sábado, 21 de junho de 2008

Capitulo 5: pulando a cerca

Quando andava na escola as professoras diziam-me varias vezes que tenho cara de sonso. Chegaram a bofetear-me a cara por fingir nao ser eu. Eu sempre que me vejo ao espelho acredito na minha cara, mas tambem nao sei de ninguem que desconfie do seu proprio reflexo. Por isso sou incapaz de perceber essa de eu ser sonso. Seja como for deve ter sido isso que passou pela cabeca do guarda alfandegario quando comparou a minha imagem ao vivo com o meu sorriso estapafurdio estampado na fotografia do meu passaporte. Ja tinha passado o Jay e a sua barba rala. Mas eu nao - "Este e perigoso" - fomos os quatro enviados para uma sala onde nos revistaram a mala a conta da minha cara de sonso. Ainda se demoraram alguns minutos a ver as fotografias na maquina do Bernardo e a ler os pensamentos da Joana no seu caderno. Riram-se dos nossos livros escritos em portugues. Afinal de contas aquilo para eles e chines. Desconfiaram do necessaire da Joana mas nao se atreveram a ver mais que um vislumbre. Enquanto esperava so rezava que nao nos confiscassem os Lonely Planet. Os chineses nao gostam destes guias porque nao incluem Taiwan como seu territorio. Ouvimos de historias em que ficaram com eles. E apesar dos erros em que este guia ja nos induziu, continua a ser o nosso melhor tradutor de chines quando precisamos de indicacoes. Depois de alguma dificuldade em fazer os guardas entender que passear um mes pela China nao e coisa assim tao excentrica, acabamos por transformar a desconfianca em quase admiracao e orgulho pelo que iamos fazer ao seu pais. Escoltaram-nos ate a saida da alfandega e soltaram vivas e confetis enquanto davamos os primeiros passos em territorio chines. Pelo menos assim me pareceu. Teria sido uma entrada em grande, mas 2 minutos depois estavamos de volta a alfandega, porque precisavamos de levantar yuans no Bank of China.
O banco estava cheio de chineses a levantar o salario do mes. Havia cinco caixas e um relacoes publicas. Assim era. Havia um relacoes publicas que saltava de caixa em caixa e se intrometia nas conversas entre o funcionario do banco e as pessoas, com um sorriso de orelha a orelha pronto a levantar a moral. E conseguia. As conversas fluiam mais depressa sempre que aquele empecilho se metia. Como se o espectaculo do RP ja nao fosse suficiente, estavam ali 4 portugueses para trocar dollars e euros. Tenho a certeza que aqueles funcionarios nunca se irao esquecer do dia em que 4 estrangeiros quiseram trocar dinheiro. La dentro eles entretiam-se a analisar notas e a soltar gargalhadas sempre que eu e o Bernardo falavamos entre nos, incredulos com o perfeccionismo com que analisavam cada nota. A Joana travava conversas gestuais com as velhas que esperavam sentadas nos bancos de plastico. Estavam extasiadas com as bolsinhas que metemos debaixo da roupa e em que guardamos os nossos documentos e dinheiro. Diziam que sim com as maos e cabeca e beliscavam-se umas as outras:
- Olha que giro o que esta menina tem ali para esconder o dinheiro!
O relacoes publicas tinha amuado a um canto.