quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Guernica (parte 1)

Santiago era segurança do Museu Grão Vasco há já 4 anos quando recebeu em sua casa uma carta dizendo apenas "O Museu vai fechar por falta de verbas. Está dispensado a partir de 2ª feira dia 31 de Janeiro. Lamento muito. Assinado: o Director".

"Olha!" foi o que pensou espantado. "Que chatice! Se calhar volto para Espanha." e ficou quase animado com a ideia de voltar ao seu país. A notícia do desemprego não o assustava. Tão pouco lhe provocava qualquer aperto no estômago. Mesmo assim não lhe agradava ter que mudar de museu de um momento para o outro. Santiago afeiçoava-se aos seus quadros como às mulheres. Era-lhes fiel e apaixonava-se por eles com facilidade. Ao ponto de lhe custar trocar de sala nas mudanças de turnos. Afligia-se quando o museu se enchia de pessoas que se amontoavam à volta dos quadros e os engoliam nos seus vultos, apontando com os dedos até quase tocarem as telas. Era como ver um filho afastar-se de si mais que 2 metros na Feira Popular e misturar-se com a multidão. Por isso não queria ir embora e deixar os seus quadros sozinhos. Achava injusto que lhe tirassem o seu museu. Sentia-se acima de tudo atraiçoado. Só depois se lembrou que ficara também sem o seu salário.

De resto a vida em Viseu nunca lhe agradara. Só Leonor. Apaixonara-se pelo seu rabo. Viu-a num dia em que o Museu estava vazio. Ignorou os seus turnos e perseguiu-a por todas as salas em que ela entrou. "Este rabo só pode ser espanhol!" pensava fanático enquanto a perseguia. Olhos fixos nas duas nádegas que baloiçavam muito firmes, uma para cima e outra para baixo, a acompanhar o peso do corpo sobre as ancas, em passos lentos mas muito pronunciados, entre um quadro e o outro. Depois parava, olhando-os de longe. De braços cruzados. O rabo espremido entre o tronco e a perna esquerda com os músculos todos contraídos, suportando o peso do corpo inteiro, enquanto a direita se estendia relaxada para a frente e para o lado. As costas curvadas para trás, pontiagudas nas omoplatas arqueando-se primeiro para dentro e depois para fora desenhavam-lhe por fim o rabo perfeitamente redondo e vincado abaixo do bolso das calças. E então ela inclinava-se para ler as placas com a informação de cada quadro e Santiago não sabia mais que fazer senão perseguir para sempre aquelas duas covinhas que surgiam no fundo das costas ligeiramente destapado, para onde quer que elas fossem. Até que elas lhe falassem. Foi o que fez.

- Desculpe. O que quer? - perguntou-lhe Leonor à soleira da porta de sua casa antes de entrar. - Porque me perseguiu desde o museu até aqui? Não tem que trabalhar? - Santiago continuava pasmado a olhar para ela. Todo o seu corpo estava pendurado: os braços, as mãos, a cabeça, a língua, o queixo, o walkie-talkie. Finalmente acordou.
- Ahm! É que... a senhora é espanhola não é?
- Sim... - Leonor não esperava esta pergunta. - Como sabe? Desculpe, mas o que quer afinal? - perguntou assertiva. Não sabia se devia estar mais assustada, porque a verdade é que apenas se sentia curiosa. - Porque é que diz isso?
- Pelo seu rabo. Ahm! Desculpe. Por favor... não devia ter saído assim atrás de si e tê-la perseguido. Desculpe... mas precisava de sabê-lo. Só isso. - Santiago reparava então que não era só o rabo que era perfeito em Leonor. Ela corou por cima da pele bronzeada e pôs-se de braços cruzados encarando-o como a um quadro. O cabelo era castanho e liso e escorria até aos ombros. O nariz pontiagudo, mas suficientemente pequeno para ser engraçado, estava sarapintado de sardas muito discretas quase da cor da pele. Tinha o sobrolho franzido e os olhos divertidos, decididos a avalia-lo.
- Costuma perseguir assim todos os rabos espanhóis que vê?
- Só o seu. - Santiago respondia sem pensar. E continuou. - Costuma ser perseguida por muitos perseguidores de rabos? - conseguiu manter a expressão da sua cara inalterada, mas por dentro espremia-se todo "porque é que lhe perguntei isto?". Ela apenas ameaçou sorrir e respondeu:
- Costumo. Mas nunca por um tão persistente. Deve ter encontrado algo de muito interessante no meu rabo.
- Gosta de quadros!
- Quem, o meu rabo?
- Sim! Quer dizer, não! A senhora é que gosta, mas foi o seu rabo que me disse tudo! Gosta de quadros como eu gosto. Demora-se e caminha e olha-os lentamente como eu os olho.
- Sou Leonor.
- Santiago. - ficou a olhar para ela sem dizer nada. Leonor também não abriu a boca mas olhava-o como quem espera que lhe digam mais qualquer coisa, ainda que não esteja disposta a esperar por muito mais tempo.
- Já jantou?
- Não.
- Quer ir jantar a qualquer lado?
- Não.
Santiago ficou sem ar.
- Tenho jantar feito.
Mais um compasso de espera e Santiago preparava-se já para se despedir num suspiro e pedir desculpas. Por muito que lhe custasse.
- Quer entrar?
- Quero!

Desde então que Santiago vivia com Leonor em Viseu na sua casa minúscula, onde nem chegaram a ter tempo para comer naquela primeira noite. Tinham-se passado 2 anos. Leonor estava farta de Viseu e queria voltar para Madrid desde que acabara o curso em Outubro. Agora também Santi podia voltar a Espanha.
Mudaram-se para Salamanca, em Madrid. Um bairro perto do centro, suficientemente barato para Santi conseguir pagar a renda até arranjar um novo museu, com novos quadros por que se apaixonar. A Leonor irritava-lhe viver no quinto andar sem elevador. Santiago dizia-lhe que assim o seu rabo ficava ainda mais hipnotizante, mas também lhe custava reprimir a dor que lhe sulcava rugas na testa, de cada vez que confundia o ranger do seu joelho direito com o dos degraus de madeira tosca debaixo dos seus pés.
Ao fim de 3 semanas, Santi arranjara uma entrevista no Museu Reina Sofia, para "Substituir um segurança que morreu de tédio!". Assim dissera Santiago a Leonor, deitado na cama com a barriga despida virada para cima, enquanto descansavam. Leonor estava de lado sobre o braço esquerdo de Santi, coberta pelo cabelo castanho macio que lhe tapava o pescoço até à covinha em U onde as clavículas se encontram.

- Como assim morreu de tédio?
- É preciso muita paciência e muitos bons rabos para não morrermos de tédio num... - mas não conseguiu acabar porque Leonor começara a trincar-lhe o pescoço. - A sério Li! Eu nunca teria ido trabalhar para museus se não se vissem tantos e tão bons rabos!
- A sério?! E continuas a persegui-los seu perverso?
- Nem todos. Ah! - trincara-lhe o pescoço ainda com mais força. - Arrisco-me a que me roubem um quadro sem eu lá estar. - disse a custo.
- No dia em que um quadro desaparecer da tua sala, desapareço também eu da tua casa. - e fingiu um amuo mimado.

No dia seguinte Santi entrou pela porta mais pequena do Reina Sofia, a que ficava nas traseiras, pintada de branco mas descascada aqui e ali até ao aço inox, pelo Sol seco e pelo calor infernal dos verões madrilenos. Estava nervoso mas não pelo emprego. Assustava-o acima de tudo conhecer os seus novos quadros. Sentia-se como um miúdo da primária se sente quando muda de turma ou de escola. Sofria o nervoso miudinho que lhe fazia comichão no estômago, como sofrera no primeiro dia do campo de férias da 4ª classe. Tinha as mãos frias de ansiedade. Seguiu pelos corredores de alcatifa verde e andou pelo menos 3 minutos, até chegar ao escritório onde seria entrevistado.

- Bom dia! Guillermo Franco, director de Recursos Humanos aqui no Sofia. - e deu-lhe um aperto de mão.
- Bom dia! Santiago Garcia.
- Já tomou café? - estendeu-lhe uma chávena sem ouvir a resposta e voltou a refastelar-se na cadeira atrás da sua secretária.
Mas então aquilo que parecia vir a ser uma entrevista como qualquer outra, transformou-se numa cena surrealista. Guillermo calou-se durante 2 minutos seguidos sem abrir a boca e olhou-o. Santi fez o mesmo. 2 minutos e nada se passou entre eles. Era como se a sala estivesse vazia. Só se mexia a poeira que pairava no ar e brilhava cintilante no rasgo de luz que entrava oblíquo pela janela. Só se ouviam as árvores agitarem-se com o vento e os raros carros que passavam nas traseiras do Sofia: um, dois, três carros e não mais. Depois os sapatos que batiam no chão da calçada lá fora. E então o silêncio. Guillermo piscava tranquilamente os olhos brilhantes e molhados, mas Santi não era capaz de os ver, porque o Sol na janela por trás de Guillermo inundava o seu vulto de escuridão, apenas brilhante nos seus contornos, como faz com a Lua em dias de Eclipse. E porque não era capaz de discernir nenhum dos trejeitos na cara do director de recursos humanos, Santi achou que o melhor que tinha a fazer era esperar que o outro tomasse a iniciativa. Foi então que Guillermo inspirou com mais fôlego e se inclinou sobre a sua secretária olhando Santiago nos olhos:
- Já vi que é paciente.
- Sim.
- Observador?
- Sim.
- Quantos carros passaram desde que aqui estamos?
- Três.
Guillermo calou-se por uns instantes apenas.
- Gosta de Dali?
- Sim.
- Picasso?
- Sim.
- Rothko?
- Sim.
- Yves Klein?
- Não.
- Miró?
- Sim.
- Bonard?
- Não faço ideia.
- O trabalho é seu.
- Obrigado. Quando?
- Agora. Sala 6-E. Pode pegar nisto, assinar aqui e subir apresentando-se na recepção para que lhe dêem o seu material. - disse-lhe enquanto lhe estendia o contrato de trabalho.
- Parabéns e boa sorte! - e assim levantaram-se os dois e saíram cada um para o seu lado no corredor.
Santiago estava agora ainda mais nervoso.

PCH

comentários:

PCH acho que deveria ler um pouco mais (não apenas os livros cliché que toda a gente se gaba de ter lido) visto a sua escrita ser muito pobre! secalhar pedir aos paizinhos um dicionario tambem nao lhe fazia mal nenhum...