Once in a lifetime (parte 2)
A «Antiga Casa Marítima» (ou Sãozinha como lhe chamavam os locais em honra à cozinheira conhecida por fazer a melhor sopa de cação da região) era um restaurante acolhedor, com o chão em pedra de calçada, mesas atoalhadas e com histórias do alto-mar espalhadas pelas paredes. Assim que entrámos, um dos homens que estava a servir às mesas, reparou no meu pai e gritou do outro lado da sala:
- Senhor Engenheiro, esteja à vontade. Sente-se onde quiser.
Ficámos logo na primeira mesa junto à porta e enquanto esperávamos que alguém nos viesse atender o meu pai contou-nos que o homem que o tinha abordado era o dono do estabelecimento. Chamava-se Zé Manel, tinha combatido na Guerra do Ultramar e tinha-se destacado na década de oitenta por ser um dos mais temerários pescadores de Sesimbra. Porém, no final da década tinha sido vítima de uma apoplexia e optara por se refugiar com a mulher Conceição na Trafaria, onde abriram um restaurante mais para partilharem as suas histórias do que propriamente para enriquecerem. O meu pai preparava-se para entrar em mais pormenores, quando uma rapariga veio anotar o pedido e não se voltou a falar no assunto.
No final do almoço, estávamos nós a acabar de comer a sobremesa, quando o Zé Manel apareceu com uma garrafa de aguardente debaixo do braço, puxou uma cadeira e se sentou na nossa mesa sem sequer pedir licença. A minha mãe ainda estranhou a atitude, mas a cara do meu pai contorceu-se de felicidade, como se tivesse estado toda a manhã à espera daquele momento.
- Senhor Engenheiro, esteja à vontade. Sente-se onde quiser.
Ficámos logo na primeira mesa junto à porta e enquanto esperávamos que alguém nos viesse atender o meu pai contou-nos que o homem que o tinha abordado era o dono do estabelecimento. Chamava-se Zé Manel, tinha combatido na Guerra do Ultramar e tinha-se destacado na década de oitenta por ser um dos mais temerários pescadores de Sesimbra. Porém, no final da década tinha sido vítima de uma apoplexia e optara por se refugiar com a mulher Conceição na Trafaria, onde abriram um restaurante mais para partilharem as suas histórias do que propriamente para enriquecerem. O meu pai preparava-se para entrar em mais pormenores, quando uma rapariga veio anotar o pedido e não se voltou a falar no assunto.
No final do almoço, estávamos nós a acabar de comer a sobremesa, quando o Zé Manel apareceu com uma garrafa de aguardente debaixo do braço, puxou uma cadeira e se sentou na nossa mesa sem sequer pedir licença. A minha mãe ainda estranhou a atitude, mas a cara do meu pai contorceu-se de felicidade, como se tivesse estado toda a manhã à espera daquele momento.
- Lúcia, arranja-me três balões por favor – pediu ele à rapariga que nos tinha servido o almoço. – Então, senhor engenheiro, como tem passado? Há algum tempo que não o via por aqui...
Zé Manel era um homem excêntrico, de bochechas encarniçadas, de cabelo encaracolado e barba desgrenhada como os ratos. O corpo franzino e as mãos magras e pequenas não condiziam com o seu passado audacioso de pescador e de guerrilheiro. No entanto, bastava olhar para a vividez e para o brilho dos seus olhos para perceber o estofo de que ele era feito. A força vinha-lhe da alma, da alegria de viver. E era isso que o tornava num homem tão carismático.
- É verdade. Tenho tido tanto trabalho que nem tenho parado para almoçar. Mas hoje recebi uma visita da familia e não resisti a trazê-los à Sãozinha. – A Lúcia entretanto aproximou-se da mesa e muito timidamente pousou os três copos balão. – Mas diz-me, Zé Manel, que história é que nos trazes hoje?
Só então é que eu compreendi as regras do jogo. A «Antiga Casa Marítima» era muito mais do que um restaurante, era a oportunidade de ouvir uma história de um dos homens mais vividos do nosso país, contada na primeira pessoa e com direito a aguardente para adoçar a trama. Não havia preço para o que nós nos preparávamos para presenciar e no meu subconsciente a atribulação era cada vez maior.
- Se quer que lhe diga estou um bocado indeciso – respondeu ele no seu timbre de contralto, desrolhando em simultâneo a garrafa de aguardente. – Mas a minha experiência de contador de histórias diz-me que as crianças deliram com enredos fantásticos e uma vez que você hoje veio acompanhado por duas, eu sinto-me tentado a partilhar uma das aventuras mais surreiais em que me vi envolvido na vida. Eu só tenho medo é de os traumatizar com a minha história...
- Não tenha, que eles são fortes – retorquiu a minha mãe, que seguia todos os movimentos do Zé Manel com um olhar atento.
- Pois bem, então aqui vai. Tudo começou há muitos anos atrás, tinha eu acabado de regressar do Ultramar. Lisboa andava a saque nessse tempo. Multiplicavam-se os relatos de emboscadas, de assaltos a discotecas, de incursões anti-fascistas. As pessoas desconfiavam de tudo e de todos. Até delas próprias... Passavam-se meses sem que soasse a musiquinha do amolador de facas, sem que a cidade parasse para pensar. A agitação era tremenda! O cheiro dos cravos perpetuava-se pelas ruas e trazia à memória as falsas promessas da revolução. Lisboa parecia uma adolescente acabada de sair de uma crise e prestes a entrar noutra. A liberdade continuava a ser uma miragem, as notícias eram dadas em meias palavras e a nova cambada de dirigentes fazia política já a pensar nas memórias. Era este o legado da revolução. Um país à deriva e sem rumo...
BGL
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