O homem que nunca nasceu
Lembrava-se muito bem do dia em que morrera. Fora há bastantes anos, mas lembrava-se tão bem como do sabor dos dióspiros podres que acabava agora de cortar e mastigar, com a ajuda de um canivete suíço e de 4 dentes castanhos. Limpou a boca à parte de trás da mão e eu ouvi a barba rija de 3 dias raspar nos pêlos pretos e enormes que cobriam todo o seu pulso. Terminou o movimento pousando o canivete ainda aberto sobre o pano de cozinha azul e branco em xadrez e todo manchado de nódoas amarelas de sumo de dióspiro.
Estávamos os dois sentados sobre a mesma grade de fruta de madeira, encostados à porta de trás de um restaurante em Shangai. Aquela rua tinha uns dois metros de largura e estava entalada entre dois prédios gigantescos, daqueles que sacodem para as traseiras os becos húmidos, sujos, negros e enferrujados como as tripas escondidas por baixo da pele. A sujidade cuspida pelos exaustores do restaurante aquecia-nos. Ouvíamos a cidade rugir mas apenas ao longe, mais baixinho que o gotejar verde dos algerozes e que o ranger oxidado das escadas de incêndio. Estávamos confortáveis.
- O dia em que morri foi a primeira coisa que a minha memória registou. - disse a boca donde escorriam os caroços viscosos. - Mas lembro-me tão bem como se tivesse sido ontem. É algo que não quero esquecer até ao dia em que voltarei a morrer e por isso todas as manhãs me certifico de que ainda me lembro. Assim como também me pergunto quanto é nove vezes três sempre que caio ou bato com a cabeça nalgum lado.
- Vinte sete. - disse eu para dentro. E anuí com um grunhido inaudível. Tinha o queixo apoiado na palma da mão direita e o olhar fixo no pensamento que se construía na parede escura à minha frente.
- A minha mãe era uma bêbeda descontrolada. - continuou. - Poucos eram os dias em que a via caminhar sem se esbarrar com as panelas empilhadas na cozinha. Culpava sempre os pés demasiado pequenos, todos torcidos e envoltos em ligaduras. Provocavam-lhe dores alucinantes e inflamavam com tanta facilidade que várias vezes se assemelhavam a dois cotos da cor do tomate e em forma de casco de boi. - o homem falava com três pedras na mão, mas procurava de forma doentia, com os seus olhos brilhantes, a minha compaixão.
- Pobre mulher! - consenti.
- Não! Bah!, era uma vaca! Teve o que mereceu! Encornou 5 vezes o meu pai mas também levou com tantas chibatadas da última vez que nunca mais o fez. Foi ela que me matou o juízo e foi o juízo que me matou a mim! - descarregou contente por o diálogo estar a levar o rumo que ele desejara.
- Tudo aconteceu quando ela, bêbeda que nem um cacho, sacudiu o meu pai que a amparava na cozinha. Disse que o odiava e que o queria matar. Tropeçou até à bancada de mármore e pegou numa faca que espetou no seu próprio coração. Foi então que com os olhos ébrios e cheios de lágrimas guinchou desafinada e muito baixinho "enganei-me!" e caiu redonda no chão.
No canto do olho via-lhe o brilho de uma lágrima difícil de conter. Percebi então como aquele velho estava vencido. Tinha mais rugas no coração que na cara. Passaram-se dois minutos em que não abrimos a boca e em que eu não cerrei os olhos fixos na face do homem. Disse-lhe eu então:
- Vou-lhe buscar uma cerveja.
- Não! Aquele foi o dia em que eu morri e não a minha mãe. Até agora só ela morreu na minha história...
- Vai ver que lhe custa menos com uma cerveja bem gelada na mão! Está uma humidade asfixante nesta cidade!
- Não! Senta-te! - tinha-me posto de pé mas voltei-me a sentar num ápice. A voz dele sabia bem como tocar as notas da persuasão.
Esperei mais um minuto e o velho começou de novo a falar.
- Eu e o meu irmão mais novo tínhamos visto tudo. Ele tinha apenas 3 anos e desatara a chorar. O meu pai deitou-se pelo chão em cima da minha mãe e fez o mesmo. Pôs-se então a gritar, com a alma toda que tinha vibrando-lhe na voz "Alma errante vem até nós! Alma errante vem até nós!...". E o meu irmão chorou ainda mais alto, balbuciando na fala que lhe era então possível qualquer coisa como "M'errante vem te-ché nó-ge!". Todo o meu corpo tremia de pânico. Estava invadido de medo e o ar tornara-se inacreditavelmente pesado e insuportável. Só queria salvar o meu irmão e o meu pai do seu sofrimento, mas vê-los chorar corroía-me a coragem. Comecei finalmente a dizer, primeiro em grunhidos e depois em espasmos, "Estou aqui! Eu estou aqui! Eu estou aqui, vem até mim!".
Foi então que morri!
Na China, quando alguém morre costumamos dizer "alma errante vem até nós". Assim sabemos que a alma de quem morre ficará entre nós e se irá alojar no corpo de alguém para continuar a sua vida. Quando eu disse "Estou aqui, vem até mim!" assim foi: eu morri e a minha mãe renasceu em mim.
Calou-se então. Eu olhei-o bem fundo e vi como ele acreditava com cada miolo do seu cérebro naquilo que dizia e revoltei-me:
- Mas isso não é possível! O que está a dizer?! Com certeza que não acredita no que diz!
- Desde então que sou um bêbedo desalmado! Tropeço mais que a minha mãe. Vivo na rua que nem um desgraçado à procura da morte que me faça nascer, mas não tenho coragem! Vês aquelas escadas? Já me enforquei no varão do terceiro andar. Pendurei-me por uma corda e deixei-me cair para a rua. Senti todo o ar sair-me dos pulmões, mas no último momento, quando os olhos já se esbugalhavam em tons de azul, peguei neste mesmo canivete e cortei a corda com as forças que tinha. Sou um cobarde, tal como a minha mãe...
- Mas isso não faz sentido nenhum! O senhor não pode passar a vida a tentar matar-se!
- Eu já morri!
Não sabia que dizer àquele velho. Vivera os seus 50 anos e mais qualquer coisa, pensando estar condenado à alma morta da sua mãe. Era impossível convencê-lo que não era assim.
O homem olhou para mim e desmascarou-me a incredulidade estampada na minha cara. Sem nada dizer arregaçou as calças e mostrou os pés mínimos todos encarquilhados e envoltos em ligaduras sujas de sangue. Pareciam dois cotos. Disse-me então: - Nunca chegaram a crescer...
Levantei-me e disse: - Vou-lhe buscar algo que se beba. - e fui em passo apressado comprar duas cervejas de rótulo dourado e cheio de dragões desenhados.
- Então e tu? - disse o homem após um golo prolongado. - Que é que andas aqui a fazer?
- Eu... encontrei um carro e vim para aqui. - o homem virou a cara para mim devagar e olhou-me como se eu fosse mais louco que ele.
- Como assim? - disse com a voz seca.
- Ahm, estava em Lisboa a passear o meu cão quando dou por um carro estacionado de portas fechadas e chave pendurada na fechadura do lado do condutor. A rua estava vazia. Não vi ninguém nas janelas em volta. O carro estava lá para mim, tenho a certeza. Alguém o deixou ali só para mim. Quem é que se esqueceria da chave assim pendurada daquela maneira?! Então decidi entrar. Torci a chave e abri a porta. Meti a chave na ignição e voltei a torcê-la até que o motor se ligou. No medidor do nível de combustível dizia "Cheio! Dá para ir à China e voltar!". Fiz marcha atrás, saí do lugar onde estava estacionado e vim para cá!
PCH
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