ainda mais, por sabermos que mesmo que quisessemos não seríamos capazes de conduzir aquela história com a sua arte e mestria. E foi a ausência desse talento e a necessidade de comunicar com o mundo, que me ajudaram a descobrir esta outra paixão, este outro veículo, que é a palavra escrita ou o pássaro de tinta permanente (como alguém lhe chamou em tempos).
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