Taxi Driver
1
Adriano olhou pelo canto do olho para o relógio no tablier do táxi e, depois de um segundo a meditar, encheu o peito de ar e soltou um longo suspiro. Eram quatro e um quarto da manhã. Ainda lhe restavam umas boas três horas de condução pela frente, o que, numa noite bem conseguida, equivaleria a transportar uns quatro ou cinco clientes. Normalmente eram miúdos a cair de bêbados, que batiam com a porta com uma força desmedida e que nem a morada conseguiam soletrar. Se bem que pelos estofos de pele do seu Mercedes-Benz passavam diariamente todo o tipo de pessoas. Desde prostitutas com os vestidos amassados e a maquilhagem borratada, a regressarem de casa de um cliente; até homens de negócios, todos aperaltados e cheios de pressa para apanhar um avião. Em vinte anos de profissão Adriano nunca se recusara a transportar ninguém e só por uma vez se vira obrigado a expulsar um homem por conduta imprópria. Este era, aliás, um dos seus grandes orgulhos e volta e meia confessava-o a um cliente mais conversador, com um brilho nos olhos, como quem ergue um troféu.
Atravessou a rua D. Carlos I a oitenta à hora. O carro avançava aos soluços pelo chão de calçada e estremecia freneticamente, dando a sensação de se estar a desintegrar. «Já estava na hora de alcatroarem esta merda», resmoneou ele, cansado dos solavancos, enquanto passava a mão direita pela cara pálida e descarnada. Percorreu a rua até ao cimo e no cruzamento queimou um vermelho e virou à esquerda, na direcção da Estrela. Na rádio passavam os Police, com a música Roxanne. A voz rouca e inebriante do Sting não tardou a encher o carro, como um gás venenoso que mexe com o humor, e assim que ele bradou «You don’t have to sell your body to the night», um estranho sentimento de comiseração veio alojar-se entre os pulmões do taxista, junto à traqueia, dando-lhe a impressão de ter um nó na garganta. Adriano mudou rapidamente de estação e esmagou o acelerador com o pé. A comiseração era um sentimento que pessoalmente abominava, nenhum ser humano deveria ter a ousadia de sentir pena, porque o simples acto de sentir pena é um acto de soberba, de sobreposição de um indivíduo face a outro, um ataque à própria condição humana. Também ele, à sua maneira, vendia o corpo à noite e perturbava-o sequer imaginar que houvesse alguém no mundo que tivesse pena de si.
Estava imerso nestes pensamentos, quando a basílica da Estrela começou lentamente a erguer-se ao final da rua, envolta numa luz branca que transbordava melancolia e que lhe emprestava um ar ainda mais místico e sombrio. Adriano desacelerou. Uma das grandes vantagens de ser motorista nocturno era poder observar a cidade no seu estado de maior vulnerabilidade, totalmente exposta e desarmada, pois era nessa altura que a cidade se revelava, que os monumentos exibiam toda a sua grandiosidade, que as vozes dos poetas ecoavam pelas ruas, ressuscitadas pela memória, que as praças se despiam das pessoas e ficavam entregues ao barulho da água a correr nas fontes. E enquanto rolava calmamente na direcção da basílica, apercebeu-se do previlégio que tinha em conhecer aquela cidade como poucos e, por momentos, sentiu um grande orgulho na sua profissão. Mas como homem sério e realista que era, não tardou a enxotar os sentimentalismos e a concentrar-se no trabalho.
Poucos segundos depois passou em frente ao jardim da Estrela. Foi quando se lembrou de consultar novamente o relógio no tablier do táxi. À medida que a noite avançava, Adriano tornava-se sucessivamente mais obstinado com as horas e sondava inúmeras vezes o relógio, como uma criança que repete impacientemente o ritual de contar as páginas que lhe faltam para acabar um livro. Ainda não eram quatro e vinte. Voltou a sentir uma opressão no peito, mas desta vez conteve o suspiro, numa clara tentativa de desafiar os seus mecanismos biológicos. Não havia ninguém nas imediações da Estrela, por isso continuou para a avenida Infante Santo. O importante era não desanimar.
As últimas horas eram as mais dolorosas. Dentro em breve o sol apareceria, os pombos inundariam as linhas do eléctrico e a cidade começaria a fervilhar um pouco por todo o lado. Adriano nutria um ódio muito especial pelos pombos. Nos primeiros tempos de motorista nem dava por eles, como se não passassem de uma particularidade estética da capital, uma espécie de sinal na bochecha ou de cicatriz no pescoço. Porém, com os anos, o atrevimento dos bichos não lhe escapou despercebido. Havia vezes em que lhe passavam um vôo rasante e quase desencadeavam um despiste, outras cagavam-lhe o vidro acabado de lavar, como se estivessem à espreita do momento em que poderiam causar maior estrago, e, de tempos em tempos, escondiam-se debaixo do carro durante semanas e minavam-lhe os circuitos todos do Mercedes-Benz. Mas o que mais o irritava nos pássaros era mesmo a liberdade. Numa das suas muitas noites de expediente chegara à conclusão que nenhum ser vivo devia ter direito a ser tão livre. Era injusto para todos os outros. E, desde então, olhava para os pombos com um revigorado sentimento de raiva e não experimentava a menor tristeza quando por acaso atropelava um com o seu Mercedes.
Os segundos semáforos da Infante Santo estavam vermelhos. Adriano parou o táxi e apertou a caixa de velocidades com um movimento tenso. Sentia-se desconfortável parado à noite em Lisboa. Enquanto o sinal não mudava, vinham-lhe à memória todas as histórias macabras que lhe tinham chegado aos ouvidos na sua longa carreira de motorista e um medo corrosivo escorria-lhe pela espinha e acelerava-lhe os batimentos cardíacos. Assim que o sinal dos peões ficou vermelho, Adriano meteu primeira e preparou-se animicamente para arrancar. Mas, nesse exacto momento, ouviu um estalido e a porta do lado direito abriu-se.
- Boa noite. Está de serviço? – interrogou um homem alto e de feições bonitas, enfiando a cabeça dentro do carro.
- Sim, sim... Claro... Sente-se... – gaguejou o Adriano, com um sorriso amarelo e os músculos petrificados de susto – E para onde é que vai ser?
O homem sentou-se no lugar do morto e depois de um segundo de hesitação murmurou:
- Para lugar nenhum em especial. Leve-me para onde quiser, que a mim o que me apetece é andar de carro.
Adriano olhou fixamente para o passageiro e sentiu um aperto no coração. Era um homem elegante, mas assustadoramente sombrio. Tinha um olhar turvado e distante, que vagueava apaticamente de um lado para o outro, como se as coisas deste mundo nada lhe dissessem. Adriano arrependeu-se de o ter deixado entrar e teve vontade de lhe pedir que saísse. Mas o seu lado mais ponderado não demorou a desconsiderar essa hipótese. «Tens uma reputação a manter», pensou ele para dentro, «Vais ver que não passa de um cliente como todos os outros». Porém, assim que meteu primeira e arrancou, o homem pediu-lhe numa voz taciturna que desligasse o rádio e Adriano teve a certeza que aquele não era um cliente como os outros e que aquela viagem, de uma maneira ou de outra, lhe havia de ficar gravada na memória durante muito tempo. BGL
Atravessou a rua D. Carlos I a oitenta à hora. O carro avançava aos soluços pelo chão de calçada e estremecia freneticamente, dando a sensação de se estar a desintegrar. «Já estava na hora de alcatroarem esta merda», resmoneou ele, cansado dos solavancos, enquanto passava a mão direita pela cara pálida e descarnada. Percorreu a rua até ao cimo e no cruzamento queimou um vermelho e virou à esquerda, na direcção da Estrela. Na rádio passavam os Police, com a música Roxanne. A voz rouca e inebriante do Sting não tardou a encher o carro, como um gás venenoso que mexe com o humor, e assim que ele bradou «You don’t have to sell your body to the night», um estranho sentimento de comiseração veio alojar-se entre os pulmões do taxista, junto à traqueia, dando-lhe a impressão de ter um nó na garganta. Adriano mudou rapidamente de estação e esmagou o acelerador com o pé. A comiseração era um sentimento que pessoalmente abominava, nenhum ser humano deveria ter a ousadia de sentir pena, porque o simples acto de sentir pena é um acto de soberba, de sobreposição de um indivíduo face a outro, um ataque à própria condição humana. Também ele, à sua maneira, vendia o corpo à noite e perturbava-o sequer imaginar que houvesse alguém no mundo que tivesse pena de si.
Estava imerso nestes pensamentos, quando a basílica da Estrela começou lentamente a erguer-se ao final da rua, envolta numa luz branca que transbordava melancolia e que lhe emprestava um ar ainda mais místico e sombrio. Adriano desacelerou. Uma das grandes vantagens de ser motorista nocturno era poder observar a cidade no seu estado de maior vulnerabilidade, totalmente exposta e desarmada, pois era nessa altura que a cidade se revelava, que os monumentos exibiam toda a sua grandiosidade, que as vozes dos poetas ecoavam pelas ruas, ressuscitadas pela memória, que as praças se despiam das pessoas e ficavam entregues ao barulho da água a correr nas fontes. E enquanto rolava calmamente na direcção da basílica, apercebeu-se do previlégio que tinha em conhecer aquela cidade como poucos e, por momentos, sentiu um grande orgulho na sua profissão. Mas como homem sério e realista que era, não tardou a enxotar os sentimentalismos e a concentrar-se no trabalho.
Poucos segundos depois passou em frente ao jardim da Estrela. Foi quando se lembrou de consultar novamente o relógio no tablier do táxi. À medida que a noite avançava, Adriano tornava-se sucessivamente mais obstinado com as horas e sondava inúmeras vezes o relógio, como uma criança que repete impacientemente o ritual de contar as páginas que lhe faltam para acabar um livro. Ainda não eram quatro e vinte. Voltou a sentir uma opressão no peito, mas desta vez conteve o suspiro, numa clara tentativa de desafiar os seus mecanismos biológicos. Não havia ninguém nas imediações da Estrela, por isso continuou para a avenida Infante Santo. O importante era não desanimar.
As últimas horas eram as mais dolorosas. Dentro em breve o sol apareceria, os pombos inundariam as linhas do eléctrico e a cidade começaria a fervilhar um pouco por todo o lado. Adriano nutria um ódio muito especial pelos pombos. Nos primeiros tempos de motorista nem dava por eles, como se não passassem de uma particularidade estética da capital, uma espécie de sinal na bochecha ou de cicatriz no pescoço. Porém, com os anos, o atrevimento dos bichos não lhe escapou despercebido. Havia vezes em que lhe passavam um vôo rasante e quase desencadeavam um despiste, outras cagavam-lhe o vidro acabado de lavar, como se estivessem à espreita do momento em que poderiam causar maior estrago, e, de tempos em tempos, escondiam-se debaixo do carro durante semanas e minavam-lhe os circuitos todos do Mercedes-Benz. Mas o que mais o irritava nos pássaros era mesmo a liberdade. Numa das suas muitas noites de expediente chegara à conclusão que nenhum ser vivo devia ter direito a ser tão livre. Era injusto para todos os outros. E, desde então, olhava para os pombos com um revigorado sentimento de raiva e não experimentava a menor tristeza quando por acaso atropelava um com o seu Mercedes.
Os segundos semáforos da Infante Santo estavam vermelhos. Adriano parou o táxi e apertou a caixa de velocidades com um movimento tenso. Sentia-se desconfortável parado à noite em Lisboa. Enquanto o sinal não mudava, vinham-lhe à memória todas as histórias macabras que lhe tinham chegado aos ouvidos na sua longa carreira de motorista e um medo corrosivo escorria-lhe pela espinha e acelerava-lhe os batimentos cardíacos. Assim que o sinal dos peões ficou vermelho, Adriano meteu primeira e preparou-se animicamente para arrancar. Mas, nesse exacto momento, ouviu um estalido e a porta do lado direito abriu-se.
- Boa noite. Está de serviço? – interrogou um homem alto e de feições bonitas, enfiando a cabeça dentro do carro.
- Sim, sim... Claro... Sente-se... – gaguejou o Adriano, com um sorriso amarelo e os músculos petrificados de susto – E para onde é que vai ser?
O homem sentou-se no lugar do morto e depois de um segundo de hesitação murmurou:
- Para lugar nenhum em especial. Leve-me para onde quiser, que a mim o que me apetece é andar de carro.
Adriano olhou fixamente para o passageiro e sentiu um aperto no coração. Era um homem elegante, mas assustadoramente sombrio. Tinha um olhar turvado e distante, que vagueava apaticamente de um lado para o outro, como se as coisas deste mundo nada lhe dissessem. Adriano arrependeu-se de o ter deixado entrar e teve vontade de lhe pedir que saísse. Mas o seu lado mais ponderado não demorou a desconsiderar essa hipótese. «Tens uma reputação a manter», pensou ele para dentro, «Vais ver que não passa de um cliente como todos os outros». Porém, assim que meteu primeira e arrancou, o homem pediu-lhe numa voz taciturna que desligasse o rádio e Adriano teve a certeza que aquele não era um cliente como os outros e que aquela viagem, de uma maneira ou de outra, lhe havia de ficar gravada na memória durante muito tempo. BGL
comentários:
20 de março de 2008 às 06:52
Estas a espera do que para dar perninhas a essa historia? hein? essa personagem sombria, de feiçoes bonitas deixou me aliciado agr toca a acagaçar o Adriano ;)
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