Saiu pela porta por onde entrara e ficou parado 10 passos adentro da praça branca, os olhos encandeados pelo sol, caído numa apatia vazia de pensamentos. Era frequente em Santiago tropeçar nestes momentos pseudo-nostálgicos. Sem mais nem menos alheava-se de tudo e punha o mundo à prova, "E se eu ficasse por aqui? Aqui mesmo parado e sem fazer nada, sem pensar em nada? E se não fosse trabalhar? E se não voltasse para casa? O que é que me obriga a mexer daqui para fora?" e depois destas lucubrações mergulhava a cabeça no abstracto e todo ele era apenas os seus sentidos sem nenhuma razão que os conduzisse. Sem dar por nada fumava um cigarro encostado a um daqueles candeeiros de rua em estilo art-déco, pintados de verde e rematados de dourado. Entravam-lhe pelos ouvidos os gritos histéricos e excitados dos miúdos da 4ª Classe todos brancos de cima a baixo, com bonés amarelos pendurados nas cabeças. Entretia os olhos com a tentativa frustrada das professoras de os tentar alinhar em qualquer coisa parecida com uma fila indiana. Pela altura dir-se-ia que tinham a mesma idade que os miúdos. Mas eram velhas e feiosas. Atarracadas, costas naturalmente curvadas, com os rabos enormes, daqueles que se invadem costas acima, espetados por debaixo das saias de flanela de cor duvidosa, compridas até perto das canelas. O fecho éclair a imitar o rego. As duas cabeças de cabelo grisalho, disfarçado de vermelho acastanhado gritantemente falso, estavam frenéticas. Eram a imagem perfeita da tensão arterial. Estavam desesperadas. Chocolates que caíam ao chão e rebulavam para longe; yo-yo's que se soltavam das mãos; chapadas nas nucas que deitavam os bonés pelo ar e que geravam birras de gritos agudos que acabavam chorados; os miúdos eram insuportáveis. Nisto Santiago pensava como faria algum sentido que a altura das pessoas fosse um requisito para se ser professor da primária. E o porte físico e a saúde mental também. E o colestrol mais ainda. "Desculpe, na nossa escola só aceitamos candidatos com menos de 180 de colestrol. Os seu nível ultrapassa os 185, lamento.", "Parabéns pelos seus bícepes, está contratado!".
Depois foi a voz rouca do velho maluco do outro lado da praça que lhe chamou a atenção. Voltou-lhe o olhar e viu que não era velho nem maluco mas mesmo assim não acreditou, porque não é essa a ordem natural das coisas. Quem vive na rua é sempre velho e maluco. E mesmo que não seja passou a sê-lo por decreto, naquela primeira noite em que se enfiou dentro de uma caixa de cartão e dormitou às portas do Ministério da Agricultura e das Pescas, finalmente apaziguado pela miséria extrema. Porque caíra no abismo mais profundo. Era impossível que a vida doesse mais que aquilo. Que a penúria se esvaziasse ainda mais. Atingira o mínimo de felicidade: finalmente o consolo e a paz de espírito!
Agora declamava poesia a troco de moedas. Escrita por ele, via-se bem. O seu pulmão soluçava como um escape duma lambreta orgulhosa. As lambretas são sempre orgulhosas. Primeiro Santiago ouviu sem entender e sorriu comovido. Mas depois tentou compreender: ouviu as primeiras palavras e procurou o sentido nos versos que se seguiam. Ancorava o que ouvia depois no que ouvira antes e os versos escorriam sem que nenhum se encadeasse e de repente Santi entendeu que nada se entendia. Que eram apenas frases desconexas. Começavam e terminavam como dizeres isolados. Era como ler um dicionário e cantar em tom de poesia:
"O amor:
Amor é substantivo masculino.
Amor vem do latim amore,
Amor é viva afeição,
Amor impele para o objecto dos nossos desejos,
Inclinação da alma,
Inclinação do coração.
É o objecto da nossa afeição,
Paixão,
Afecto.
Com amor é com muito gosto.
Com amor é com zelo.
Fazer amor é ter relações sexuais.
Por amor de Deus é por caridade.
Por amor à pele é ser prudente,
É não arriscar a vida.
É captativo,
Conjugal,
Oblativo,
É platónico ou possessivo!"
Óscar Rimenez fora pedreiro. Mas pedreiro a sério. Nunca empilhara tijolos nem picara paredes, não esburacara calçadas nem as calcetara, não usara fios-de-prumo para desenhar janelas, nunca tocara sequer em mistura de cimento. Óscar fora pedreiro a sério. Trabalhara numa pedreira de mármore negro. Vira-a nascer. Ele próprio nascera em cima dela. E lá vivera, sozinho com a sua mãe.
- Até que um dia uma Caterpillar estacionou em frente a minha casa, que era pequena e isolada no meio da Andaluzia e por isso era estranho que ali estacionasse uma caterpillar. Depois multiplicou-se e eram já umas quinze amarelas e pretas, umas atrás das outras, todas iguais mas todas diferentes: umas em corno pontiagudo para perfurar, outras com bocas largas como sapos, outras com braços gigantescos que acabavam em bocas pequeninas como bicos de periquito mas pretos. De dentro delas saíram uns homens com uma pasta de papeis agrafados e um envelope castanho na mão que valia mais que os tijolos da minha casa. A mãe soltou uma lágrima. Depois disse que sim com a cabeça, porque afinal eles tinham papeis com cifrões desenhados e eram do Franco esses papeis. Agarrou no envelope enchumaçado e em tudo o que podia levar com as mãos e deixou a casa.
- E tu? - perguntou-lhe Santi.
Ouvia a história e absorvia o olhar nas nuvens de fumo especialmente peculiares e multiformes que Óscar conseguia criar com os restos do cigarro que Santiago lhe cedera. Era quase concebível que de repente lhe saísse da boca para fora uma escavadora amarela e preta em sinais de fumo. Depois esfumou-se e viu que Óscar o olhava com cara de poucos amigos:
- Eu o quê?
- Ficaste?
- Como assim fiquei? Achas que isso fazia algum sentido? A minha mãe deixar-me com 15 anos abandonado no meio daquela gente?
- Não... - que idiotice de pergunta, agora percebia-o. Santi quase tremia. - não fazia sentido nenhum, tens razão. Desculpa, perguntei por perguntar...
Óscar olhava agora em frente para os putos da escola. Remoía qualquer coisa. Repisava-se tanto por dentro que mexia o lábio de baixo furioso, para dentro e para fora, trincando-o pelo meio e à barba grisalha de 5 dias também. O sobrolho muito carregado. Estava bastante contrafeito.
- Mas então para onde foram viver? - arriscou. - Havia alguma aldeia ao pé...
- Eu fiquei! - interrompeu Óscar com os dentes - Tu é que já me estragaste essa parte da história, que é a que eu gosto mais portanto já não tem graça nenhuma estar para aqui a falar.
Fez uma pausa e tirou do bolso do casaco, que afinal era azul, uma garrafinha individual de gin. Estava a 1/4. Bebeu-a toda dum trago com a pronúncia de 10 litros. Depois num suspiro reconciliado que incluiu enfiar as mãos nos bolsos num encolher de ombros disse: - Costumo dizer sempre que depois de agarrar no envelope castanho e na máquina de costura não sobrou nenhuma mão para mim. Por isso fiquei. Agarrei-me a uma picareta e eu próprio destruí o seu quarto. E depois o meu e a cozinha e a casa de banho. E só não deitei a baixo mais nada, porque a casa era tão miseravelmente pequena que nem sala tinha, ou um corredor que fosse.
Nisto riu-se e disse depois:
- O meu quarto tinha chão de cimento! Não é irónico? Cobrir uma mina do mármore mais raro da Península com um manto de cimento?! É como dormir em cima de lingotes de ouro e comer pão duro todos os dias sem dar por nada.
- Ou como dar com a cabeça num dicionário, porque não conseguimos escrever um poema. - chutou Santiago de repente.
Óscar riu-se até os dois pulmões secarem e começarem a tossir saliva aos perdigotos que depois se misturaram com as lágrimas.
- Nunca ninguém percebeu isso até hoje! - disse finalmente. - Venho para aqui todos os dias ler o dicionário pausadamente e em voz alta, há 7 anos e nunca ninguém comentou isso comigo. - Depois riu-se mais e mostrou-lhe o dicionário com Post-it's colados que marcavam as páginas com as definições mais apaixonadas
- As pessoas ou são estúpidas e me dão dinheiro pela comiseração que sentem ao ouvir versos tão verdadeiros, ou são casais de estrangeiros burros e me dão dinheiro porque não percebem nada.
Baixa a cabeça e olha para o chão. Faz uma pausa. Depois olha de novo o infinito e continua a pensar alto:
- Para eles tudo faz sentido quando aqui vêm. Passeiam no Retiro, vêem os barcos no lago artificial e pensam que em 1600 já ali havia barquinhos apaixonados. Por isso agarram-se e dão um beijinho. Depois saem em direcção ao Sofia e passam pelo Raúl que está a meio da rua das barraquinhas às cores que vendem livros, a tocar músicas melífluas no saxofone. Chegam-se mais perto, ouvem melhor, abraçam-se e dão um beijinho. Seguem de mão dada, ombros colados e chegam aqui à praça e o Museu encadeia branco e brilhante, resplandecente ao sol. Abraçam-se mais ainda e entram. O museu é feito de corredores de janelas altas que rodeiam em quadrado um jardim de árvores imensas, verdes e frescas, cheias de sombra. Tudo é perfeito, porque os quadros também são perfeitos. Até que vem o Guernica que eleva a perfeição ao primoroso e por isso agarram-se onde ainda faltava agarrar e adoram-se um ao outro. Saem do museu com a certeza de que tudo é certo e harmonioso. E aí estou eu que declamo qualquer coisa que só pode ser bonita. Ouvem-me dois minutos e é tão bonito que é quase como se fosse eu o cavalo que grita com um corno saliente no lugar da língua e uma lança espetada no meio do lombo. Mas eu sou pobre e estou mal vestido e eventualmente eles dão-se conta disso. Não pode ser! Está errado! É preciso mudar isto! Por isso dão-me dinheiro para que coma e compre roupas novas.
Suspira:
- O mundo deles segue perfeito, o meu vai menos mal.
- O Guernica! Ah! Tenho que ir trabalhar. Estou atrasadíssimo! Sou guarda do museu. Até já. Quando sair venho ter contigo.
- Cá estarei.
E foi.
PCH
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008
| [+/-] |
Guernica (parte 2) |
| [+/-] |
Taxi Driver |
1
Adriano olhou pelo canto do olho para o relógio no tablier do táxi e, depois de um segundo a meditar, encheu o peito de ar e soltou um longo suspiro. Eram quatro e um quarto da manhã. Ainda lhe restavam umas boas três horas de condução pela frente, o que, numa noite bem conseguida, equivaleria a transportar uns quatro ou cinco clientes. Normalmente eram miúdos a cair de bêbados, que batiam com a porta com uma força desmedida e que nem a morada conseguiam soletrar. Se bem que pelos estofos de pele do seu Mercedes-Benz passavam diariamente todo o tipo de pessoas. Desde prostitutas com os vestidos amassados e a maquilhagem borratada, a regressarem de casa de um cliente; até homens de negócios, todos aperaltados e cheios de pressa para apanhar um avião. Em vinte anos de profissão Adriano nunca se recusara a transportar ninguém e só por uma vez se vira obrigado a expulsar um homem por conduta imprópria. Este era, aliás, um dos seus grandes orgulhos e volta e meia confessava-o a um cliente mais conversador, com um brilho nos olhos, como quem ergue um troféu.
Atravessou a rua D. Carlos I a oitenta à hora. O carro avançava aos soluços pelo chão de calçada e estremecia freneticamente, dando a sensação de se estar a desintegrar. «Já estava na hora de alcatroarem esta merda», resmoneou ele, cansado dos solavancos, enquanto passava a mão direita pela cara pálida e descarnada. Percorreu a rua até ao cimo e no cruzamento queimou um vermelho e virou à esquerda, na direcção da Estrela. Na rádio passavam os Police, com a música Roxanne. A voz rouca e inebriante do Sting não tardou a encher o carro, como um gás venenoso que mexe com o humor, e assim que ele bradou «You don’t have to sell your body to the night», um estranho sentimento de comiseração veio alojar-se entre os pulmões do taxista, junto à traqueia, dando-lhe a impressão de ter um nó na garganta. Adriano mudou rapidamente de estação e esmagou o acelerador com o pé. A comiseração era um sentimento que pessoalmente abominava, nenhum ser humano deveria ter a ousadia de sentir pena, porque o simples acto de sentir pena é um acto de soberba, de sobreposição de um indivíduo face a outro, um ataque à própria condição humana. Também ele, à sua maneira, vendia o corpo à noite e perturbava-o sequer imaginar que houvesse alguém no mundo que tivesse pena de si.
Estava imerso nestes pensamentos, quando a basílica da Estrela começou lentamente a erguer-se ao final da rua, envolta numa luz branca que transbordava melancolia e que lhe emprestava um ar ainda mais místico e sombrio. Adriano desacelerou. Uma das grandes vantagens de ser motorista nocturno era poder observar a cidade no seu estado de maior vulnerabilidade, totalmente exposta e desarmada, pois era nessa altura que a cidade se revelava, que os monumentos exibiam toda a sua grandiosidade, que as vozes dos poetas ecoavam pelas ruas, ressuscitadas pela memória, que as praças se despiam das pessoas e ficavam entregues ao barulho da água a correr nas fontes. E enquanto rolava calmamente na direcção da basílica, apercebeu-se do previlégio que tinha em conhecer aquela cidade como poucos e, por momentos, sentiu um grande orgulho na sua profissão. Mas como homem sério e realista que era, não tardou a enxotar os sentimentalismos e a concentrar-se no trabalho.
Poucos segundos depois passou em frente ao jardim da Estrela. Foi quando se lembrou de consultar novamente o relógio no tablier do táxi. À medida que a noite avançava, Adriano tornava-se sucessivamente mais obstinado com as horas e sondava inúmeras vezes o relógio, como uma criança que repete impacientemente o ritual de contar as páginas que lhe faltam para acabar um livro. Ainda não eram quatro e vinte. Voltou a sentir uma opressão no peito, mas desta vez conteve o suspiro, numa clara tentativa de desafiar os seus mecanismos biológicos. Não havia ninguém nas imediações da Estrela, por isso continuou para a avenida Infante Santo. O importante era não desanimar.
As últimas horas eram as mais dolorosas. Dentro em breve o sol apareceria, os pombos inundariam as linhas do eléctrico e a cidade começaria a fervilhar um pouco por todo o lado. Adriano nutria um ódio muito especial pelos pombos. Nos primeiros tempos de motorista nem dava por eles, como se não passassem de uma particularidade estética da capital, uma espécie de sinal na bochecha ou de cicatriz no pescoço. Porém, com os anos, o atrevimento dos bichos não lhe escapou despercebido. Havia vezes em que lhe passavam um vôo rasante e quase desencadeavam um despiste, outras cagavam-lhe o vidro acabado de lavar, como se estivessem à espreita do momento em que poderiam causar maior estrago, e, de tempos em tempos, escondiam-se debaixo do carro durante semanas e minavam-lhe os circuitos todos do Mercedes-Benz. Mas o que mais o irritava nos pássaros era mesmo a liberdade. Numa das suas muitas noites de expediente chegara à conclusão que nenhum ser vivo devia ter direito a ser tão livre. Era injusto para todos os outros. E, desde então, olhava para os pombos com um revigorado sentimento de raiva e não experimentava a menor tristeza quando por acaso atropelava um com o seu Mercedes.
Os segundos semáforos da Infante Santo estavam vermelhos. Adriano parou o táxi e apertou a caixa de velocidades com um movimento tenso. Sentia-se desconfortável parado à noite em Lisboa. Enquanto o sinal não mudava, vinham-lhe à memória todas as histórias macabras que lhe tinham chegado aos ouvidos na sua longa carreira de motorista e um medo corrosivo escorria-lhe pela espinha e acelerava-lhe os batimentos cardíacos. Assim que o sinal dos peões ficou vermelho, Adriano meteu primeira e preparou-se animicamente para arrancar. Mas, nesse exacto momento, ouviu um estalido e a porta do lado direito abriu-se.
- Boa noite. Está de serviço? – interrogou um homem alto e de feições bonitas, enfiando a cabeça dentro do carro.
- Sim, sim... Claro... Sente-se... – gaguejou o Adriano, com um sorriso amarelo e os músculos petrificados de susto – E para onde é que vai ser?
O homem sentou-se no lugar do morto e depois de um segundo de hesitação murmurou:
- Para lugar nenhum em especial. Leve-me para onde quiser, que a mim o que me apetece é andar de carro.
Adriano olhou fixamente para o passageiro e sentiu um aperto no coração. Era um homem elegante, mas assustadoramente sombrio. Tinha um olhar turvado e distante, que vagueava apaticamente de um lado para o outro, como se as coisas deste mundo nada lhe dissessem. Adriano arrependeu-se de o ter deixado entrar e teve vontade de lhe pedir que saísse. Mas o seu lado mais ponderado não demorou a desconsiderar essa hipótese. «Tens uma reputação a manter», pensou ele para dentro, «Vais ver que não passa de um cliente como todos os outros». Porém, assim que meteu primeira e arrancou, o homem pediu-lhe numa voz taciturna que desligasse o rádio e Adriano teve a certeza que aquele não era um cliente como os outros e que aquela viagem, de uma maneira ou de outra, lhe havia de ficar gravada na memória durante muito tempo. BGL
Atravessou a rua D. Carlos I a oitenta à hora. O carro avançava aos soluços pelo chão de calçada e estremecia freneticamente, dando a sensação de se estar a desintegrar. «Já estava na hora de alcatroarem esta merda», resmoneou ele, cansado dos solavancos, enquanto passava a mão direita pela cara pálida e descarnada. Percorreu a rua até ao cimo e no cruzamento queimou um vermelho e virou à esquerda, na direcção da Estrela. Na rádio passavam os Police, com a música Roxanne. A voz rouca e inebriante do Sting não tardou a encher o carro, como um gás venenoso que mexe com o humor, e assim que ele bradou «You don’t have to sell your body to the night», um estranho sentimento de comiseração veio alojar-se entre os pulmões do taxista, junto à traqueia, dando-lhe a impressão de ter um nó na garganta. Adriano mudou rapidamente de estação e esmagou o acelerador com o pé. A comiseração era um sentimento que pessoalmente abominava, nenhum ser humano deveria ter a ousadia de sentir pena, porque o simples acto de sentir pena é um acto de soberba, de sobreposição de um indivíduo face a outro, um ataque à própria condição humana. Também ele, à sua maneira, vendia o corpo à noite e perturbava-o sequer imaginar que houvesse alguém no mundo que tivesse pena de si.
Estava imerso nestes pensamentos, quando a basílica da Estrela começou lentamente a erguer-se ao final da rua, envolta numa luz branca que transbordava melancolia e que lhe emprestava um ar ainda mais místico e sombrio. Adriano desacelerou. Uma das grandes vantagens de ser motorista nocturno era poder observar a cidade no seu estado de maior vulnerabilidade, totalmente exposta e desarmada, pois era nessa altura que a cidade se revelava, que os monumentos exibiam toda a sua grandiosidade, que as vozes dos poetas ecoavam pelas ruas, ressuscitadas pela memória, que as praças se despiam das pessoas e ficavam entregues ao barulho da água a correr nas fontes. E enquanto rolava calmamente na direcção da basílica, apercebeu-se do previlégio que tinha em conhecer aquela cidade como poucos e, por momentos, sentiu um grande orgulho na sua profissão. Mas como homem sério e realista que era, não tardou a enxotar os sentimentalismos e a concentrar-se no trabalho.
Poucos segundos depois passou em frente ao jardim da Estrela. Foi quando se lembrou de consultar novamente o relógio no tablier do táxi. À medida que a noite avançava, Adriano tornava-se sucessivamente mais obstinado com as horas e sondava inúmeras vezes o relógio, como uma criança que repete impacientemente o ritual de contar as páginas que lhe faltam para acabar um livro. Ainda não eram quatro e vinte. Voltou a sentir uma opressão no peito, mas desta vez conteve o suspiro, numa clara tentativa de desafiar os seus mecanismos biológicos. Não havia ninguém nas imediações da Estrela, por isso continuou para a avenida Infante Santo. O importante era não desanimar.
As últimas horas eram as mais dolorosas. Dentro em breve o sol apareceria, os pombos inundariam as linhas do eléctrico e a cidade começaria a fervilhar um pouco por todo o lado. Adriano nutria um ódio muito especial pelos pombos. Nos primeiros tempos de motorista nem dava por eles, como se não passassem de uma particularidade estética da capital, uma espécie de sinal na bochecha ou de cicatriz no pescoço. Porém, com os anos, o atrevimento dos bichos não lhe escapou despercebido. Havia vezes em que lhe passavam um vôo rasante e quase desencadeavam um despiste, outras cagavam-lhe o vidro acabado de lavar, como se estivessem à espreita do momento em que poderiam causar maior estrago, e, de tempos em tempos, escondiam-se debaixo do carro durante semanas e minavam-lhe os circuitos todos do Mercedes-Benz. Mas o que mais o irritava nos pássaros era mesmo a liberdade. Numa das suas muitas noites de expediente chegara à conclusão que nenhum ser vivo devia ter direito a ser tão livre. Era injusto para todos os outros. E, desde então, olhava para os pombos com um revigorado sentimento de raiva e não experimentava a menor tristeza quando por acaso atropelava um com o seu Mercedes.
Os segundos semáforos da Infante Santo estavam vermelhos. Adriano parou o táxi e apertou a caixa de velocidades com um movimento tenso. Sentia-se desconfortável parado à noite em Lisboa. Enquanto o sinal não mudava, vinham-lhe à memória todas as histórias macabras que lhe tinham chegado aos ouvidos na sua longa carreira de motorista e um medo corrosivo escorria-lhe pela espinha e acelerava-lhe os batimentos cardíacos. Assim que o sinal dos peões ficou vermelho, Adriano meteu primeira e preparou-se animicamente para arrancar. Mas, nesse exacto momento, ouviu um estalido e a porta do lado direito abriu-se.
- Boa noite. Está de serviço? – interrogou um homem alto e de feições bonitas, enfiando a cabeça dentro do carro.
- Sim, sim... Claro... Sente-se... – gaguejou o Adriano, com um sorriso amarelo e os músculos petrificados de susto – E para onde é que vai ser?
O homem sentou-se no lugar do morto e depois de um segundo de hesitação murmurou:
- Para lugar nenhum em especial. Leve-me para onde quiser, que a mim o que me apetece é andar de carro.
Adriano olhou fixamente para o passageiro e sentiu um aperto no coração. Era um homem elegante, mas assustadoramente sombrio. Tinha um olhar turvado e distante, que vagueava apaticamente de um lado para o outro, como se as coisas deste mundo nada lhe dissessem. Adriano arrependeu-se de o ter deixado entrar e teve vontade de lhe pedir que saísse. Mas o seu lado mais ponderado não demorou a desconsiderar essa hipótese. «Tens uma reputação a manter», pensou ele para dentro, «Vais ver que não passa de um cliente como todos os outros». Porém, assim que meteu primeira e arrancou, o homem pediu-lhe numa voz taciturna que desligasse o rádio e Adriano teve a certeza que aquele não era um cliente como os outros e que aquela viagem, de uma maneira ou de outra, lhe havia de ficar gravada na memória durante muito tempo. BGL
Subscrever:
Mensagens (Atom)