Conway Twitty. O palco é dele. Tem o microfone enorme na mão direita e canta. Está sentado num banco alto de madeira com o pé esquerdo esticado e apoiado no chão. O outro está na trave do banco e lança impulsos de música country ao joelho. À sua volta tudo é tépido, em tons castanhos e encarnados que se desmancham em cor-de-rosas como o do casaco que veste, debruado por três linhas douradas, que lhe embrulha o peito branco aos folhinhos engomados. O ar está todo preenchido mas move-se parado e adormecido e por momentos duvidamos se aquilo não será apenas um cenário de cartão envernizado. Mas então a luz ilumina-lhe o cabelo. É enorme e cresce para todos os lados, mas sempre para cima e nunca para baixo. É uma mancha de preto e branco, como se fosse a brilhantina pintada nos livros de banda desenhada. E a luz ilumina também os olhos que tilintam afogados em fama e amor-próprio e brilha também a saliva molhada, que pinta a boca de batôn encarnado vivo. Molham-se então os nossos olhos e as nossas bocas e subitamente acreditamos que aquilo tudo é mesmo verdade.
É então que as coisas se começam a torcer e a desfazer numa espiral, que começa a rodar ainda indecisa na direcção que vai tomar. Estica-se cada vez mais fina e afunda-se no centro do microfone. O cabelo desmancha-se em pequenos fiozinhos que se electrificam e correm uns atrás dos outros muito rápidos em fila indiana. Tudo o que estava á volta do cabelo se desfaz também em linhas onduladas de ampéres que rodam primeiro devagar mas depois muito depressa, antes mesmo de mergulharem no redemoinho que o microfone vai sugando. Não resta então mais que um impulso só, dentro de um cabo de cobre deslizando debaixo da terra à velocidade da luz. O vento frio arrefece-o quando rodopia pelas resistências da torre de alta tensão acima. E então Conway Twitty é cuspido como um foguete pelo ar e voa com o rabo incandescente sempre para cima. A Terra curva-se dizendo-lhe adeus e ameaça-se cada vez mais redonda, enquanto ele continua a fugir sem que o frio gélido lhe arrefeça o rabo. Um reflexo de luz ofuscante chama-o então e, sem saber bem como, viaja de novo dentro de circuitos eléctricos, que agora são os dum enorme painel solar aberto em concha, como se fosse um retocador de maquilhagem do planeta lá em baixo. Até que renasce da telefonia reles que flutua lá dentro, num cubículo de 2x2x2 metros para cada lado.
Expele-se orgulhoso como um filho que irrompe do útero. E como ele chora quando sai, mas em vez de berrar canta country. Num nanosegundo tudo se reconstrói de novo lá em cima, a 1000 quilómetros de distância. Bem longe do Western. Muito mais longe ainda da Lua.
1958.
As paredes são metálicas e verdes, e estão vomitadas de amarelos acastanhados e cinzentos sujos. Aqui e ali vêem-se feridas arranhadas em tons de ferrugem e em formas de desespero. Uma mancha de pelúcia branca move-se indegesta. São três ratinhos.
- Calem-se! Parem com isso agora! - os outros dois ratos ameçam manter a pequena briga pela estação de rádio, mas com uma obediência relutante largam os bigodes um do outro e deixam Conway a chorar no seu canto.
- Já tive 5 cancros em toda a minha vida e sobrevivi a todos! O meu pai levou com a primeira dose de quimioterapia de que há memória neste mundo e ainda vive lá em baixo e fuma charutos todas as noites a seguir ao café e ao bagaço. Não havia melhor amigo do Fleming que o meu avô que lhe esticou o rabinho para que o outro lhe enfiasse uma seringa cheia da primeira penicilina que este mundo conheceu! Pode ter ficado mais caquéctico que uma vaca irlandesa do século XVIII mas viveu! - As cinco patinhas (uma a mais que a cura do cancro na próstata lhe concedera) tremiam todas de nervos e de raiva. E a espuma da saliva era cada vez mais seca e mais espessa. - E vocês minhas bestas! Vocês envergonham-me! São uns ratos do lixo! Ratazanas nojentas e preguiçosas! Discutem como duas velhas dementes e esquecem-se do que o mundo quer de vocês! São a vergonha da família!
- Mas pai, o TCP55 é que começou a roer-me a cauda, quando sabia muito bem que quando voltássemos do Espaço eu é que escolhia a música...!
- Oh minha amélia! Eu disse que escolhias se não fosse esta lamechice peganhenta e maricas e melosa que me faz lembrar sopa de legumes batida ao lume! Se calhar também te queres sentar a tricotar uma malhinha e a beber um chá com mel!
TCP54 rangeu os dois dentes e preparava já um coice com as patinhas gordas traseiras, mas o pai antecipou-se e com um soco desmanchou a telefonia em quinhentas partes.
- Conviver com estes dois nos últimos minutos da minha vida... - Lamentava-se.
A Terra em baixo crescia para eles. Cada vez mais mundo e menos planeta. Eles viajavam os três dentro de uma bolinha. Um berlinde que descia descontrolado na direcção da atmosfera. Tudo começara há 6 meses. Viviam na Sibéria enfiados todos na mesma jaula numa sala repleta delas. Estavam ali desde que o pai voltara há 4 anos duma operação ao seu último quisto cancerígeno. Estava de boa saúde e fora ainda capaz de festejar dando mais dois filhos à sua mulher. No entanto, foi TCP52 que não teve forças que bastassem e morreu da gravidez gémea no dia em que os dois filhos nasceram. Os três que ficaram choraram dias a fio. O pai porque ficara sem a mulher. Os filhos porque acabavam de nascer e era isso que ratinhos brancos e novinhos como eles faziam. Às tantas o choro secou e esperavam apenas, todos os dias, nas suas rodinhas correndo ou comendo as sementes que os homens lhes punham no chão da jaula, dia sim dia não. Quando se esqueceram da idade que cada um tinha, vieram dois homens que pegaram neles e lhes disseram qualquer coisa em russo que incluia миллионы рубль, сука американские, коммунизма e por último Sputnik I. Assinaram um contrato incompreensível com cada uma das patinhas que Deus e os laboratórios lhes haviam dado e festejaram bebendo cinco copos cada um, do Vodka mais translúcido que algo vez tinham provado. Sentiram o corpo vacilar com o torpor da responsabilidade que sentiram, quando três salvas de canhões foram disparadas em sua honra, por cima da multidão castanha que os ovacionava na Praça Vermelha em Moscovo. O Kremlin parecera-lhes maior que a Rússia inteira, naquele fim de tarde de nuvens azuis aos rasgos cor-de-laranja incendiados pelo Sol. Quando chegou o grande dia foi só subir o elevador da torre de apoio ao grande foguete - uma bala em tamanho descomunal, um tiro que a Rússia disparava para o céu - e meterem-se dentro do cúbiculo de 2x2x2 metros. Chutaram-lhes uma telefonia lá para dentro, gritaram-lhes que se пользуются, beberam uma garrafa de Vodka de um trago, soldaram a porta, beberam outra garrafa de Vodka de um trago e carregaram no gatilho. A bala foi disparada.
Хуррей Pоссия!
O Satélite deu então um enorme solavanco.
O pai abraçou os seus pequenos filhos que num segundo esqueceram as mil e uma brigas que até então tiveram. Sentiram um calor insuportável crescer de fora da nave para dentro. As janelas eram labaredas ferozes e as chapas metálicas que cobriam as paredes interiores ganhavam cada vez mais, um tom assustadoramente quente. A velocidade da queda atordoava-os e os dois mais novos desmaiaram para não mais acordar. O pai afagou a cabeça de cada um com amor, esforçou-se até ao outro canto da sala e agarrou na garrafa de Vodka que sobrara. Disse então com as forças que toda aquela compressão ainda lhe poupara.
- Hão de se lembrar de mim para sempre! - Mas não ouvia a sua própria voz por detrás do crepitar furioso de todos os parafusos daquela máquina, por isso gritou como um cisne que canta heavy metal na noite em que morre:
- Que ninguém se esqueça da vida destes três que aqui morrem pelo Mundo! Xуррей Pоссия! - e de um trago embebedou-se até cair para o lado.
- Olha!
Uma estrela cadente apaixonada. Deitados no capot de um carro isolado no deserto do Arizona. A seguir esquecem a estrela e concentram-se um no outro. Os olhos bem acesos enquanto lá em cima TCP53 e seus filhos se apagavam.
PS: Tradução por ordem de aparição: milhões de Rublos; filhos da p*** dos americanos; comunismo; viva a rússia!; [que se] divertissem; viva a rússia!.
É então que as coisas se começam a torcer e a desfazer numa espiral, que começa a rodar ainda indecisa na direcção que vai tomar. Estica-se cada vez mais fina e afunda-se no centro do microfone. O cabelo desmancha-se em pequenos fiozinhos que se electrificam e correm uns atrás dos outros muito rápidos em fila indiana. Tudo o que estava á volta do cabelo se desfaz também em linhas onduladas de ampéres que rodam primeiro devagar mas depois muito depressa, antes mesmo de mergulharem no redemoinho que o microfone vai sugando. Não resta então mais que um impulso só, dentro de um cabo de cobre deslizando debaixo da terra à velocidade da luz. O vento frio arrefece-o quando rodopia pelas resistências da torre de alta tensão acima. E então Conway Twitty é cuspido como um foguete pelo ar e voa com o rabo incandescente sempre para cima. A Terra curva-se dizendo-lhe adeus e ameaça-se cada vez mais redonda, enquanto ele continua a fugir sem que o frio gélido lhe arrefeça o rabo. Um reflexo de luz ofuscante chama-o então e, sem saber bem como, viaja de novo dentro de circuitos eléctricos, que agora são os dum enorme painel solar aberto em concha, como se fosse um retocador de maquilhagem do planeta lá em baixo. Até que renasce da telefonia reles que flutua lá dentro, num cubículo de 2x2x2 metros para cada lado.
Expele-se orgulhoso como um filho que irrompe do útero. E como ele chora quando sai, mas em vez de berrar canta country. Num nanosegundo tudo se reconstrói de novo lá em cima, a 1000 quilómetros de distância. Bem longe do Western. Muito mais longe ainda da Lua.
1958.
As paredes são metálicas e verdes, e estão vomitadas de amarelos acastanhados e cinzentos sujos. Aqui e ali vêem-se feridas arranhadas em tons de ferrugem e em formas de desespero. Uma mancha de pelúcia branca move-se indegesta. São três ratinhos.
- Calem-se! Parem com isso agora! - os outros dois ratos ameçam manter a pequena briga pela estação de rádio, mas com uma obediência relutante largam os bigodes um do outro e deixam Conway a chorar no seu canto.
- Já tive 5 cancros em toda a minha vida e sobrevivi a todos! O meu pai levou com a primeira dose de quimioterapia de que há memória neste mundo e ainda vive lá em baixo e fuma charutos todas as noites a seguir ao café e ao bagaço. Não havia melhor amigo do Fleming que o meu avô que lhe esticou o rabinho para que o outro lhe enfiasse uma seringa cheia da primeira penicilina que este mundo conheceu! Pode ter ficado mais caquéctico que uma vaca irlandesa do século XVIII mas viveu! - As cinco patinhas (uma a mais que a cura do cancro na próstata lhe concedera) tremiam todas de nervos e de raiva. E a espuma da saliva era cada vez mais seca e mais espessa. - E vocês minhas bestas! Vocês envergonham-me! São uns ratos do lixo! Ratazanas nojentas e preguiçosas! Discutem como duas velhas dementes e esquecem-se do que o mundo quer de vocês! São a vergonha da família!
- Mas pai, o TCP55 é que começou a roer-me a cauda, quando sabia muito bem que quando voltássemos do Espaço eu é que escolhia a música...!
- Oh minha amélia! Eu disse que escolhias se não fosse esta lamechice peganhenta e maricas e melosa que me faz lembrar sopa de legumes batida ao lume! Se calhar também te queres sentar a tricotar uma malhinha e a beber um chá com mel!
TCP54 rangeu os dois dentes e preparava já um coice com as patinhas gordas traseiras, mas o pai antecipou-se e com um soco desmanchou a telefonia em quinhentas partes.
- Conviver com estes dois nos últimos minutos da minha vida... - Lamentava-se.
A Terra em baixo crescia para eles. Cada vez mais mundo e menos planeta. Eles viajavam os três dentro de uma bolinha. Um berlinde que descia descontrolado na direcção da atmosfera. Tudo começara há 6 meses. Viviam na Sibéria enfiados todos na mesma jaula numa sala repleta delas. Estavam ali desde que o pai voltara há 4 anos duma operação ao seu último quisto cancerígeno. Estava de boa saúde e fora ainda capaz de festejar dando mais dois filhos à sua mulher. No entanto, foi TCP52 que não teve forças que bastassem e morreu da gravidez gémea no dia em que os dois filhos nasceram. Os três que ficaram choraram dias a fio. O pai porque ficara sem a mulher. Os filhos porque acabavam de nascer e era isso que ratinhos brancos e novinhos como eles faziam. Às tantas o choro secou e esperavam apenas, todos os dias, nas suas rodinhas correndo ou comendo as sementes que os homens lhes punham no chão da jaula, dia sim dia não. Quando se esqueceram da idade que cada um tinha, vieram dois homens que pegaram neles e lhes disseram qualquer coisa em russo que incluia миллионы рубль, сука американские, коммунизма e por último Sputnik I. Assinaram um contrato incompreensível com cada uma das patinhas que Deus e os laboratórios lhes haviam dado e festejaram bebendo cinco copos cada um, do Vodka mais translúcido que algo vez tinham provado. Sentiram o corpo vacilar com o torpor da responsabilidade que sentiram, quando três salvas de canhões foram disparadas em sua honra, por cima da multidão castanha que os ovacionava na Praça Vermelha em Moscovo. O Kremlin parecera-lhes maior que a Rússia inteira, naquele fim de tarde de nuvens azuis aos rasgos cor-de-laranja incendiados pelo Sol. Quando chegou o grande dia foi só subir o elevador da torre de apoio ao grande foguete - uma bala em tamanho descomunal, um tiro que a Rússia disparava para o céu - e meterem-se dentro do cúbiculo de 2x2x2 metros. Chutaram-lhes uma telefonia lá para dentro, gritaram-lhes que se пользуются, beberam uma garrafa de Vodka de um trago, soldaram a porta, beberam outra garrafa de Vodka de um trago e carregaram no gatilho. A bala foi disparada.
Хуррей Pоссия!
O Satélite deu então um enorme solavanco.
O pai abraçou os seus pequenos filhos que num segundo esqueceram as mil e uma brigas que até então tiveram. Sentiram um calor insuportável crescer de fora da nave para dentro. As janelas eram labaredas ferozes e as chapas metálicas que cobriam as paredes interiores ganhavam cada vez mais, um tom assustadoramente quente. A velocidade da queda atordoava-os e os dois mais novos desmaiaram para não mais acordar. O pai afagou a cabeça de cada um com amor, esforçou-se até ao outro canto da sala e agarrou na garrafa de Vodka que sobrara. Disse então com as forças que toda aquela compressão ainda lhe poupara.
- Hão de se lembrar de mim para sempre! - Mas não ouvia a sua própria voz por detrás do crepitar furioso de todos os parafusos daquela máquina, por isso gritou como um cisne que canta heavy metal na noite em que morre:
- Que ninguém se esqueça da vida destes três que aqui morrem pelo Mundo! Xуррей Pоссия! - e de um trago embebedou-se até cair para o lado.
- Olha!
Uma estrela cadente apaixonada. Deitados no capot de um carro isolado no deserto do Arizona. A seguir esquecem a estrela e concentram-se um no outro. Os olhos bem acesos enquanto lá em cima TCP53 e seus filhos se apagavam.
PS: Tradução por ordem de aparição: milhões de Rublos; filhos da p*** dos americanos; comunismo; viva a rússia!; [que se] divertissem; viva a rússia!.
PCH