quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Para lá do Reino do Prestes João

Boidi era um bicho estranho que falava de forma estranha, como se a própria língua-mãe lhe fosse alheia ou pouco rodada. Dizia as coisas de forma fluente mas tropeçava na conjugação dos verbos, nos advérbios, na aplicação do feminino ou masculino. Para compensar tinha uma só perna com a qual tanto corria mais depressa que um cavalo de seis cascos, como rastejava mais ligeiro e traiçoeiro que um caracol ou uma cobra. O cucuruto da sua cabeça peluda e poeirenta não ultrapassava a altura do nosso umbigo, mas uma vez enfurecido era capaz de virar de pernas para o ar um búfalo que corresse enraivecido na sua direcção.
Boidi vivia no reino do Prestes João algures na Pérsia desconhecida. Aos domingos costumava jogar futebol com os seus amigos sem cabeça e com boca, olhos e nariz colados ao peito e à barriga. Achava engraçado quando estes se amedrontavam das boladas mais violentas e se enrolavam nas suas orelhas gigantescas de elefante asiático, troçando-lhes em gestos e guinchos e reboliços de riso histérico, o facto de mesmo com aquelas espalhafatosas orelhas os blémios serem surdos por natureza. Quando estes, num desses domingos, finalmente entenderam a natureza satírica dos seus ataques de alegria, Boidi teve de correr mais rápido que nunca para bem longe da sua terreola, até que os blémios não o vissem mais nem a ele nem à coluna de poeira que a sua patada única ia deixando para trás.
Guinédia era uma cidade muito alta, talhada no calcário de que eram feitas as montanhas por ali. Subia cinzenta em escarpa, fugindo à vulnerabilidade da planície que a banhava lá em baixo. Era um pouco como ver uma multidão de bichos em forma de casas de pedra fugir de um dilúvio de terras baixas e verdejantes.
Nesse dia Boidi correu para leste e riu notas demasiado agudas durante horas seguidas, e só parou mesmo quando se deu conta da fome que tinha. Virou um búfalo de pernas para o ar (a fome tornava-o irascível) matou-o com um pontapé no pescoço e comeu-lhe um bocado de lombo aquecido numa fogueira improvisada. Já sorria de novo, ameaçando mesmo novos laivos de tresloucura, quando o som fino da lâmina que tina no ar lhe alisou a boca e a mente: dois homens padres e duas espadas reluzentes tremiam seguras e tocavam ligeiramente a maçã-de-Adão de Boidi a cada golo em seco que este dava. Diziam ser portugueses. Procuravam o abençoado Reino do Prestes João.
- Pois parabéns. Cá estão!
- Como te atreves seu bicho nojento! Animal falante e herege! No Santíssimo Reino do Prestes João jamais entraria uma criatura tão hedionda e tão abominável como tu! Como te atreves?!
Desenhou-se suave um rasgo de azul cortante que se esmagou num Cling!:
- Não o mates!
Uma espada salvou Boidi da outra espada e uma mentira pôs aqueles dois dali para fora. Eles que seguissem mais para Leste para os lados da China, eles que subissem por cima dos Himalaias e descessem depois do outro lado e lá estariam: no reino que em tempos foi do Prestes João mas que agora é do Cataio. O que Boidi não esperava era que eles o levassem também a ele, para que os guiasse pelos trilhos.

E assim foi que em 1624 dois padres jesuítas portugueses e um Boidi chegaram pela primeira vez vindos do Ocidente ao Tibete. Os dois homens voltaram a Portugal com a notícia de um reino descoberto e com a lenda de um macaco de uma perna só, que é abominável e que vive nas neves dos Himalaias.

PCH

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