Capitulo 4: mais Macau
Bastou uma visita de Stanley Ho a Auckland, para que se construisse em Macau uma torre com mais de 300 metros de altura igual a da capital da Nova Zelandia. Talvez tenha sido por capricho do senhor Ho. Eu gosto mais de pensar nisto como uma forma de fotografia com resolucao maxima. Como se as melhores maquinas fotograficas incluissem betoneiras, guindastes, empreiteiros e obreiros. O que nao se lembraram de fazer em Auckland foi um Bungee Jumping aos 238 metros, mesmo por cima do restaurante em altura. O maior do mundo.
A Joana gostou da ideia e mandou o Jay mergulhar.
- Jay olha que se saltas aquilo es o maior do mundo!
- Epah pois sou pah...
- Jay, vais-te armar em menino? O Pinto de estivesse aqui ja se tinha mandado!
- Epah pois ja pah...
E o Jay transformou-se num emaranhado de nos no estomago, como se as tripas lhe tivessem subido para cima do duodeno. Parecia uma alforreca das que murmuram "pois e pah..." e que contemplam o horizonte e o chao com os mesmos olhos apaticos. A Joana nem o deixava respirar. Deve ser tramado ter a adrenalina maior que o estomago, porque a unica coisa que impediu o Patrone de se armar em yo-yo foram os 130 euros que custava a brincadeira.
Ao inicio da noite fomos visitar Coloane. Uma ilha que nao e ilha mas que em tempos deve ter sido. Entre Coloane e Taipa ha um istmo de terra branca e plana cercada a tapume por todos os lados. Nao e dificil adivinhar as formas dos hoteis que ali vao nascer. Vejo Vegas em duplicado: piramides de Gize a meia escala, torre Eiffel, coliseu de Roma, Empire State Building. Muitas luzes que piscam. Capelas em que as pessoas entram depois de comungarem tanto sangue de cristo que no dia seguinte nao se lembram que elas e mais alguem sao afinal um so. Estou gelado pelo microclima de ar condicionado que se faz sentir dentro do autocarro. Estas tempestades de vento frio confundem-me as amigdalas desde que aqui cheguei. Quando adivinhamos estar perto do nosso destino geramos a aparato do costume sempre que precisamos de indicacoes: discutimos com o autocarro inteiro qual a melhor saida para visitar a vila de Coloane. Ate o condutor se mexe frenetico no seu banco saltitao e assiste a cena pelo retrovisor que espelha o corredor. Pelo menos cinco chineses falam connosco em chines. So um jovem (sao sempre eles) nos explica, naquele ingles do costume tocado a xilofone, que a paragem nao e esta mas a proxima. Saimos do frio seco para o calor torrencial e a Joana corre de braco dado a uma velhinha chinesa que insiste em indicar-nos em lingua de caracteres qual a rua mais pitoresca. A verdade e que a entendemos e foi assim que conhecemos o senhor Vong Iu Tong.
O senhor Tong e um Macaense dono de um restaurante em Coloane. Nas suas listas bilingues esta escrito em portugues: ameijoas a portuguesa, camaroes cozidos em agua e sal, caldo verde, caranguejo, sopa de marisco, feijoada, entre outros. Os precos sao portugueses anoes. Como ninguem nos atendia depois de muito tempo sentados comecamos a barafustar com os bracos no ar e os rabos so meio sentados. O senhor Tong apareceu a correr a cantar pela rua fora. Mal chegou ao pe de nos pos-se logo a aconselhar pratos em portugues, como se tambem a nossa lingua se falasse a jorros:
- O caranguejo quanto custa?
- Caranguejomuitobom.
- Ah!, fala portugues?!
- Faloportugues. Umpouco. Falopouco.
E ria-se com o corpo todo.
- Cascais. Lisboa. Muitobom.
E fazia fixes com as duas maos.
- Paocommanteiga?
Depois gritava a sua empregada o que era preciso trazer com uma eficiencia inesperada, tal era a brincadeira cultural em que se tinha transformado o nosso pedido. O resto do jantar passamo-lo a ver o senhor Iu cantar de mesa em mesa com o seu copinho de licor. Fez saude com toda a rua. Eram uns quatro restaurantes seguidos, que conviviam muito bem com as suas virtudes e defeitos. Os pratos eram cozinhados uns aqui e outros ali. Cada restaurante fabricava so aquilo em que realmente se especializara e nenhum levava a mal que o caranguejo do outro fosse melhor que o dele, porque afinal de contas nao ha carapauzinhos grelhados como os que aqui se vendem. Comemos um banquete de marisco ao preco da chuva e sentimo-nos verdadeiramente em casa, na esquina daquele larguinho de arcadas com chao de calcada e uma igreja ao centro.
PCH
A Joana gostou da ideia e mandou o Jay mergulhar.
- Jay olha que se saltas aquilo es o maior do mundo!
- Epah pois sou pah...
- Jay, vais-te armar em menino? O Pinto de estivesse aqui ja se tinha mandado!
- Epah pois ja pah...
E o Jay transformou-se num emaranhado de nos no estomago, como se as tripas lhe tivessem subido para cima do duodeno. Parecia uma alforreca das que murmuram "pois e pah..." e que contemplam o horizonte e o chao com os mesmos olhos apaticos. A Joana nem o deixava respirar. Deve ser tramado ter a adrenalina maior que o estomago, porque a unica coisa que impediu o Patrone de se armar em yo-yo foram os 130 euros que custava a brincadeira.
Ao inicio da noite fomos visitar Coloane. Uma ilha que nao e ilha mas que em tempos deve ter sido. Entre Coloane e Taipa ha um istmo de terra branca e plana cercada a tapume por todos os lados. Nao e dificil adivinhar as formas dos hoteis que ali vao nascer. Vejo Vegas em duplicado: piramides de Gize a meia escala, torre Eiffel, coliseu de Roma, Empire State Building. Muitas luzes que piscam. Capelas em que as pessoas entram depois de comungarem tanto sangue de cristo que no dia seguinte nao se lembram que elas e mais alguem sao afinal um so. Estou gelado pelo microclima de ar condicionado que se faz sentir dentro do autocarro. Estas tempestades de vento frio confundem-me as amigdalas desde que aqui cheguei. Quando adivinhamos estar perto do nosso destino geramos a aparato do costume sempre que precisamos de indicacoes: discutimos com o autocarro inteiro qual a melhor saida para visitar a vila de Coloane. Ate o condutor se mexe frenetico no seu banco saltitao e assiste a cena pelo retrovisor que espelha o corredor. Pelo menos cinco chineses falam connosco em chines. So um jovem (sao sempre eles) nos explica, naquele ingles do costume tocado a xilofone, que a paragem nao e esta mas a proxima. Saimos do frio seco para o calor torrencial e a Joana corre de braco dado a uma velhinha chinesa que insiste em indicar-nos em lingua de caracteres qual a rua mais pitoresca. A verdade e que a entendemos e foi assim que conhecemos o senhor Vong Iu Tong.
O senhor Tong e um Macaense dono de um restaurante em Coloane. Nas suas listas bilingues esta escrito em portugues: ameijoas a portuguesa, camaroes cozidos em agua e sal, caldo verde, caranguejo, sopa de marisco, feijoada, entre outros. Os precos sao portugueses anoes. Como ninguem nos atendia depois de muito tempo sentados comecamos a barafustar com os bracos no ar e os rabos so meio sentados. O senhor Tong apareceu a correr a cantar pela rua fora. Mal chegou ao pe de nos pos-se logo a aconselhar pratos em portugues, como se tambem a nossa lingua se falasse a jorros:
- O caranguejo quanto custa?
- Caranguejomuitobom.
- Ah!, fala portugues?!
- Faloportugues. Umpouco. Falopouco.
E ria-se com o corpo todo.
- Cascais. Lisboa. Muitobom.
E fazia fixes com as duas maos.
- Paocommanteiga?
Depois gritava a sua empregada o que era preciso trazer com uma eficiencia inesperada, tal era a brincadeira cultural em que se tinha transformado o nosso pedido. O resto do jantar passamo-lo a ver o senhor Iu cantar de mesa em mesa com o seu copinho de licor. Fez saude com toda a rua. Eram uns quatro restaurantes seguidos, que conviviam muito bem com as suas virtudes e defeitos. Os pratos eram cozinhados uns aqui e outros ali. Cada restaurante fabricava so aquilo em que realmente se especializara e nenhum levava a mal que o caranguejo do outro fosse melhor que o dele, porque afinal de contas nao ha carapauzinhos grelhados como os que aqui se vendem. Comemos um banquete de marisco ao preco da chuva e sentimo-nos verdadeiramente em casa, na esquina daquele larguinho de arcadas com chao de calcada e uma igreja ao centro.
PCH
comentários:
21 de junho de 2008 às 09:17
Caros viajantes: Joana, Pedro, Bernardo e Jay( não conheço, mas deve ser bom rapaz). Tenho a dizer-vos que estou positivamente fascinado com os relatos da vossa deambulação pela China! O Blog está muito bem escrito e explicito, é quase como trazerem a China para junto de nós, aqui tão longe, amargurados pelo fracasso Luso-Brasileiro da Selecção das Quinas no Euro 2008.
Digo-vos que consulto diariamente a " Grande Marcha ", e assim espero continuar nas próximas semanas.
P.S. - Referir apenas que a capital da Nova Zelândia é Wellington, apesar de Auckland ser a cidade mais populosa.
Abraços aos rapazes e Beijinho à Joana
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