domingo, 16 de setembro de 2007

O Desertor

Pai Shi é o nome do único sobrevivente de um grupo de duzentos homens que, na década de 60, se opuseram ao regime de Mao Zedong e foram perseguidos até ao limiar do deserto do Gobi, na fronteira da China com a Mongólia. Segundo reza a história, o general responsável por capturar e estropiar os contestários não lhes deu tréguas durante anos a fio, até ao dia em que soube pelos habitantes da aldeia de Ha-la-mu-p'ei, a sul do Gobi, que eles tinham sido vistos a entrar no deserto, pelo estreito de Altun Shan. «Que se fodam os rebeldes», terá praguejado ele na altura, «Ainda hão de se arrepender de não se terem entregue». O general era um facínora incansável e deixou-o bem claro ao assassinar todas as mulheres de Ha-la-mu-p'ei, naquele que ficou conhecido como o massacre dos lírios, mas até ele tinha os seus princípios e um deles passava por jamais entrar no Gobi.

O Gobi é conhecido por ser um dos mais inóspitos desertos do mundo, com uma extensão de quase 1500 quilómetros e com uma temperatura a rondar os zero graus centígrados. É um deserto gelado, cercado pelos montes Altun, Qilian e Kunlun, no norte da China e que se prolonga em tons azulados e roxos até ao sul da Mongólia, numa paisagem de dunas cobertas de gelo, de lagos silenciosos e de estepes áridas, patrulhadas por lobos e por leopardos. Diz quem lá esteve, que o Gobi é o lugar na terra em que mais próximo se está do outro mundo, em que mais nos abstraímos do corpo e de tudo o que alcançámos nesta vida, para passarmos a dar valor a coisas tão trancendentais como o silêncio. Aqueles que não conseguem elevar o espiríto, têm os dias contados numa prova de resistência como o Gobi.

Nem sete dias foram necessários para que a profecia do general se tornasse realidade. Rapidamente os companheiros de Pai Shi começaram a ceder à fome, ao frio e à loucura. Estavam totalmente perdidos no meio do deserto e já era tarde demais para voltar atrás quando deram por isso. A espaços, os mais fracos de espiríto abandonavam o pelotão a correr desenfreadamente, num último grito de sobrevivência, e eram encontrados minutos depois a serem devorados por um urso esfomeado. Havia também aqueles que sucumbiam aos próprios fantasmas e que procuravam a saída mais fácil daquele inferno no cano de uma caçadeira. O general estava certo. Todos eles acabariam por se arrepender de alguma vez terem entrado naquele deserto e por perceber que não havia tortura humana capaz de ombrear com a tormenta física e psicológica de atravessar o Gobi. E um por um, todos eles foram ficando pelo caminho, até restar apenas Pai Shi.

Na década de 90, um grupo de arqueólogos que estavam a explorar o Gobi, em busca de novos vestígios de ovos pré-históricos, encontraram uma caravela encalhada em pleno deserto. Depois da surpresa inicial, o entusiasmo tomou conta do grupo e aquilo que era suposto ser uma pesquisa de rotina, culminou com a descoberta de que em tempos idos o mar tinha chegado ao Gobi. Porém, como se não bastasse, quando o grupo de exploradores entrou na caravela para recolher material de investigação, depararam-se com um homem de pele e osso refugiado no convés. Era Pai Shi e estava irreconhecível. Tinha as costelas saídas, uma barba branca que lhe caía até aos pés e um semblante descarnado e inerte, como se os anos e o frio se tivessem encarregue de lhe remover a expressão facial. Os exploradores tentaram comunicar com ele, mas depois de vinte cinco anos na solidão Pai Shi parecia ter desaprendido de falar (vieram a constatar mais tarde que não era por falta de vontade que ele não comunicava, mas porque tinha devorado a própria língua num Inverno mais cerrado, em que a fome tinha apertado).

Os arqueólogos acharam então interessante chamar uma equipa de reportagem chinesa para entrevistar Pai Shi, que não parecia minimamente inclinado a regressar à civilização. A equipa de reportagem aterrou no Gobi passado uma semana e quando lá chegou já só encontrou os ossos dos arqueólogos e uma mensagem escrita com sangue no porão da caravela, em que se podia ler: «Mao, desiste de me encontrar. Nunca me apanharás». Os repórteres regressaram assim com um trabalho bem diferente do inicialmente previsto e que relembrou às pessoas o poder da memória. «Quem é vivo nunca esquece», foi o nome que deram à reportagem, onde concluiam que o grupo de arqueólogos eram as mais recentes vítimas das atrocidades de Mao Zedong.

Nunca mais ninguém ouviu falar de Pai Shi, mas o mais certo é que já tenha morrido algures no deserto do Gobi. Depois da reportagem ter sido publicada e contrariamente ao que se poderia esperar, Pai Shi tornou-se num ídolo chinês e num porta-voz da revolta intemporal contra o regime de Mao. Também ele o que queria era ser livre e viver em paz. Também ele era uma vítima do nosso mundo. O povo fez-lhe justiça.

BGL

2 comentários:

Das duas uma: ou vou ser leitor assiduo, ou vou convosco!
bom começo malta!gostei!
Escrevem bem e quando estiverem la vai saber vos bem saber o que de mais importante la se passou.assim escusam de pagar a guias que as vezes nem falam

(e fui o primeiro a comentar!hehe:D)