Yide Xilu, Qingpin Market, Shamian Island: No Coracao da Cidade
Depois de uma noite mais calma, em que nos ficamos por um passeio ao ar livre pelas imponentes avenidas do distrito de Tianhe e em que acabamos o dia na sala do nosso apartamento a beber umas Tsing Taos, levantamo-nos bem cedo, com o objectivo ambicioso de palmilhar o centro da cidade de uma ponta a outra. Apanhamos o metro ate a paragem mais proxima da rua Datong Lu, onde ficava o restaurante que Li Sheung Li nos tinha aconselhado no dia anterior. A saida do metro as indicacoes estavam todas em caracteres e por isso vimo-nos mais uma vez forcados a entregar o nosso destino na mao de um chines voluntarioso. Abordamos duas senhoras na casa dos trinta, bem arranjadas e com cara de maes responsaveis, que nao hesitaram em nos ajudar e que nao demoraram a colocar o nosso problema no topo das suas prioridades. Estiveram pelo menos cinco minutos em frente a um mapa da cidade a discutir eloquentemente uma com a outra qual o melhor caminho para chegar a rua Datong Lu. O Pedro ja se passeava de um lado para o outro a bufar, enquanto resmungava: "Porra, so quero que elas me digam um caminho. Se for um bocado maior estou-me a cagar. Nao quero e ficar aqui a manha toda...". Quando as duas acabaram finalmente de conferenciar, voltaram-se para nos e murmuraram quase em unissono: "Follow us, we take you there!".
Guiaram-nos ate a rua Yide Xilu, que desembocava na rua Datong Lu, e despediram-se de nos com um sorriso pronunciado nos labios, com o sentimento de dever cumprido. A rua Yide Xilu era uma rua tradicional chinesa, comprida, povoada de lojas de um lado e do outro, atravessada por ruas estreitas, que pareciam nao levar a lado algum e onde volta e meia era possivel ver uma mesa de bambu rodeada de cabecas onde chineses descalcos jogavam a dinheiro. A rua acolhia um bairro tipico, onde se cruzavam a toda a hora bicicletas carregadas de sacos e motoretas com atrelados, que se preparavam para abastecer os mercados nas redondezas. Depois de alguns minutos de passeio, la demos com o restaurante que nos tinha sido aconselhado pela Li Sheung Li, num edificio imponente, com tres grandes caracteres gravados por cima da porta. Assim que entramos fomos recebidos por quatro chinesas vestidas a rigor, que nos conduziram ate uma sala no segundo piso. A seguir seguiu-se um almoco requintado, com direito a pato lacado para os quatro, peito de frango caramelizado e camaroes fritos em malaguetas. O almoco teve os habituais desafios: comunicar com empregados que apenas falam um ingles arranhado, manejar os pauzinhos, etc, mas sao tambem estas pequenas contrariedades que tornam esta viagem numa experiencia tao forte!
A seguir ao almoco dirigimo-nos ate Shamian Island, uma ilha a deriva no centro de Guangzhou, onde e possivel respirar ar fresco e esquecer por momentos a agitacao que vibra la fora, no meio da cidade. Ate chegarmos a Shamian Island ainda passamos pelo Qingpin Market, um dos mercados mais conhecidos da cidade e que impressiona acima de tudo pela falta de higiene. Percorremos o mercado durante alguns minutos e era dificil acreditar naquilo que viamos. Comida empilhada como caixotes, rodeada de moscas e que libertava um cheiro intenso e nauseabundo. Alguns vendedores dormiam ferrados em cima das bancadas ou de barriga para o ar, estirados em bancos de pano. O comercio deste lado do globo tem dois ritmos. Ou e frenetico e as pessoas parecem desesperadas para vender o que quer que seja ou e dominado por uma apatia deprimente, como se por vezes a populacao se deixasse resignar perante a miseria. A visita a Shamian Island acabou por ser um dos pontos altos da nossa tarde, pois foi uma lufada de ar fresco e uma oportunidade de descansar os olhos fustigados pelo ritmo alucinante da cidade. Passeamos calmamente pela ilha, vimos criancas a jogarem badmington na rua, noivas a cumprirem o ritual de tirar uma fotografia antes do casamento, vimos pessoas mais velhas a passearem pelo centro da ilha, como se vivessem a margem do monstro que os cercava. Nessa tarde ainda fomos visitar o pagode das Six Banyan Trees e andamos a procura de uma padaria fantasma, que o lonely planet recomendava. Mas o que nos nao podiamos imaginar e que a nossa maior aventura ainda estava para vir, nessa noite, no momento em que entrassemos na camioneta a caminho de Yangshuo.
No Autocarro para Yangshuo: Death Proof
Tudo me pareceu uma facanha incrivel ate conseguirmos apanhar o autocarro para Yangshuo. Ninguem falava ingles na estacao de autocarros, nem tinhamos bem a certeza se o bilhete que tinhamos comprado ia para o lugar que queriamos, descobrir a paragem de onde o autocarro saia levou-nos alguns vinte minutos, enfim, nao houve oportunidade para nos sentirmos relaxados ate entrarmos no autocarro. Mas a verdade e que assim que me sentei, no meu lugar na primeira fila, uma sensacao de calma invadiume da cabeca aos pes e julguei que todos os nossos problemas tinham acabado. O que eu nao podia imaginar era que estava prestes a embarcar na viagem mais tortuosa da minha vida, uma especie de roleta russa jogada ininterruptamente ao longo de doze horas, pelas estradas mais sinuosas que algum dia percorri.
A viagem comecou calmamente, pelas avenidas de Guangzhou e nada fazia prever o que ai vinha. O condutor, embora pissasse uma vez por outra o travao de uma forma rudimentar, parecia a partida um sujeito calmo e razoavel, plenamente capaz de me levar ate Yangshuo sem mazelas. So que as coisas transfiguraram-se quando ao fim de quarenta e cinco minutos de viagem o alcatrao desapareceu para dar lugar a uma estrada de pedra esburacada, dezenas de vezes pior do que qualquer estrada de campo existente em Portugal. A partir dai, o condutor passou a guiar a esquerda ou a direita sem criterio, como se de repente o codigo da estrada se tivesse perdido para sempre na sua memoria. Ao fim de uma hora e meia o autocarro foi a baixo e eu julguei que iamos ficar ali, apeados no meio do nada, a dezenas de quilometros de Guangzhou. Ja estava a desesperar, com o motorista a ligar e a desligar o autocarro freneticamente e a bufar qualquer coisa em chines que eu nao entendia. Foi nessa altura que eu despertei para uma caixa que ele trazia ao lado do volante, que tinia a toda a hora e que viemos a apelidar umas horas mais tarde, como a alma do autocarro. Ao fim de alguns minutos a caixa comecou a gemer e o motorista la conseguiu por o autocarro novamente a andar. Mas a viagem tornou-se verdadeiramente aterradora foi quando regressamos a estrada de alcatrao. Nessa altura o motorista aumentou a velocidade de cruzeiro para os cem quilometros hora, debaixo de uma tempestade tropical, e continuando a guiar a esquerda ou a direita consoante lhe dava na cabeca, como se a lei da selva estivesse sobreposta a lei da estrada. Ele ultrapassava em curvas cegas colunas de quatro camioes seguidos, ele rolava a uma velocidade estonteante por estradas com mais de 7 por cento de inclinacao, ele passava por cima de duplos tracos obrigando motas a desviarem-se para a berma, ele entrava nas portagens em sentido contrario, ele guinava para faixa contraria assim que via um buraco na estrada, enfim, eram incontaveis as infraccoes de transito que aquele condutor cometia no espaco de dez minutos, quanto mais ao longo de uma viagem de quase doze horas. Dois australianos que iam atras de nos, passaram a viagem inteira de olhos colados na estrada e a levarem as maos a cabeca, como se isso lhes pudesse valer de alguma coisa. Eu volta e meia ainda tentava fechar os olhos, mas acho que nunca os consegui manter assim durante mais de cinco segundos, porque mal comecava a pensar noutra coisa, o condutor esmagava o acelerador e eu so me imaginava a sair disparado pelo vidro da frente...
Tinham decorrido qualquer coisa como 8 horas de viagem, quando o motorista parou o autocarro no meio do nada para quem quisesse ir a casa de banho. Eu tinha alguma vontade e ingenuamente sai do autocarro. Mas assim que entrei naquele cubiculo, percebi porque e que a maior parte das pessoas tinham ficado na carrinha. Foi certamente a casa de banho mais porca em que entrei em toda a minha vida e tive que conter a respiracao para nao vomitar logo a entrada. Aquilo nao devia ser limpo ha varios anos. Moscas gordas deambulavam por todo o lado e zumbiam como abelhoes e um cheiro fetido entranhava-se nas narinas, tornando o cumprimento de uma necessidade numa tortura insuportavel. Sai dali a correr, o mais rapido que consegui, em direccao ao meu caixao ambulante, mas com boas expectativas, porque ia haver troca de motorista e, julgava eu, que pior do que o que tinhamos tido ate entao era impossivel.
O motorista que se seguiu comecou como o outro, com calma e revelando ate algum excesso de zelo. A diferenca e que nao demorou nem quinze minutos a tornar-se num autentico mercenario ao volante, conduzindo como se nao tivesse o menor amor a vida (nem a dele, nem a de ninguem que se encontrava naquele autocarro!). Conduziu pela manha adentro, saltitando de uma faixa para a outra a uma velocidade estonteante, buzinando a tudo o que mexia, enquanto mastigava uns amendoins que trazia no bolso. A medida que o sol subia no horizonte, comecaram a aparecer centenas e centenas de motoretas, que inundaram a estrada e a tornaram praticamente intransitavel. Foi nessa altura que o nosso condutor revelou toda a sua loucura, efectuando verdadeiros slaloms por entre corredores infindaveis de motas e fazendo rasias assustadoras a automaveis que vinham no sentido contrario. Aquela hora da manha os meus olhos ja nao conseguiam absorver as barbaridades que aquele senhor praticava ao volante, por isso limitei-me a tirar a minha maquina fotografica da mochila e estive ate chegarmos a fotografar o que me rodeava. Ainda hoje, quando revejo as fotografias e penso no que vi naquela noite, nao percebo como chegamos vivos a Yangshuo.