terça-feira, 27 de novembro de 2007

Once in a lifetime (parte 3)

Zé Manel fez uma pausa para aclarar a voz e aproveitou para encher com aguardente os três copos que brilhavam no tampo da mesa. A minha mãe ainda lhe sussurrou que não era grande adepta de digestivos, mas ele fez de conta que não a ouviu e encheu-lhe o copo até bem acima.

- Eu não era diferente do resto dos portugueses – prosseguiu ele. – Naquela época, não fazia a menor ideia do que era melhor para mim, nem do que queria para a minha vida. Sentia-me perdido. Volta e meia ainda acordava sobressaltado a meio da noite com o som imaginário das espingardas e dava por mim a contorcer-me na cama quando me vinham à cabeça as caras dos homens que matei e o rasto de carnificina que os rebeldes deixavam ao passarem pelas senzalas. Angola tinha-me marcado profundamente. Viver um dia de cada vez, sempre no fio da navalha, enterrar todos os sonhos e começar a matar pretos de um dia para o outro só porque alguém nos diz que é isso que temos que fazer, não porque queremos, nem porque é nossa convicção, mas porque alguém nos diz, tudo isso me traumatizou. Pelo que quando voltei uma parte de mim não conseguiu regressar à civilização. Não voltei a frequentar os mesmos circuitos. Desliguei-me da familia. E passei a viver ao deus de ará, como os candongueiros do Uíge, das negociatas que desencatava entre a feira da ladra e o mercado da ribeira. Além disso resolvi conservar o hábito de mergulhar em apneia aos domingos, que me tinha ajudado a preservar a sanidade mental ao longo de todo o tempo que estive na guerra. O mergulho tornou-se no meu laço sentimental com o ultramar, no meu ritual de purificação. Foi assim durante meses. E eu não podia estar mais feliz com a minha resolução. Até àquele maldito domingo em que fui pescado.

- Mas os homens podem ser pescados? – interrogou o meu irmão Salvador, numa voz vibrante, de cana rachada, empoleirando-se na mesa para ficar mais próximo do protagonista.

- Eu quando tinha a tua idade também achava que não. Mas a vida é uma caixa de surpresas – murmurou o Zé Manel, despejando, no entretanto, o copo de aguardente pela garganta abaixo. – Ser pescado foi uma experiência horrível. Tinha entrado na água há pouco menos de vinte minutos e a descontracção era total. O meu coração batia a um ritmo lento e espaçado e por vezes dava mesmo a impressão de ter adormecido. A certa altura senti um formigueiro nos pés. Olhei para baixo e percebi que as minhas barbatanas estavam a ser violentamente atropeladas por um bando de sardinhas em fuga. Mas nem me passou pela cabeça que isso pudesse indiciar algum perigo. Dei duas braçadas e preparava-me para contornar um cardume de douradas que estavam estacionadas de boca aberta uns dez metros mais acima, quando senti um turbilhão de água dirigir-se na minha direcção e perdi o domínio dos acontecimentos. A vida não nos prepara para um susto daqueles. Fui arrastado durante centenas de metros, numa rede de nylon de malha estreita, esmagado por dez qualidades de peixes diferentes. Ainda hoje não percebo como é que sobrevivi, como é que o meu peito não sucumbiu à pressão dos peixes e da água, à medida que a rede era sugada de volta para a traineira do capitão Abílio Celestino. Quando soltaram a rede no convés do barco, fugiu-me uma gargalhada histérica e maquinalmente abracei-me com as poucas forças que me restavam. Estava eufórico. Lá no fundo eu sabia que me tinha escapado de boa. Quantos é que por bem menos não são levados pelo mar? Porém, não foram precisos nem dez minutos para perceber que os meus problemas tinham acabado de começar e que ainda ia ter que suar muito para me colocar a salvo e para me poder considerar um homem de sorte.

- Porquê? – interveio o meu irmão, já completamente debruçado sobre o Zé Manel e com os olhinhos a resplandecerem de curiosidade.

- Não interrompas, Salvador – chamou à atenção a minha mãe, que com o passar do tempo se tinha rendido aos dotes de narrador do Zé Manel.

Eu e o meu pai continuávamos do mesmo lado da barricada, em silêncio, a acompanhar o desfolhar dos acontecimentos. O meu pai volta e meia levava paulatinamente o copo à boca e bebericava a aguardente como um verdadeiro apreciador. Já eu, apesar de não estar tão participativo como o meu irmão, não parava quieto um segundo. Parece que me estou a ver, à luz do tempo, a balançar-me naquelas cadeiras da «Antiga Casa Marítima», irrequieto que nem uma enguia, enquanto a Sãozinha espreitava do outro lado do balcão, orgulhosa do seu marido e do talento que ele tinha para encantar crianças e adultos com as suas histórias mirabolantes. Hoje restam-me poucas dúvidas. Foi ali, naquele momento, que no meu subconsciente involuntariamente despontou a certeza que um dia mais tarde eu me havia de tornar num contador de histórias como o Zé Manel. Já várias vezes me interroguei o que seria de mim se a minha mãe há quinze anos atrás não me tivesse levado a mim e ao meu irmão a visitar o escritório do meu pai do outro lado da banda. Onde estaria eu hoje? Seria um homem feliz?

BGL

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