Destino: China
Estou sentado no topo de um pináculo granítico que cobre de sombra uma aldeia com um nome qualquer, daqueles que começam por Y ou W ou Z e que nos surpreendem a cada sílaba. À minha frente repete-se uma infinidade de pináculos todos toscos e diferentes uns dos outros. Lá em baixo, por trás da bruma transpirada pela terra húmida, distingo as telhas toscas e os telhados tombados das casas escuras de um só andar que parecem nunca terem sido novas. Ainda mais em baixo está o rio Yangzte a gorgolejar. Está a uns mil metros de distância mas basta um passo distraído e é lá que vou parar. Oiço os resmungos duma velha que me guiou até cá acima depois de hora e meia de linguagem gestual. Queria o dinheiro que eu lhe prometera.
- Oiça: por 100 yuans ando eu de teleférico na Expo 98.
- Qui yu-ming shuenzhou! ... Grrrr ... ha-huan lishuaizhé! Ping-pong shao shao!
- 20 yuans e não se fala mais nisso!
- PI-WUING SHITZÉ MA!!!
- Pronto pronto, também não é caso para tanto! 35 yuans e dá-me também esse triângulo que leva na cabeça. - e apontei.
Calou-se, bufou, pôs-me o chapéu, deu-me um beijinho e lá fomos pináculo acima. Tinha os seus 70 anos disfarçados de 90 pelas rugas e verrugas que se confundiam com a boca e os olhos. O cabelo parecia o monte de pêlos mortos que se prendem na escova quando escovo o meu cão, mas maiores. Era baixinha e tinha os pés mínimos, esmagados por anos de ditaduras e ligaduras. A roupa era uma mancha preta. Uma pincelada só! Era indiferente discernir as partes que constituíam o todo, porque nada mais se via senão Preto.
Dei-lhe os 35 yuans. Abriu a boca para dizer qualquer coisa incompreensível mas desta vez estiquei eu os olhos e gritei-lhe:
- PI-WUING SHITZÉ MU!!! - ela anuiu.
Vai ser assim. A velha mais o chapéu já lá estão e o pináculo também. Eu estou cá. 10 meses, um avião e umas camionetas.
Tudo isto deixará de ser imaginação.
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