O Gobi é conhecido por ser um dos mais inóspitos desertos do mundo, com uma extensão de quase 1500 quilómetros e com uma temperatura a rondar os zero graus centígrados. É um deserto gelado, cercado pelos montes Altun, Qilian e Kunlun, no norte da China e que se prolonga em tons azulados e roxos até ao sul da Mongólia, numa paisagem de dunas cobertas de gelo, de lagos silenciosos e de estepes áridas, patrulhadas por lobos e por leopardos. Diz quem lá esteve, que o Gobi é o lugar na terra em que mais próximo se está do outro mundo, em que mais nos abstraímos do corpo e de tudo o que alcançámos nesta vida, para passarmos a dar valor a coisas tão trancendentais como o silêncio. Aqueles que não conseguem elevar o espiríto, têm os dias contados numa prova de resistência como o Gobi.
Nem sete dias foram necessários para que a profecia do general se tornasse realidade. Rapidamente os companheiros de Pai Shi começaram a ceder à fome, ao frio e à loucura. Estavam totalmente perdidos no meio do deserto e já era tarde demais para voltar atrás quando deram por isso. A espaços, os mais fracos de espiríto abandonavam o pelotão a correr desenfreadamente, num último grito de sobrevivência, e eram encontrados minutos depois a serem devorados por um urso esfomeado. Havia também aqueles que sucumbiam aos próprios fantasmas e que procuravam a saída mais fácil daquele inferno no cano de uma caçadeira. O general estava certo. Todos eles acabariam por se arrepender de alguma vez terem entrado naquele deserto e por perceber que não havia tortura humana capaz de ombrear com a tormenta física e psicológica de atravessar o Gobi. E um por um, todos eles foram ficando pelo caminho, até restar apenas Pai Shi.
Na década de 90, um grupo de arqueólogos que estavam a explorar o Gobi, em busca de novos vestígios de ovos pré-históricos, encontraram uma caravela encalhada em pleno deserto. Depois da surpresa inicial, o entusiasmo tomou conta do grupo e aquilo que era suposto ser uma pesquisa de rotina, culminou com a descoberta de que em tempos idos o mar tinha chegado ao Gobi. Porém, como se não bastasse, quando o grupo de exploradores entrou na caravela para recolher material de investigação, depararam-se com um homem de pele e osso refugiado no convés. Era Pai Shi e estava irreconhecível. Tinha as costelas saídas, uma barba branca que lhe caía até aos pés e um semblante descarnado e inerte, como se os anos e o frio se tivessem encarregue de lhe remover a expressão facial. Os exploradores tentaram comunicar com ele, mas depois de vinte cinco anos na solidão Pai Shi parecia ter desaprendido de falar (vieram a constatar mais tarde que não era por falta de vontade que ele não comunicava, mas porque tinha devorado a própria língua num Inverno mais cerrado, em que a fome tinha apertado).
Nunca mais ninguém ouviu falar de Pai Shi, mas o mais certo é que já tenha morrido algures no deserto do Gobi. Depois da reportagem ter sido publicada e contrariamente ao que se poderia esperar, Pai Shi tornou-se num ídolo chinês e num porta-voz da revolta intemporal contra o regime de Mao. Também ele o que queria era ser livre e viver em paz. Também ele era uma vítima do nosso mundo. O povo fez-lhe justiça.