domingo, 11 de novembro de 2007

O dia em que me podia ter despedido sem sequer me conhecer

Tenho 1 ano.
Estou sentado numa cadeirinha de automóvel a ver as luzes amarelas dos candeeiros passar pela janela. Oiço em surdina a conversa dos meus pais lá à frente. Como chove, tenho a cara sarapintada de sardas de sombra cinzenta, que viajam pelas minhas bochechas e orelhas e nariz à velocidade com que vejo as luzes passar. Ao meu lado está a minha irmã. Brigámos há pouco mais de 20 minutos, porque ela me queria ajeitar os lençóis até ao pescoço, mas eu preferia espernear-me e esbracejar-me, revoltado por ter de estar ali preso. Guinchei e ela guinchou. Dei-lhe uns safanões de punho fechado enquanto ela procurava, com a mão espremida entre o meu rabo e a cadeirinha, a chucha que eu cuspiria no meio da birra. A luta tornou-se ainda mais violenta quando lhe agarrei o nariz com as duas mãos e o espremi como se fosse uma borbulha. Lancei um berro como se fosse ela que me espremesse a mim o nariz e aconteceu o que eu esperava.

- Pára Catarina! - Calei-me imediatamente.
- Mas eu 'tava-lhe a dar a chucha!
- Não interessa, senta-te direita no teu lugar e deixa o Pedro em paz.
- Mas eu não fiz nada mãe! Ele é que começou! - Comecei de novo a chorar para alimentar a discussão. Nascera assim, com este feitio traiçoeiro.
- Cala-te Catarina! Senta-te no teu lugar já te disse. - E eu berrei mais alto nos intervalos do ralhete.

Debruçada por cima do banco do passageiro, a minha mãe pega na Catarina e empurra-a com força para o lado da porta direita do carro. Deixa-a incrédula e expectante, de braços acintosamente cruzados, olhos muito condensados e a boca sem saber que expressão interpretar.

- Eu disse-te para parares e tu páras!
- Mas foi ele! Ele é que guinchou e me bateu! Foi ele mãe! - Começa a chorar aflita e ansiosa por que a mãe acredite nela. - Mãeee!- ... - Má!, a mãe é má! - E não falou mais.

As duas mãos fortes pegaram então em mim e em três sacudidelas a cadeirinha transformou-se no lugar mais confortável do mundo. Do choro passei lentamente ao ronronar aconchegado e com a chucha na boca virei a cara para o lado e para cima. Começou então a chover.
Os grandes diziam que tinham inveja de mim, porque eu ainda tinha tempo para tudo na vida. E depois cuspiam-se e babavam-se de ciúme. Encharcavam-me com mimos de saliva que eu não pedira e eu ficava impacientemente nervoso à espera que me largassem de vez. Pegavam em mim e punham-me em frente das suas caras, contorcidas pelos grunhidos típicos de quem entretém um bebé, comigo pendurado pelas axilas nas mãos de pele chupada que parecia feita de lona já ruça e áspera. Às vezes, eu espremia o corpo todo com muita força, da ponta da cabeça até ao corno do coxis, como fazemos com os tubos de pasta de dentes, e cagava-lhes o colo todo satisfeito e aliviado, como quem junta o útil ao agradável.

- Eh óh miúdo!, já me cagaste todo! - refilavam meio espantados e depois chamavam a minha mãe e o pó de talco.

Espreitei a minha irmã pelo canto do olho. Já estava tudo bem. Dormia agora com a cabeça e o cabelo sobre os braços cruzados no assento do banco. Costumava dormir sempre assim, com o corpo todo enfiado onde deviam estar os pés e as pernas. Na altura eu achava que era assim, porque a mãe não lhe tinha dado uma cadeirinha como a mim.

De repente senti o carro perder as forças debaixo do meu rabo quando o meu pai largou o acelerador. Olhei para a minha mãe e vi como de repente ela se calou e abriu a boca ao mesmo tempo, cheia de assombro. Num só movimento premiu os pés contra o tapete do carro e esticou as pernas quanto pôde, afundou-se nas costas do banco, agarrou-se ao assento de lona enrugada debaixo das suas mãos suplicantes com os braços todos esticados ao longo do corpo e encheu o peito com todo o ar que tinha na barriga. Depois dobrou-se toda e encolheu-se para o seu lado direito com os braços e as mãos em cruz a esconder a cara.

O vidro da frente começou por se estilhaçar. Depois dobrou-se o aço todo do tecto e das portas, em arestas afiadas e partidas ou dobradas em harmónio. O tablier inchou muito, como duas bochechas cheias de ar, e vomitou tudo o que tinha dentro até se verem partes do motor. À minha frente vi o meu pai saltar para o lado esquerdo do seu banco como fizera a minha mãe. E depois foi o banco dele que dançou no seu lugar e se espremeu debaixo do tecto, que se aproximava cada vez mais da minha cabeça. A minha janela cheia de sardas partiu-se também, como o açúcar queimado do leite creme, e a porta foi toda amachucada como uma folha de papel. Eu tinha sido projectado contra os cintos de segurança da cadeirinha que se dobrava toda debaixo de mim. O buraco onde dormia a minha irmã comprimiu-se e fechou-se todo e cuspiu-a para o banco.
Depois veio o sangue. Apareceu de repente a pairar no ar em gotas, umas soltas outras todas juntas, formando uma poça flutuante de onde se escapuliam ainda mais gotas a perder de vista. Depois caiu num Splash! e pintalgou-nos a todos e ao carro também. Com o sangue entrou uma enorme roda de camião pelo vidro da frente e ali ficou suspensa entre o meu pai e a minha mãe. Um pneu gigante no meio dum monte de aço, plástico, estilhaços e sangue.

O Renault 19 do meu pai está dois terços metido debaixo de um camião enorme no sítio onde este guarda pendurada a sua roda sobressalente. Está atravessado no meio da estrada e corta o trânsito dos dois lados. As pessoas aproximam-se todas do local devagarinho e caladas, depois violentas e revoltadas, gritando "Assassino!" e batendo na chapa da camioneta.
Lá dentro estamos só nós os quatro, em família, entalados no aço. Tenho a fralda cheia de cocó e tremo de medo pois não faço ideia do que aconteceu. E por isso não choro nem grito nem me mexo e espero só que alguém grande e adulto me indique como nos devemos comportar numa situação como esta. A Catarina parece ter acordado com o acidente. Tem cara de quem está um bocadinho aborrecida com isto de termos parado a meio da autoestrada assim tão de repente e pede à mãe o Snoopy de peluche. Quase que fica zangada com a impassividade da minha mãe que só lhe pergunta se está bem e volta a deburçar-se sobre o banco para dormir.

Dizem sempre que é nestes momentos em que pensamos morrer que nos lembramos dos melhores momentos da nossa vida. Hoje não me lembro do que me lembrei na altura, porque não me lembro sequer desse dia. Apenas sei que podia ter nascido e morrido e não chegar a ter tempo de me lembrar do que quer que fosse. Que significaria uma vida dessas?

PCH

3 comentários:

não sabia que tinha um primo escritor... fiquei a saber... Com aplicação e dedicação podes seguir o caminho do grande, o único, "o" escritor português, Eça. Espero que sim, e espero receber um exemplar de cada obra que publiques, porque isto de ser primo tem que ter as suas vantangens! =)E espero que a Economia não atrapalhe, porque Constâncios há muitos, Eças nem por isso! Grande Abraço

agora já sei como consultar o teu blog e por isso vou de vez em quando manifestar a minha opinião de mãe
Bjs
Mae

meu filho estou à espera que comeces a tua caminhada para poder dialogar um pouco mais, espero que desta vez consigas ler as palavrinhas da tua mãe