Once in a lifetime (parte 1)
“And you may find yourself living in a shotgun shack
And you may find yourself in another part of the world
And you may find yourself behind the wheel of a large automobile
And you may find yourself in a beautiful house, with a beautiful wife
And you may ask yourself: Well... How did I get here?”, Talking Heads
Há uns quinze anos atrás a minha mãe levou-me a mim e ao meu irmão pela primeira vez a visitar o escritório do meu pai em Porto Brandão, do outro lado da banda. Nessa altura, a única coisa que eu sabia era que o meu pai trabalhava com petróleos e que passava horas agarrado ao telefone a negociar tostões e a discutir a evolução do Brent com homens de voz grossa, que eu subentendia que falassem a mesma língua que ele. Por isso, para mim, esta viagem tinha tanto de inédita como de misteriosa. Era o meu primeiro contacto com o admirável mundo dos grandes. E assim que entrei no carro e que a minha mãe meteu o pé no acelerador, o meu coração começou a bater a um ritmo alucinante.
O escritório do meu pai estava plantado à beira do Tejo, entre os silos de cereais e a doca da Lisnave, e possuia uma das vistas mais previligiadas da margem sul sobre o estuário e sobre o Castelo de São Jorge. O meu pai costumava dizer à minha mãe, que não havia nada como chegar a Porto Brandão de madrugada e beber uma caneca de chocolate quente, sentado numa poltrona a ver o sol nascer e a ser reflectido pelos costados metalizados dos navios, que pareciam lesmas a deslizar rio acima. No entanto, aquilo que mais me fascinou quando cheguei a Porto Brandão, nem foi a lentidão com que os barcos lutavam contra a corrente, nem mesmo o tamanho gigantesco dos cargueiros e dos petroleiros, mas sim a quantidade ensurdecedora de troadas e de silvos que vinham de todos os lados e que de certo modo me lembravam a chinfrineira das cornetas no circo.
Quando chegámos, o meu pai já estava à nossa espera na entrada do prédio para nos fazer uma visita guiada pela empresa. Mostrou-nos as salas de reuniões, os escritórios, a sala de convívio. Apresentou-nos à secretária, que se chamava Sónia e que era o estereótipo da mulher gorda, de cabelo armado e voz estridente; ao porteiro, que era a pessoa que mais divertia o meu pai naquela empresa, porque era um fanático do Benfica com fífias na voz, que jogava no totobola e que traçava as tácticas para os jogos de domingo; e à recepcionista, que fez questão de comentar com os meus pais num tom bajulador: «Que Deus me agrida, se não são as crianças mais lindas que eu já vi na vida!». Depois de terminada a visita, o meu pai voltou-se para nós e disse:
- Antes de se irem embora, ainda vos quero levar a um lugar.
Há uns quinze anos atrás a minha mãe levou-me a mim e ao meu irmão pela primeira vez a visitar o escritório do meu pai em Porto Brandão, do outro lado da banda. Nessa altura, a única coisa que eu sabia era que o meu pai trabalhava com petróleos e que passava horas agarrado ao telefone a negociar tostões e a discutir a evolução do Brent com homens de voz grossa, que eu subentendia que falassem a mesma língua que ele. Por isso, para mim, esta viagem tinha tanto de inédita como de misteriosa. Era o meu primeiro contacto com o admirável mundo dos grandes. E assim que entrei no carro e que a minha mãe meteu o pé no acelerador, o meu coração começou a bater a um ritmo alucinante.
O escritório do meu pai estava plantado à beira do Tejo, entre os silos de cereais e a doca da Lisnave, e possuia uma das vistas mais previligiadas da margem sul sobre o estuário e sobre o Castelo de São Jorge. O meu pai costumava dizer à minha mãe, que não havia nada como chegar a Porto Brandão de madrugada e beber uma caneca de chocolate quente, sentado numa poltrona a ver o sol nascer e a ser reflectido pelos costados metalizados dos navios, que pareciam lesmas a deslizar rio acima. No entanto, aquilo que mais me fascinou quando cheguei a Porto Brandão, nem foi a lentidão com que os barcos lutavam contra a corrente, nem mesmo o tamanho gigantesco dos cargueiros e dos petroleiros, mas sim a quantidade ensurdecedora de troadas e de silvos que vinham de todos os lados e que de certo modo me lembravam a chinfrineira das cornetas no circo.
Quando chegámos, o meu pai já estava à nossa espera na entrada do prédio para nos fazer uma visita guiada pela empresa. Mostrou-nos as salas de reuniões, os escritórios, a sala de convívio. Apresentou-nos à secretária, que se chamava Sónia e que era o estereótipo da mulher gorda, de cabelo armado e voz estridente; ao porteiro, que era a pessoa que mais divertia o meu pai naquela empresa, porque era um fanático do Benfica com fífias na voz, que jogava no totobola e que traçava as tácticas para os jogos de domingo; e à recepcionista, que fez questão de comentar com os meus pais num tom bajulador: «Que Deus me agrida, se não são as crianças mais lindas que eu já vi na vida!». Depois de terminada a visita, o meu pai voltou-se para nós e disse:
- Antes de se irem embora, ainda vos quero levar a um lugar.
- Onde? – interrogámos os três em uníssono.
- Não queiram saber demais – respondeu o meu pai num tom triunfante. – Entrem no carro e confiem em mim.
O carro rolou durante uns bons quilómetros e só parou numa terreola nos arredores que dava pelo nome de Trafaria. A primeira impressão que tive, quando saí do carro, é que a Trafaria era um lugar ermo, esquartejado pelo vento e habitado por anões e por velhas de avental que nada tinham a acrescentar a um miúdo de sete ou oito anos como eu. Porém, depois de alguns minutos a andar sem destino anunciado, o meu pai chamou-me à atenção para os almirantes reformados a jogarem à bisca no jardim do município, para os pescadores sentados no lancil a cerzirem as redes depois de uma dura manhã na faina, para o pregão anedótico das varinas e eu aos poucos comecei a dar valor ao povo da Trafaria. Todos eles eram dignos do meu respeito, pois marchavam na solidão de cabeça erguida e sem nunca capitularem.
Entretanto parámos em frente a um casebre rústico, onde se podia ler «Antiga Casa Marítima» e o meu pai fez-nos sinal de que tinhamos chegado.
- Então era aqui que vinhamos – comentou a minha mãe com um semblante de algum desencanto. – Podias ter dito logo que nos querias levar a almoçar...
O meu pai sorriu.
- Tenham calma. Como é óbvio não vos trouxe aqui pelo almoço.
O carro rolou durante uns bons quilómetros e só parou numa terreola nos arredores que dava pelo nome de Trafaria. A primeira impressão que tive, quando saí do carro, é que a Trafaria era um lugar ermo, esquartejado pelo vento e habitado por anões e por velhas de avental que nada tinham a acrescentar a um miúdo de sete ou oito anos como eu. Porém, depois de alguns minutos a andar sem destino anunciado, o meu pai chamou-me à atenção para os almirantes reformados a jogarem à bisca no jardim do município, para os pescadores sentados no lancil a cerzirem as redes depois de uma dura manhã na faina, para o pregão anedótico das varinas e eu aos poucos comecei a dar valor ao povo da Trafaria. Todos eles eram dignos do meu respeito, pois marchavam na solidão de cabeça erguida e sem nunca capitularem.
Entretanto parámos em frente a um casebre rústico, onde se podia ler «Antiga Casa Marítima» e o meu pai fez-nos sinal de que tinhamos chegado.
- Então era aqui que vinhamos – comentou a minha mãe com um semblante de algum desencanto. – Podias ter dito logo que nos querias levar a almoçar...
O meu pai sorriu.
- Tenham calma. Como é óbvio não vos trouxe aqui pelo almoço.
BGL
comentários:
3 de outubro de 2007 às 18:45
pa fiquei curioso meu sacana!
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