Foi no primeiro dia em Yangshuo (na provincia de Guilin) que conhecemos dois traficantes de droga colombianos dentro do barquinho para turistas em que subimos, a custo, um bocado do rio Li. Os primeiros ocidentais com quem falamos na China. Juan e Sergio sao primos direitos em jeito de Bucha e Estica. Vivem em Bogota onde cada um estuda a sua coisa. Juan, o Bucha, viveu em Pequim durante um ano e decidiu voltar este verao para aperfeicoar o seu Mandarim. Sergio, o Estica, pediu dinheiro aos pais e veio passear com o primo pela China, ate estacionar com ele em Beijing e ai iniciar tambem um mes de curso intensivo de Mandarim. O ingles do Juan era barbudo e americano. Meteu conversa comigo, porque me julgava russo. Foi entao que ele percebeu que afinal eu era portugues e que russo talvez soe um pouco a minha lingua. Foi tambem nessa altura que eu entendi que eles afinal nao eram traficantes de droga.
Enquanto conversavamos com Juan e Sergio fomos descobrindo porque e que Guilin esta estampada em todas as notas de 20 yuans deste pais. As nossas cabecas viajavam a altura da linha de agua, de pescocos pendurados e olhos brilhantes. A Joana e o Jay tentavam por todos os meios enfiar aquilo que viam dentro das suas maquinas fotograficas: a tarefa e tao complicada como engolir uma panela de sopa de um so trago ou comer um bolo de arroz em menos de 30 segundos.
Guilin nao cabe em fotografias. Nao cabe em palavras. Tenho a certeza que nao cabe numa vida inteira de sobe-e-desce's daquele rio morno e parado, ao leme dum monte de ferrugem.
Guilin e mais ou menos como um desenho de uma crianca que decide pintar montanhas.
Num traco desajeitado mas continuo comeca por desenhar um risco corcunda e vertiginoso, arredondado no topo. Depois desenha outro mais a direita que pretende ser da mesma forma mas lhe sai diferente. Mais bicudo la em cima, mas em jeito de furunculo da planicie la em baixo como o primeiro. Desenha mais uns tantos ao lado uns dos outros e depois preenche os espacos por detras da primeira linha de montanhas com mais picos acerados a perder de vista, todos eles diferentes uns dos outros.
O desenho parece improvavel e infantil. Mas afinal nao e. Aquilo que se afigura ingenuo transforma-se em realidade e e tao verdadeiro que custa a acreditar no que vemos. A origem geologica perde o sentido na composicao: nao nos interessa se foi a agua que cavou buracos na montanha e criou planicies cheias de pinaculos ou se foi o Diabo que apontou os cornos a Deus por debaixo da terra. Nao queremos saber se o que vemos e calcario ou barro moldado por maos de gigantes. Nao nos interessa nada disso. Seja por que motivo for, Guilin e improvavel e espectacular.
As formas assemelham-se a tudo o que ha neste mundo. Sao elegantes, cheias de curvas suaves mas vertiginosas. Nao sao brutas, pontiagudas e frias como as montanhas a que estamos habituados. Ao leme do barco, o velho chines de chapeu piramidal na cabeca grita em voz estridente quando passamos pela montanha dos nove cavalos, pela montanha da aguia, pela montanha do veu de noiva: ha montanhas para todos os gostos. Basta contemplar que as formas aparecem. As montanhas tem tanta personalidade que dar-lhes nomes e conversar com elas faz mais sentido.
A borda de agua, como rodape perfeito daqueles picos cheios de elegancia, surgem arvores enormes cujas copas esplodem para o ceu como fogo de artificio. Todas verdes. Sem flor. So o verde da vegetacao, o branco da rocha, o cinzento do ceu e o castanho do rio Li. Tudo parado numa fotografia perfeita, lavada pela chuva que persiste.
Aportamos num ilheu no meio do rio Li. Velhinhas de cocoras cozinham petiscos em espetadas, protegidas da chuva miudinha por chapeus de chuva demasiado amarelos e infantis. Nao e uma posicao obvia e demorei algum tempo ate me conseguir equilibrar, mas nao ha chines que nao se ajeite desta forma pelo menos uma vez por dia: palmas dos pes completamente assentes no chao, jelhos dobrados e rabo entre as pernas a rocar o solo. Parecem criancas a brincar a borda de agua na praia. E assim que fumam cigarros, que conversam entre amigos na pausa para o almoco, que jogam madjong ou que jogam as cartas, que cagam nos buracos de ceramica embutidos nos chaos das casas de banho. Foi num dia de especial aperto que me iniciei nesta posicao. Desde entao que assim me ponho ao parapeito da janela e gozo o meu marasmo matinal de cachimbo na boca e Sol amarelo a ameacar-se la ao fundo.
Ou pelo menos e assim que me sinto quando acordo aqui em Yangshuo.
O dia foi calmo e grandioso ao mesmo tempo.
Guilin e inesquecivel. Podia ali viver uma vida e continuar fascinado com a vista do meu quarto de hotel. A noite fomos a procura duma cobra para o Jay comer com os colombianos. Acabamos todos a empurrar noodles fritos com pausinhos pela goela adentro. O dia a seguir seria ainda melhor.